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Feita essa observação inicial, consideraremos alguns aspectos da crítica exegética e herme-
nêutica, e como as ciências da linguagem podem auxiliar a compreender textos sagrados e, con-
sequentemente, as tradições religiosas a que esses textos se referem.
Primeiro, cabe chamar a atenção para um conceito de texto formulado por Paulo Augusto 
de Souza Nogueira. Ao discutir o conceito semiótico de texto, Nogueira sugere que se pense o 
ritual como um texto complexo, composto de diversos subtextos: a palavra (oral, escrita, recita-
da), os gestos, as danças, a organização do espaço, tudo isto compõe a leitura, a interpretação do 
texto religioso (NOGUEIRA, 2013, p. 452). 
A leitura \u201ccientífica\u201d dos textos religiosos também transforma seus paradigmas no decorrer 
da história, de acordo, nesse caso, com as convicções da comunidade científica, com seu \u201cpara-
digma\u201d e sua \u201cciência normal\u201d, composta pelos métodos e procedimentos que legitimam uma 
forma de se produzir conhecimento, recorrendo aqui às ideias de Thomas Kuhn.
Etienne Alfred Higuet afirma que tratar a religião como texto é \u201cinterpretar as linguagens 
específicas que expressam a experiência do sagrado\u201d (HIGUET, 2013, p. 461). Essa interpretação 
pretende sempre uma ampliação de nossa experiência, de nossa capacidade de significação. Mas 
sabemos também que a determinação do que se considera texto religioso depende de vários 
fatores, nem todos exclusivamente religiosos.
Esses autores indicam que a significação dos textos religiosos é um processo permanente 
de ressignificação. O texto ganha vida e sobrevida na medida em que leitores se apropriam dele, 
o lêem, atribuem significados ou os redescobrem. Não nos esqueçamos de que entre os leitores 
há aqueles que são leigos e aqueles que lideram os grupos religiosos, com peso diferenciado na 
influência que podem exercer sobre a vida dos textos, inclusive transformando textos apócrifos 
em canônicos.
Referências
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Compêndio de Ciência da Religião. São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, p. 457-468.
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SAVIOLI, Francisco Platão; FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. 5. ed. São Paulo: 
Ática, 2006. 
SAVIOLI, Francisco Platão; FIORIN, José Luiz. Para entender o texto: leitura e redação. 2. ed. São 
Paulo: Ática, 2007. 
RUSS, Jacqueline. dicionário de Filosofia. São Paulo: Scipione, 1994.
SCHMIDT, J.S. Linguística e teoria de texto. São Paulo: Pioneira, 1978.
diCA
O conceito de para-
digma científico foi 
formulado por Thomas 
Kuhn em seu famoso 
livro A estrutura das 
revoluções científicas.
GLoSSáRio
texto Apócrifo: diz-se 
de texto de origem 
questionada, não 
reconhecido pelas 
lideranças religiosas 
como sagrados ou legí-
timos para a fé dentro 
da crença professada. 
(ex.: evangelhos que 
não constam do Novo 
Testamento)
texto Canônico: texto 
considerado legítimo 
pelas lideranças religio-
sas, de origem esta-
belecida como divina 
ou de patriarcas da 
crença professada. (ex.: 
Cartas dos apóstolos 
que constam no Novo 
Testamento)
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Ciências da Religião - Textos Sagrados: Orientais e Ameríndias; Tradição Oral
USARSKI, Frank. os Enganos sobre o Sagrado \u2013 Uma Síntese da Crítica ao Ramo \u201cClássico\u201d da 
Fenomenologia da Religião e seus Conceitos-Chave. Revista de estudos da religião \u2013 REVER, n. 4, 
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VASCONCELLOS, Pedro Lima. Metodologia de estudos das \u201cescrituras\u201d no campo da Ciência da 
Religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank (org.). Compêndio de Ciência da Religião. São 
Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, p. 469-483. 
Sites
http://caroldaemon.blogspot.com.br/2010/05/mel-x-melado.html
http://lovesickdreams.blogspot.com.br/2010/05/tooro-nagashi.html
http://maranhaoviegas.blogspot.com.br/2011/10/veloz.html
http://www.jjcabeleireiros.com.br/2009/05/casamentos-pelo-mundo-budismo.html
http://www.pucsp.br/rever
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Ciências da Religião - Textos Sagrados: Orientais e Ameríndias; Tradição Oral
UnidAdE 2
Hinduísmo
Admilson Eustáquio Prates
Claudio Santana Pimentel
Jeferson Betarello
2.1 Introdução
Neste capítulo apresentaremos o Hinduísmo, sua origem histórica e o desenvolvimento de 
sua literatura religiosa, priorizando a tradição védica, conhecida por sua antiguidade e importân-
cia para os desenvolvimentos posteriores das práticas hindus, mas comentaremos também ou-
tros textos importantes, como o Baghavad-Gita, e o Vivekachudamani. Iniciaremos nossa discus-
são com uma reflexão sobre a importância da exegese e da hermenêutica para a compreensão 
dos textos e das práticas religiosas.
2.2 Importância da exegese e da 
hermenêutica como instrumento 
de compreensão da linguagem 
sagrada
A série de estudos eruditos The Blackwell Companion, por exemplo, em seu volume dedica-
do ao Hinduísmo, destina aos textos religiosos hinduístas as duas primeiras seções da segunda 
parte (a primeira seção é dedicada aos textos em sânscrito; a segunda, aos textos em línguas 
regionais indianas). A terceira seção é histórica. Isso mostra que a compreensão histórico-so-
\u25c4 Figura 6: Ritual 
religioso no rio 
Ganges, Índia. 
Fonte: Disponível em 
www.google.com> aces-
so em 18 ago. 2013.
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UAB/Unimontes - 2º Período
cial sem a compreensão do raciocínio linguístico e literário de uma tradição religiosa mostra-se 
\u201cmanca\u201d \u2013 o contrário também é verdadeiro. 
Feita essa observação inicial, consideraremos alguns aspectos da crítica exegética e herme-
nêutica, e como as ciências da linguagem podem auxiliar a compreender os textos religiosos e, 
consequentemente, as tradições religiosas a que esses textos se referem.
Uma das grandes dificuldades que temos, principalmente ao lidar com textos antigos e per-
tencentes a tradições culturalmente distantes, como os Vedas, é negligenciar ou desconsiderar 
que esses textos foram elaborados em sociedades fortemente marcadas pela oralidade, e os es-
critos que chegaram até os dias de hoje foram objeto de reconstruções, em ao menos dois níveis: 
no que se refere à própria tradição religiosa, que \u201csacraliza\u201d ou recusa determinados textos, incor-
porando-os ou rejeitando-os, processo que se faz e refaz ao longo da história, de acordo com os 
próprios interesses do grupo religioso; no que se refere à crítica especializada (às vezes, mas nem 
sempre, religiosamente comprometida) que se aproxima do texto como objeto de investigação, 
com o propósito de examiná-lo em seus diferentes aspectos: ritual, mítico, linguístico, histórico, 
político etc. 
Em determinadas tradições, como no Cristianismo, componentes histórico-sociais e institu-
cionais favoreceram a formação de um cânone reconhecido. Como veremos, no Hinduísmo, por 
suas características de diversidade de tradições e inexistência de um poder institucional centrali-
zador, se falar em um cânone torna-se muito mais difícil. A esse respeito, diz Vasconcellos:
Justamente aí encontramos que o reconhecimento das \u201cescrituras\u201d nesse uni-
verso