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da 
tradição judaica é um 
exemplo da influência 
exercida pelo texto 
sagrado sobre seus 
adeptos. Com base no 
que você estudou nesta 
unidade, elabore um 
pequeno parágrafo dis-
sertativo falando sobre 
o poder que o texto sa-
grado pode exercer na 
vida de um povo, poste 
sua tarefa no fórum da 
unidade e discuta com 
seus colegas. 
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Ciências da Religião - Textos Sagrados: Torá e Bíblia
UnIdAde 4
A Bíblia
Ângela de Santana Rocha Correia
4.1 Introdução
Nas unidades anteriores apresentamos a você o texto sagrado do judaísmo. Exploramos o 
processo de produção e canonização dos livros que integraram a Torá e discutimos o impacto 
dessa escritura sagrada no mundo judaico. Nessa mesma perspectiva, passaremos, a partir de 
agora, ao estudo de outro texto sagrado, a Bíblia que, como dissemos, está intimamente relacio-
nada à escritura judaica, uma vez que não somente se consolidou no seio de uma religião origi-
nária do judaísmo, como também admitiu os livros sagrados judaicos em sua composição. 
Vamos perscrutar a origem histórica das escrituras cristãs, percorrer o processo de canoniza-
ção dos textos e a integração dos livros judaicos, processo este que constituiu a Bíblia na versão 
conhecida atualmente. Vamos também discutir o impacto desse livro sagrado no mundo ociden-
tal, onde o cristianismo adquiriu grande expressividade. 
Embora esta religião tenha se expandido por todo o mundo, concentraremos nosso estudo 
no Ocidente tanto em função da necessidade de delimitar o assunto, que é por demais extenso, 
como também pela notoriedade alcançada pela Bíblia nessa porção do planeta. 
Além disso, é no Ocidente que se encontra o nosso país, portanto, ao falar sobre a presença 
e impacto da Bíblia no mundo ocidental, estamos nos referindo também à realidade brasileira. 
Ao final deste caderno, daremos um enfoque maior a esse ponto de nossa abordagem.
Conscientes da impossibilidade de esgotar todo o assunto em um único Caderno Didático, 
o que propomos a você é uma breve jornada pela história da Bíblia, perscrutando sua formação 
e sua influência no interior das comunidades que a adotaram como referência, tomando como 
exemplo o mundo Ocidental. Convidamos-lhe também a estender o olhar para um contexto 
mais amplo, o do livro sagrado como manifestação do fenômeno religioso. Vamos vislumbrar, 
mais uma vez, nas páginas que se seguem, o nascimento e a evolução da sagrada escritura no 
contexto dos anseios, necessidades e interesses do povo que os concebe ou que a eles adere 
como fonte de sentido. 
Mas, para isso, a exemplo do que fizemos em relação à Torá, faz-se necessário uma estação 
na história, a fim de conhecermos os autores dos textos e o contexto em que eles viveram e pro-
duziram seus escritos. Começaremos, então, com um breve histórico do cristianismo. Falaremos 
sobre a origem dessa religião no seio do judaísmo, sobre a ruptura em relação à matriz judaica e 
algumas crises enfrentadas durante o processo de consolidação da religião cristã. Esse trajeto é 
fundamental para que compreendamos os motivos e processo de composição do cânone neo-
testamentário.
4.2 O Cristianismo primitivo: 
apontamentos históricos
O cristianismo originou-se em meio ao judaísmo, a partir do evento Jesus de nazaré. Con-
forme a tradição, este judeu, chamado Cristo (o ungido), anunciava a proximidade de um Reino 
de deus e trazia a proposta de uma nova aliança, que seria selada entre Deus e todos aqueles 
que cressem em seus ensinamentos. Com o relato de sinais prodigiosos e uma mensagem inova-
dora, centralizada na salvação como um ato da misericórdia divina, a chamada Boa nova, Jesus 
foi identificado por muitos como o Messias, o salvador há muito tempo esperado por Israel e, 
mais do que isso, seria considerado um ser divino, o filho de Deus. 
dICA
A palavra Bíblia expres-
sa conjunto de livros, 
deriva do grego Biblion, 
que significa livrinho. 
