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Ciências da Religião - Textos Sagrados: Orientais e Ameríndias; Tradição Oral
las envolvidas com o processo de produção agrícola \u2013 a terra, o milho, o Sol, a chuva, a Lua. Para 
a elite existia um deus considerado acima dos outros \u2013 Hunab Ku, para o qual não se rendia culto, 
não se dedicava templos, nem se representava graficamente. Havia também o deus da morte, 
que era venerado tanto pela elite quanto pelo povo \u2013 Cizin. As deidades dos ofícios eram: Cit 
Chac Coh e Kakupacat para os guerreiros; Ixchel, Itzamná, Kinich Kakmoo para os curandeiros; Ek 
Chuah para os mercadores; Hobnil para os apicultores; Ixchel para as tecelãs e Kak Nexoc para os 
pescadores. Existiam deidades animais: o jaguar, a serpente, o morcego, o cachorro, a tartaruga, 
a mariposa, entre outras. A religião e o calendário estavam intimamente ligados, associavam-se 
deuses aos diferentes dias, e a cada dia do calendário ritual correspondia um prognóstico para 
quem nascera nele \u2013 do que precisava, qual o seu caráter, suas qualidades e defeitos, seu ofício 
futuro. (RECINOS, 1960, p. 46-51)
Os Maias acreditavam que a terra era uma superfície plana e quadrada, sustentada no lom-
bo de um monstro aquático. A crença em diferentes raças que foram criadas e destruídas su-
cessivamente era outro elemento do pensamento Maia comum aos povos mesoamericanos. Os 
primeiros homens teriam sido feitos de barro e outros de madeira, sobreviveram os que foram 
feitos de massa de milho, porque estes tiveram as faculdades de sustentar e venerar aos deuses, 
agradecer-lhes por sua criação e mostrar-se dispostos a servi-los em tudo que eles desejassem. 
Eram feitos rituais para relacionar-se com os deuses. Os rituais compreendiam jejuns e abstinên-
cias, oferendas de flores, frutos, alimentos, animais, autossacrifícios e sacrifícios humanos. Os 
ritos funerários mostram uma significativa diferença entre as classes. Pouco antes dos conquis-
tadores chegarem, os senhores e pessoas mais importantes eram queimados, guardando-se as 
cinzas em urnas de barro, porém, a gente comum era enterrada. No período clássico, as pessoas 
importantes eram enterradas em túmulos bem construídos em estruturas do centro cerimonial 
e acompanhados de oferendas e até de sacrifícios humanos, conforme a importância do mor-
to; os pobres eram enterrados em fossas simples com pouca ou nenhuma oferenda. (RECINOS, 
1960, p. 52-53)
Portanto, pode-se afirmar que a religião refletia a estrutura sociopolítica da sociedade Maia, 
com deuses populares e outros da elite. A religião serviu para assegurar a estabilidade e continui-
dade de um regime em que a maioria da população era dominada e explorada pela minoria, a 
qual exercia o poder político e o controle religioso. (RECINOS, 1960, p. 54)
5.3 O livro dos Maias - Popol Vuh
Conforme nos informa Gómez, logo no início de seu livro: \u201cO \u2018 Popol 
Vuh\u2019é, sem dúvida, o livro indígena mais importante da América [...], um 
livro religioso e ao mesmo tempo histórico\u201d (GÓMEZ, 2003, p. 7).
Ainda não foram encontradas evidências de que existiu um regis-
tro, em escrita hieróglifa, ou em outro formato, do Popol Vuh. O que se 
tem como certo é que a narrativa foi transmitida oralmente de pai para 
filho ao longo dos tempos. Se por um lado para nós isso significa perda 
ou inexatidão do que foi transmitido, por outro lado, essa era a forma 
de preservação de memória daquilo que era considerado importante na 
antiguidade. Depois de finalizada a conquista dos espanhóis na região 
que fora ocupada pelos Maias, descendentes já cristianizados e letrados 
deram conta de resgatar, de forma escrita, o tesouro herdado de sua cul-
tura ancestral. Não se sabe quem, entre os descendentes dos Maias, es-
creveu o Popol Vuh pela primeira vez em caracteres latinos, mas em sua 
língua natural, porém, importa que o texto foi preservado durante um 
século e meio na biblioteca da Igreja do povo de Santo Tomás de Chi-
chicastenango (Chuilá), na Guatemala. No princípio do século XVIII, ca-
sualmente, o padre Francisco Ximénez descobriu o texto do Popol Vuh.
