335 - Livro da disciplina - Cultura Surda e Libras
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uma época em que estão ocorrendo
mudanças que afetam as bases culturais nacionais, de
gênero, de classe, de etnia etc., assim como mudam a
nossa própria identidade. A partir disto, ocorre, simul-
taneamente, um \u201cduplo descentramento\u201d, pois somos, ao
mesmo tempo, deslocados do nosso mundo cultural e so-
cial e também de nós próprios, constituindo, assim, con-
forme Hall (2000), uma \u201ccrise de identidade\u201d. As trans-
formações sociais, econômicas, políticas e culturais viven-
ciadas pelo sujeito contemporâneo contribuem de forma
significativa nesse processo de \u201ccrise de identidade\u201d.
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Hall entende que a constituição das identidades \u201ctem
a ver com a questão da utilização dos recursos da história,
da linguagem e da cultura para a produção não daquilo
que nós somos, mas daquilo no qual nos tornamos\u201d
(2000, p. 40). O sujeito passa a ser entendido como sendo
constituído no interior da história, entretanto, ele também
está a ela conectado, sendo que o próprio conceito de
sujeito pode ser considerado como uma invenção histor-
icamente determinada. Com isso, saímos de uma ideia que
remete à compreensão se um sujeito desde sempre aí, um
sujeito historicamente determinado.
São as diversas condições sociais, econômicas, cul-
turais, tecnológicas que interferem na constituição de cada
indivíduo. A partir de suas interações e das condições que
possibilitam essas interações, cada sujeito internaliza
formas específicas de se relacionar com os outros, com o
meio e com ele próprio.
Para Costa (2000), as sociedades e culturas em que
vivemos são dirigidas por poderosas ordens discursivas
que regem o que deve ser dito e o que deve ser calado,
onde os próprios sujeitos não estão isentos desses efeitos.
Desta forma, pode-se compreender que a identidade está
relacionada com aquilo que é produzido pela linguagem.
Os discursos organizam formas de identificação e de rep-
resentação dos sujeitos e, no caso dos surdos, isso não se
processa de forma diferente.
7.3 Experiências culturais e identitárias dos
sujeitos surdos
No que se refere aos surdos, a identidade também
passa a ser entendida como sendo constituída de forma
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múltipla e descentrada. Com isso, os surdos não podem
ser definidos como um grupo que vivencia suas experiên-
cias da mesma forma, como membros de uma comunidade
homogênea. Cada sujeito estabelece experiências culturais
e identitárias de forma particular e multifacetada. Cada in-
divíduo é interpelado de diferentes formas pelos discursos
que constituem as práticas às quais se encontram
vinculados.
Por meio das vivências particulares, cada sujeito
elabora e internaliza fragmentos que se alinham a outras
experiências suas e passam a constituir nele \u2013 no sujeito
surdo \u2013 formas particulares de entender e interagir nas re-
lações sociais. Na interação entre os sujeitos, diversos
significados entrecruzam-se, são fatos que marcaram sua
infância, seu processo educacional, suas relações famili-
ares, suas experiências em diferentes espaços sociais que
vão constituindo modos de ser e de agir.
A partir dessas diferentes formas de compreender e
interagir com o mundo é que passam a ser constituídas
práticas que corroboram nos processos de constituição da
identidade dos sujeitos surdos. Nessa proposta, a iden-
tidade e a cultura surda tornam-se elementos coad-
juvantes nos processos de significação cultural que possib-
ilitam inventar a surdez como uma condição cultural
diferente.
Viver a experiência linguística de uma educação
pautada em uma proposta bilíngue é uma das formas de
constituição da identidade surda. Nem todos os surdos,
entretanto, vivenciam da mesma maneira a sua posição
identitária. Alguns surdos optam por implantes cocleares,
pelo uso de aparelhos auditivos e/ou recursos que possib-
ilitem algum recurso auditivo. São sujeitos que buscam,
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em sua constituição, assemelhar-se às características de
outros grupos, neste caso, os ouvintes.