Assim, a palavra Bíblia 
traduz-se como livri-
nhos.
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UAB/Unimontes - 3º Período
A crença fervorosa de um pequeno grupo em um Deus encarnado, morto (e de maneira 
cruel) por pregar a justiça e a paz, e ressuscitado para redimir a humanidade, lançou as bases 
de uma nova religião. Mais uma vez, um pequeno e convicto grupo se levantava na História, er-
guendo a bandeira do seu Deus e persistindo contra toda animosidade encontrada pela frente 
em defesa de sua fé. Herança do ethos judaico? Efeito das certezas impressas na Torá? Confiança 
em um ressuscitado que, como a nuvem de outrora que cobria o povo no deserto, agora velava 
pelos seus corajosos seguidores e porta-vozes? Muitas conjecturas são possíveis para a ousadia e 
a persistência dos primeiros cristãos.
Contudo, a princípio não se pensava em fundar uma nova religião: os partidários de Jesus 
Cristo representavam um grupo dentro do judaísmo que não tinha pretensões separatistas, as-
pirava tão somente uma revitalização e a universalização da religião judaica, abrindo-a também 
aos não judeus. O teólogo Theissen (2009, p. 227) afirma, a esse respeito:Jesus e seus seguidores 
estavam profundamente enraizados no Judaísmo. Nada lhes era mais estranho do que a ideia de 
sobrepujar ou abandonar o Judaísmo. Ainda mais, o movimento deles era um dos muitos movi-
mentos de revitalização do Judaísmo [...] Contudo, desde o início, esboça-se, no movimento de 
Jesus, a tendência de uma abertura do Judaísmo [...]. (THEISSEN, 2009, p. 227).
O malogro desse movimento, em função da oposição ferrenha de sacerdotes judeus e da 
resistência de grande parte da comunidade judaica às inovações propostas, levou o cristianismo 
a caminhar em outra direção, rumo a uma religião independente de sua matriz. A partir de então, 
a nova religião se organizou a partir da figura de Jesus Cristo, considerado o único Revelador, 
aquele Messias cumpridor das promessas salvíficas divinas, outrora direcionadas a Israel através 
dos profetas. Esse Messias, porém, não era um líder político e militar que viria retirar Israel do 
domínio de seus inimigos, como esperava o povo judeu. Era, ao contrário, aos olhos dos seus 
seguidores, um líder ético-religioso que traria ao povo mais do que uma libertação temporal, a 
salvação eterna.
No interior dessa nova religião, à medida que se buscava uma linguagem simbólica e reli-
giosa própria, entrava em cena um jogo de permanências e rupturas, uma vez que a simbolo-
gia judaica servia de matéria-prima para as novas formulações simbólicas do cristianismo. Nesse 
contexto, antigos ritos de Israel, como a festa da Páscoa, por exemplo, foram ressignificados, an-
tigas normas, como as regras de pureza e a circuncisão, foram relativizadas e os mandamentos 
éticos da Torá foram universalizados. 
O processo de ruptura da nova religião com o judaísmo foi progressivo e teve seu ápice no 
âmbito das escrituras (ainda que estas tenham conservado traços importantes da cosmovisão ju-
daica em seu substrato), pois foi a partir do momento em que se iniciou uma produção textual 
própria que se afirmou a autonomia do cristianismo em relação à sua religião matricial.
Em um primeiro momento, os cristãos não haviam sentido necessidade de outro livro como 
fundamento da fé que não fosse a Torá, até porque ainda acreditavam em um retorno breve de 
Cristo (parusia) e na reunião entre judeus e cristãos em torno da fé em Jesus Cristo. Entretanto, 
vários fatores contribuíram para que começassem a ser produzidos textos próprios no interior 
das comunidades cristãs, para a formação de um cânone cristão.
Com a morte da primeira geração de cristãos, faziam-se necessários meios de conservação 
e propagação dos ensinamentos religiosos entre as novas gerações. Além disso, as questões le-
vantadas pela conversão de povos não judeus ao cristianismo e o avanço de doutrinas heréticas, 
levaram a reflexões e discussões em torno do mistério da cruz e das escrituras, lançando as