Versado na língua nativa, conhecedor e comentarista das obras mais 
importantes da época sobre história do México e Centro-américa, Xi-
menéz entendeu a importância do texto encontrado e traduziu-o para 
o espanhol a partir da versão quiché, e publicou o texto com o título His-
tória da origem dos índios desta província de Guatemala.Uma segunda 
versão foi feita pelo padre Ximenéz incluída em seu livro \u201cHistoria de la 
GLoSSáRio
deidade: ser divino, 
divindade.
Figura 28: Capa do livro 
de GÓMEZ sobre o 
POPOL VUH
Fonte: Disponível em 
<http://www.fce.com.
mx/Librerias/Detalle.
aspx?ctit=015629LE> aces-
so em 18 ago. 2013.
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UAB/Unimontes - 2º Período
Província de San Vicente de Chiapa y Guatemala\u201d. A primeira versão de Ximenéz ainda 
existe, assim como uma cópia do original em quiché, o que possibilita comparar as ver-
sões mais atuais contra elas. Acredita-se que o livro que chegou até nós foi composto 
em partes, isso porque a parte final do texto fala dos descendentes dos reis de Utatlán 
que o conquistador Pedro de Alvarado mandou queimar no século XVI (GOMEZ, 2003, 
p. 8-13). As mais antigas versões do Popol Vuh, uma cópia do manuscrito quiché e a pri-
meria tradução de Ximenéz encontram-se atualmente na Biblioteca Newberry em Chi-
cago (RECINOS, 1960, p. 11).
A partir dos dados contidos no próprio manuscrito em quiché do Popol Vuh é pos-
sível determinar a data aproximada de sua escrita. Referências à visita do Bispo D. Fran-
cisco Marroquin, ocorrida em 1539, e a série de reis mencionados no final do documento 
indicam que o Popol Vuh que conhecemos foi escrito por volta do ano de 1544. Em 1855, 
o célebre americanista Charles Etienne Brasseur de Bourbourg chegou à Guatemala e se 
interessou pelo Popol Vuh escrito por Ximénez, traduzindo-o para o francês, publicado 
em 1861 com o título: Popol Vuh. Le Livre Sacré et les mythes de l\u2019antiquité américaine. Esse 
livro foi acolhido com grande interesse pelo mundo científico da América e Europa. Foi 
Brasseur de Bourbourg que atribuiu ao documento indígena o nome de Popol Vuh, nome que 
prevalece até hoje apesar das críticas de vários comentaristas (RECINOS, 1960, p. 11-13). 
Só recentemente surgiu em português uma edição bilíngue comentada do Popol Vuh, escri-
ta pelos professores Sérgio Medeiros da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Gordon 
Brohterson da Universidade de Stanford (Califórnia-EUA).
O Popol Vuh divide-se em três partes. A primeira parte descreve a criação e a origem do ho-
mem, que após vários ensaios sem sucesso, foi feito de milho, o grão que constitui a base da ali-
mentação dos naturais do México e América Central. Na segunda parte, encontram-se as aventu-
ras de dois jovens semideuses Hunahpú e Ixbalanqué e de seus pais sacrificados pelos gênios do 
mal, no reino sombrio de Xibalbay. Ao longo de vários episódios interessantes, obtém-se uma lei-
tura moral, o castigo dos malvados e a humilhação dos soberbos. A terceira parte contém notícias 
relativas à origem dos povos indígenas da Guatemala, suas migrações, distribuição no território, 
suas guerras e o predomínio da raça quiché até a chegada dos espanhóis. Apesar de menos atra-
tiva em termos literários, essa última parte é de grande interesse histórico (RECINOS, 1960, p. 16).
5.4 Importância da exegese e da 
hermenêutica como instrumento 
de compreensão da linguagem 
sagrada
As técnicas de exegese e hermenêutica permitem que nos apropriemos dos significados do 
texto analisado. Enquanto a exegese foca partes do texto, a hermenêutica garante a integridade 
da interpretação do trecho com relação ao todo em que ele se insere. No caso do Popol Vuh, 
que conforme já vimos seria uma cópia de um texto original que nunca foi encontrado e que 
na versão que conhecemos foi escrito sob domínio espanhol, técnicas