Libertação Animal - Peter Singer
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Libertação Animal - Peter Singer


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Se o macaco deixar de ter os desempenhos desejados, o treino 
regressa à fase VI. De outra forma, o treino prossegue nesta fase até o macaco conseguir 
manter a plataforma a um nível aproximadamente horizontal e evitar So por cento dos 
choques administrados. O tempo requerido para o treino dos macacos da fase III até à 
VII vai de dez a doze dias. 
Após este período, o treino prossegue durante mais vinte dias. Neste período 
adicional, é utilizado um mecanismo que provoca a inclinação e rotação aleatórias da 
cadeira de forma mais violenta, devendo o macaco manter o mesmo nível de 
desempenho, fazendo regressar a cadeira à posição horizontal: caso contrário, receberá 
choques elétricos frequentes. 
Todo este treino, envolvendo milhares de choques elétricos, é apenas uma 
introdução à verdadeira experiência. Logo que os macacos consigam manter a plataforma 
na posição horizontal de uma forma sistemática, são expostos a doses letais ou subletais 
de radiação ou agentes químicos, para que se verifique se continuam a "pilotar" a 
plataforma. Assim, com náuseas e provavelmente a vomitar devido às doses fatais de 
radiação, são forçados a manter a plataforma na posição horizontal e, quando não o 
conseguem, recebem choques frequentes. Eis um exemplo, retirado do relatório da U.S. 
Air Force School of Aerospace Medicine [Escola da Força Aérea Norte-Americana de 
Medicina Aeroespacial], publicado em Outubro de 1987 - depois de se ter começado a 
exibir o filme Project X.2 
O relatório intitula-se "Primate Equilibrium Performance Following Soman Exposure: 
Effects of Repeated Daily Exposures to Low Soman Doses" ["Desempenho no equilíbrio 
dos primatas após exposição ao soman: efeitos de repetidas exposições diárias a baixas 
concentrações de soman"]. Soman é outra designação do gás mostarda, um agente 
químico que causou uma agonia terrível aos exércitos da Primeira Guerra Mundial, mas 
que, felizmente, tem sido muito pouco utilizado desde então. Este relatório começa por 
fazer referência a vários relatórios anteriores, nos quais a mesma equipe de 
investigadores estudou os efeitos de uma "exposição acentuada a soman" sobre o 
desempenho na PER. Todavia, este estudo específico centra-se nos efeitos de pequenas 
doses administradas durante vários dias. Nesta experiência, os macacos tinham 
trabalhado na plataforma "pelo menos semanalmente" durante um mínimo de dois anos, 
tendo recebido anteriormente várias drogas e pequenas doses de soman, mas não nas 
semanas imediatamente anteriores. 
As experiências visavam calcular as doses de soman que seriam suficientes para 
reduzir a capacidade de o macaco operar a plataforma. Para que o cálculo pudesse ser 
feito, como é óbvio, os macacos receberiam choques elétricos como consequência da sua 
incapacidade de manter o equilíbrio da plataforma. Embora o relatório se refira sobretudo 
ao efeito do gás mostarda no nível de desnipenho dos macacos, também permite ter uma 
idéia de outros efeitos das armas químicas: 
O sujeito encontrava-se completamente incapacitado no dia posterior à última 
exposição, revelando sintomas neurológicos que incluíam descoordenação grave, 
fraqueza e tremor (...) Estes sintomas persistiram após vários dias, durante os quais o 
animal permaneceu incapaz de desempenhar a tarefa da PEP.3 
 
O dr. Donald Bames foi, durante vários anos, investigador principal na Escola da 
Força Aérea de Medicina Aeroespacial, tendo sido responsável pelas experiências levadas 
a cabo com a PEP na Base Aérea de Brooks. Bames calcula ter submetido a radiações 
cerca de mil macacos treinados durante os anos em que ocupou esse posto. 
Posteriormente, escreveu: 
 
