O_Direito_Internacional_dos_Refugiados
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Alto Comissariado
para os Refugiados Judeus provenientes da Alemanha e criou o Alto
Comissariado da Liga das Nações para Refugiados.137
A criação desse órgão de proteção aos refugiados inaugurou uma nova
fase do Direito Internacional dos Refugiados, isto porque, até então, a
qualificação de uma pessoa como refugiada era feita a partir de critérios
coletivos, ou seja, em função de sua origem, sua nacionalidade ou sua etnia
\u2013 a pessoa não necessitava demonstrar que sofria perseguição, mas tão-
somente que pertencia a um dos grupos tidos como de refugiados \u2013 e, com
sua criação, a qualificação passou também a ser fundamentada em aspectos
individuais, ou seja, na história e características de cada indivíduo e na
perseguição sofrida por ele e não apenas em reconhecimentos coletivos.
Mantiveram-se, contudo, os fundamentos da concessão de refúgio, ou
seja, continuavam a ser utilizados os critérios da origem, nacionalidade ou etnia.
Para o reconhecimento individual, não bastava, assim, que a pessoa
pertencesse a determinada nacionalidade ou etnia, mas o que se considerava
_____________
136 A questão dos refugiados judeus alemães mostrou-se tão relevante que 3 (três) documentos
foram assinados acerca do tema: Provisional arrangement concerning the Statues of
Refugees coming from Germany (C 362 M 237), Intergovernmental Conference for the
Adoption of a Statute for Refugees coming from Germany (C 362 [a] M 327 [a]), ambos
em 1936; e Convention concerning the Status of Refugees coming from Germany (C
75 [1] M 30 [1]), em 1938.
137 Por meio de cinco resoluções adotadas pela Assembléia Geral da Liga das Nações, em
Genebra, aos 30 de setembro de 1938.
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Thereza Cristina Faccio de Castro
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O DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS78
era o fato de ela ser individualmente perseguida em função desse perten-
cimento. Esta qualificação dos refugiados é a atualmente utilizada quando
não há fluxos em massa de refugiados.
O Alto Comissariado da Liga das Nações para Refugiados não dispunha
de fundos próprios, cabendo a ele apenas a coordenação de fundos privados
para a proteção dos refugiados, o que o impedia de realizar atividades diretas
de assistência.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o conseqüente aprofun-
damento da crise de legitimidade e poder da Liga das Nações, o Alto
Comissariado da Liga das Nações para Refugiados passou a ser ineficaz,
não conseguindo executar suas tarefas. Muito porque, enquanto a Primeira
Guerra Mundial gerou 4 milhões de refugiados, a Segunda Guerra Mundial
fez surgir mais de 40 milhões de refugiados.
Esse órgão perdurou, então, apenas até 1946, quando a Liga das Nações
foi oficialmente extinta.
Paralelamente ao Alto Comissariado para Refugiados da Liga das
Nações, ainda em 1938, foi criado o Comitê Intergovernamental para os
Refugiados, sob a influência dos Estados Unidos, que já vislumbravam o
declínio da Liga das Nações, até em virtude de sua recusa em participar
oficialmente dela.
Tal órgão atuava de forma complementar ao Alto Comissariado da Liga
das Nações para Refugiados, tendo sido seu grande mérito a celebração da
Conferência de Evian (1938), na qual, pela primeira vez, se fez menção
às causas da fuga dos refugiados e se condicionou a concessão do refúgio
à existência de uma dessas.
Com o fim do Alto Comissariado da Liga das Nações para Refugiados,
o Comitê Intergovernamental para Refugiados assumiu suas funções. Esta
situação perdurou até 1947, quando ele foi extinto, passando a proteção
internacional dos refugiados a ser de competência, ainda que provisória, da
Comissão Preparatória da Organização Internacional para Refugiados, sob
os auspícios da ONU (mais especificamente do Conselho Econômico e
Social).
Desde a sua criação, a ONU mostrou-se preocupada com a temática
dos refugiados, tendo em 1946 adotado duas resoluções: (1) a resolução A/
45, de 12.02.1946, que apontava as bases da atuação da ONU na problemática
dos refugiados, elencando quatro fundamentos próprios da temática dos
refugiados, quais sejam: (a) o caráter internacional do tema, (b) a necessidade
de se estabelecer um órgão internacional para cuidar da proteção dos
refugiados, (c) a impossibilidade de se devolverem refugiados para situações
de risco (princípio do non-refoulement) e (d) o auxílio aos refugiados,
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CONSOLIDAÇÃO DO INSTITUTO DO REFÚGIO 79
objetivando o seu retorno aos seus países assim que possível;138 e (2) a
resolução 15. XII. 46. 18 (1948), que inicia os preparativos para a criação
da Organização Internacional para Refugiados.
Em 1948, essa organização entrou em vigor139 com o escopo de atuar
conjuntamente com uma organização criada pelos aliados em 1943, encar-
regada de assistir às vítimas dos territórios ocupados, e denominada
Administração das Nações Unidas de Socorro e Reconstrução.140
Em face do bom trabalho de sua Comissão Preparatória, a Organização
Internacional para os Refugiados teve facilitadas as suas tarefas, quais sejam:
(1) identificação, registro e classificação dos refugiados, (2) auxílio e
assistência, repatriação, proteção jurídica e política, (3) transporte e reas-
sentamento e (4) restabelecimento de refugiados.
O tratado constitutivo dessa organização trazia, ainda, uma definição mais
ampla do termo refugiado e colocava sob sua proteção as pessoas \u201cdeslocadas
internamente\u201d, fato inédito no Direito Internacional dos Refugiados.
Assim como os demais organismos responsáveis pela proteção dos
refugiados, a Organização Internacional para os Refugiados foi criada com
um limite temporal de atuação, sendo a data do encerramento de suas
atividades o dia 30 de junho de 1950; mas, contrariamente ao esperado,
ela somente encerrou as suas ações em 28 de fevereiro de 1952, uma vez
que se faziam necessárias preparações para o estabelecimento de um novo
organismo competente para tratar do tema.
Este organismo veio a ser um órgão da ONU, o Alto Comissariado das
Nações Unidas para Refugiados [ACNUR], para o qual foi transferida a proteção
dos refugiados após a extinção da Organização Internacional para Refugiados.
Ele foi estabelecido em 1.º de janeiro de 1950 no âmbito da ONU,
como mencionado, no que difere de sua antecessora, que era um órgão
autônomo.141 Seu mandato foi estipulado em três anos (mas em face da
manutenção da crise dos refugiados tem sido renovado a cada cinco anos).
_____________
138 BARRETO, L. P. T. Ob. cit.
139 Nesse momento tem-se a passagem da proteção política e jurídica dos refugiados para
a proteção internacional; cf. ACNUR. Compilación de instrumentos jurídicos interna-
cionales: Principios y criterios relativos a refugiados y derechos humanos. Genebra,
1992. p. XIX.
140 Primeiro órgão internacional a ter a expressão nações unidas em seu nome (note-se que a ONU
só passou a existir em 1946), cf. FISCHEL DE ANDRADE, J. E. Ob. cit., p. 107.
141 Isto porque 18 dos 42 Estados membros da ONU, que eram os membros da Organização
Internacional para Refugiados, decidiram que a proteção deveria ser realizada pela
comunidade internacional como um todo, sendo o mais adequado a sua inserção no âmbito
da ONU.
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