Outros sujeitos surdos fazem a opção de vivenciar
suas experiências a partir de uma perspectiva cultural.
Nesse contexto, a língua de sinais é um operador import-
ante na constituição da identidade surda. É por meio de
práticas visuais que se constituem elementos significativos
no desenvolvimento dos sujeitos e em suas interações.
Nessa forma de interação com o mundo, a condição da
surdez não se apresenta como uma patologia, um prob-
lema a ser resolvido e/ou corrigido. Ser surdo significa ex-
perimentar de outras formas as vivências pessoais. Ser
surdo, a partir de um contexto cultural, significa dialogar
com os indivíduos a partir de outra língua: a língua de
sinais.
Na interface dessa outra condição de dialogar com a
sociedade, vivencia-se a possibilidade de lançar um novo
olhar para a educação de surdos e, portanto, reinterpretar
nossas narrativas e representações acerca do \u201cser surdo\u201d.
Por exemplo, ao propor uma aproximação a temas sobre
identidades, diferenças, é possível perceber que o \u201cser
surdo\u201d ultrapassa as características de uma identidade
hegemônica, essencializada, construída através de alguns
traços comuns, únicos e universais. Falar em identidade
surda é referir-se a uma identidade constituída num pro-
cesso histórico, é vê-la como algo incompleto, que está
sempre em construção.
A possibilidade de trabalhar com a ideia de uma ped-
agogia que se volte para essas diversas formas de constitu-
ição das identidades surdas nos permite optar pelo cam-
inho em que a surdez é vista como uma diferença política e
uma experiência visual. E, assim, pensar as identidades
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surdas a partir do conceito de diferença, e não de deficiên-
cia. Aqui implica distanciar-se do conceito de diferença
como exclusão, marginalização daqueles considerados
como \u201coutros\u201d, aqueles que parecem estar \u201cfora do lugar\u201d.
Cabe, sim, entender que essa diferença apenas é: intra-
duzível, incapturável, indescritível, pois se constitui a
partir de outras experiências culturais, outros modos de
ver e interagir com o mundo.
Portanto, pensar em uma educação pautada em uma
diferença que é intraduzível requer um olhar voltado para
a forma pela qual os surdos interagem com o mundo. Essa
forma de interação encontra-se alicerçada na comunicação
por meio da língua de sinais. Assim sendo, somente pode-
se pensar em uma educação inclusiva a partir do momento
em que forem produzidas práticas bilíngues.
Uma prática educacional bilíngue estrutura-se na in-
strução pela língua de sinais para a utilização posterior da
língua portuguesa escrita. A partir disso, entende-se que
todo processo de instrução e de comunicação, no espaço
escolar, dar-se-á por meio da língua de sinais. A língua
portuguesa, como recurso de escrita, constitui-se como
uma segunda língua utilizada pelos surdos. Assim,
produzir uma educação inclusiva, na qual possam existir
condições para a constituição de identidades surdas, é op-
erar com a ideia de uma educação bilíngue.
Educação inclusiva, identidades surdas, cultura
surda, educação bilíngue são a centralidade daquilo que se
constitui como formas diferentes de estar, de vivenciar e
de se relacionar com a sociedade. Portanto, uma política
educacional para surdos que considere essa diferença cul-
tural como uma outra possibilidade de educação, como
uma outra experiência, como um outro processo de
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constituição dos sujeitos pode ser pensada como uma
política inclusiva. Eis os desafios!
REFERÊNCIAS
BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Per-
spectiva da Educação Inclusiva. 2008. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/polit-
ica.pdf>. Acesso em: jan. 2009.
BRASIL. Série Educação Inclusiva \u2013 Referenciais para a
construção de sistemas educacionais inclusivos. Funda-
mentação Filosófica. 2004. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/funda-
mentacaofilosofica.pdf>. Acesso em: jan. 2009.
COSTA, Marisa Vorraber.
Marcela
Marcela fez um comentário
muito muito obg... será de grande ajuda...
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