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Durante alguns anos, senti suspeitas acerca dos dados que estávamos a 
recolher. Fiz algumas tentativas simbólicas no sentido de averiguar tanto o 
destino como o objetivo dos relatórios técnicos que publicávamos, mas 
reconheço agora a avidez em aceitar as garantias dos meus superiores de 
que, de fato, estávamos a fornecer um serviço efétivo à Força Aérea 
americana e, portanto, à defesa do mundo livre. Usei essas garantias como 
antolhos para evitar a realidade daquilo a que assistia no campo; e, embora 
nem sempre os usasse descontraidamente, serviram para me proteger das 
inseguranças relacionadas com uma potencial perda de estatuto e 
rendimento... 
E então, um dia, os antolhos escorregaram, e dei comigo em séria 
confrontação com o dr. Roy DeHart, Comandante da Escola da Força Aérea de 
Medicina Aeroespacial. Tentei fazer-lhe ver que, na eventualidade de uma 
confrontação nuclear, seria altamente improvável que os comandantes de 
operação se debruçassem sobre gráficos e números relativos a macacos-resos 
para obter estimativas das probabilidades de força ou capacidade de 
desferir um segundo ataque. O dr. DeHart insistiu na idéia de que os dados 
teriam um valor incalculável, afirmando: "Eles não sabem que os dados se 
baseiam em estudos efetuados com animais."
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Bames demitiu-se e tomou-se um grande opositor às experiências com animais; no 
entanto, as experiências que utilizam a PEP prosseguem ainda. 
O filme Project X levantou o véu sobre um certo tipo de experiências conduzidas 
pelas forças armadas. Acabamos de a analisar com um pouco de pormenor, embora 
levasse muito tempo descrever todas as formas de radiação e agentes químicos testados, 
em doses variáveis, em macacos, na PER. O que agora precisamos compreender é que 
esta é apenas uma pequena parte da quantidade total de experiências militares 
realizadas com animais. Já há alguns anos que se tem manisfestado preocupação 
relativamente a estas experiências. 
Em Julho de 1973, o deputado Les Aspin, de Wisconsin, soube, graças a um anúncio 
publicado num jomal obscuro, que a Força Aérea dos Estados Unidos se preparava para 
adquirir duzentos cachorrinhos beagles, com as cordas vocais atadas para que não 
ladrassem normalmente, para servirem para testar gases venenosos. Pouco tempo 
depois, soube-se que também o exército tencionava utilizar beagles desta vez, 
quatrocentos - em testes semelhantes. 
Aspin iniciou um protesto veemente, apoiado pelas organizações anti-
viviseccionistas. Foram colocados anúncios nos principais jornais de todo o país. 
Começaram a chover cartas de leitores revoltados. Um estagiário do Comitê da Câmara 
dos Representantes das Forças Armadas disse que o comitê tinha recebido mais correio 
relativo aos beagles do que sobre qualquer outro assunto desde que Truman tinha 
despedido o general MacArthur, ao passo que um memorando interno do Ministério da 
Defesa, redigido por Aspin, declarava que o volume de correio que o ministério tinha 
recebido fora o maior de sempre sobre um único acontecimento, ultrapassando mesmo a 
correspondência recebida relativa aos bombardeamentos do Camboja e do Vietnã.5 Após 
ter defendido as experiências numa primeira fase, o Ministério da Defesa anunciou 
posteriormente que as adiaria e consideraria a possibilidade de substituir os beagles por 
outros animais. 
Tudo isto deu ensejo a um incidente curioso - curioso porque o furor público acerca 
desta experiência específica revelou uma ignorância notável da natureza das experiências 
normais conduzidas pelas forças armadas, por institutos de investigação, por 
universidades e empresas de vários tipos. É verdade que as experiências propostas pela 
força aérea e pelo exército estavam pensadas de forma a fazer sofrer e matar animais 
sem qualquer certeza de que este sofrimento e estas mortes salvariam unicamente a vida 
humana ou beneficiariam os humanos de qualquer forma; mas também se pode dizer o 
mesmo de milhões de outras experiências levadas a cabo todos os anos só nos Estados 
Unidos. Talvez a preocupação tenha sido suscitada pelo fato de as experiências se irem 
realizar com beagles. Mas, sendo assim, por que razão não houve protestos 
relativamente