O_Direito_Internacional_dos_Refugiados
272 pág.

O_Direito_Internacional_dos_Refugiados


DisciplinaDireito Internacional dos Refugiados7 materiais282 seguidores
Pré-visualização50 páginas
as medidas de fiscalização mencionadas na presente Convenção,
a Potência detentora não tratará como estrangeiros inimigos, exclusivamente na base da
sua subordinação jurídica a um Estado inimigo, os refugiados que não gozem de fato
da proteção de qualquer Governo\u201d; \u201cArtigo 51 \u2013 A Potência ocupante não poderá obrigar
as pessoas protegidas a servirem nas suas forças armadas ou auxiliares. Toda a pressão
ou propaganda destinada a conseguir alistamentos voluntários é proibida [...]\u201d; Artigo
70 \u2013 [...] Os nacionais da Potência ocupante que, antes do início do conflito, tiverem
procurado refúgio no território ocupado não poderão ser presos, processados, condenados
ou deportados desse território, a não ser que infrações cometidas depois do início das
hostilidades ou delitos de direito comum praticados antes do início das hostilidades,
segundo a lei do Estado cujo território está ocupado, tivessem justificado a extradição
em tempo de paz.\u201d
188 \u201cArtigo 48 \u2013 De forma a assegurar o respeito e a proteção da população civil e dos
bens de caráter civil, as Partes no conflito devem sempre fazer a distinção entre população
civil e combatentes, assim como entre bens de caráter civil e objetivos militares, devendo,
portanto, dirigir as suas operações unicamente contra objetivos militares\u201d; \u201cArtigo 51,
6 \u2013 São proibidos os ataques dirigidos a título de represália contra a população civil
ou pessoas civis\u201d; \u201cArtigo 58 \u2013 Na medida do que for praticamente possível, as Partes
no conflito: a) Esforçar-se-ão, procurarão, sem prejuízo do artigo 49.º da Convenção
IV, por afastar da proximidade dos objetivos militares a população civil, as pessoas civis
e os bens de caráter civil sujeitos à sua autoridade; b) Evitarão colocar objetivos militares
no interior ou na proximidade de zonas fortemente povoadas; c) Tomarão outras
precauções necessárias para proteger a população civil, as pessoas civis e os bens de
caráter civil sujeitos à sua autoridade contra os perigos resultantes das operações
militares\u201d; \u201cArtigo 73 \u2013 As pessoas que, antes do início das hostilidades, foram
consideradas apátridas ou refugiadas, nos termos dos instrumentos internacionais
pertinentes aceites pelas Partes interessadas, ou da legislação nacional do Estado de
acolhimento ou de residência, serão, em qualquer circunstância e sem qualquer
discriminação, pessoas protegidas, nos termos dos títulos I e III da Convenção IV.\u201d
189 \u201cArtigo 14 \u2013 O gozo dos direitos e liberdades previstos nesta Convenção deve ser
assegurado sem discriminação de qualquer espécie, tais como de sexo, raça, cor, língua,
religião, opinião política ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social,
associação a um grupo minoritário, propriedade, nascimento ou outra condição.\u201d
Refugiados - 01 ok ctp.p65 5/6/2007, 18:4190
Thereza Cristina Faccio de Castro
CONSOLIDAÇÃO DO INSTITUTO DO REFÚGIO 91
(ambas sem artigos específicos, mas relevantes em sua totalidade em função da
semelhança entre a situação dos apátridas e dos refugiados, vez que nenhum deles
conta com a proteção estatal), o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos
e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966
(ambos também sem artigos específicos, mas importantes por assegurar uma
vasta gama de direitos humanos a todos os indivíduos) e a Convenção Americana
sobre Direitos Humanos de 1969 (artigo 22, § 7.º190 ).
Na relação inversa, ou seja, o Direito Internacional dos Refugiados
criando regras usadas por outros ramos de proteção da pessoa humana tem-
se, por exemplo, a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou
Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984), que, em seu artigo 3.º,191
proíbe tais tratamentos, pelo que se entende que expandiu a abrangência
do princípio do non-refoulement a todas as pessoas, vetando a extradição
e/ou expulsão para territórios nos quais possam ocorrer tais práticas
Desse modo, verifica-se a complementaridade por meio do intercâmbio
de suas fontes dos sistemas de proteção, visando à maior efetividade possível
da proteção.
2.2 \u2013 O costume internacional
O costume internacional é a mais antiga fonte de Direito Internacional
Público e, até fins do século XIX, era a mais relevante. Ele é fonte tanto
interna quanto internacional e se caracteriza por ser a prática reiterada de
determinado ato com a consciência de ser ela obrigatória.
Desta breve definição podem-se destacar os dois elementos constitu-
tivos do costume internacional: um elemento material, que vem a ser o
cumprimento reiterado do precedente (prática geral, tanto ativa quanto
omissiva,192 que demonstre por sua reiteração que aquela conduta já foi
consolidada como válida anteriormente), e um elemento psicológico, expres-
so na convicção de que o cumprimento desses precedentes é obrigatório
porque o direito assim o exige.193
_____________
190 \u201cArtigo 22, 7 \u2013 Toda pessoa tem o direito de buscar e ter asilo concedido em um território
estrangeiro, de acordo com a legislação do Estado e os acordos internacionais, no caso
de estar sendo perseguida por crimes políticos ou crimes comuns relacionados a estes.\u201d
191 \u201cArtigo 3.º \u2013 Ninguém pode ser submetido à tortura ou a tratamentos cruéis, desumanos
ou degradantes.\u201d
192 A omissão, desde que fundada na consciência de ser ela obrigatória, pode ser a base
criadora de um costume. Neste sentido, o caso Lotus julgado pela Corte Permanente
de Justiça Internacional em 1927.
193 DINH, N. Q., DAILLIER P. e PELLET, A. Direito internacional público. 4. ed. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 1992. p. 292.
Refugiados - 01 ok ctp.p65 5/6/2007, 18:4191
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
O DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS92
Essa convicção de obrigatoriedade é denominada tecnicamente de
opinio juris sive necessitatis. É ela extremamente relevante, pois serve não
apenas para caracterizar uma prática como costume internacional,194 mas
também para distinguir o costume internacional dos usos, que são práticas
que não criam obrigações legais.195
Os fundamentos do costume internacional são controversos, existindo
a teoria voluntarista, pela qual se presume que ele decorre do acordo tácito
de vontade entre os Estados, da qual Hugo Grocius é representante, e a
teoria objetiva, a qual entende que há uma tomada de consciência por parte
dos Estados quanto à existência de uma regra superior à sua vontade e que
deve ser seguida, corrente defendida por grande parte dos doutrinadores e
que se baseia nos ensinamentos de Savigny.
Esta distinção é relevante, pois, para a teoria voluntarista, o costume
internacional somente obriga os Estados que o reconhecem, e, para a teoria
objetivista, a obrigatoriedade deste é erga omnes, a não ser em relação
àqueles Estados que se manifestaram contrários à sua adoção.196
O costume internacional pode ser tanto universal quanto local, sendo
que, naquela hipótese, deve refletir a opinião da maioria dos Estados,
residindo a sua força no quórum de aceitação.
Outra característica do costume internacional é a sua imprecisão, em face
do fato de não ser escrito. Essa imprecisão é tanto positiva, pois o torna uma
fonte flexível, quanto negativa, já que pode ocasionar ambigüidade.
Aliás, esta peculiaridade tem sido apontada por alguns como uma das
razões do declínio de sua importância enquanto fonte do Direito Internacional.
Tal fato encontra opositores, entre os quais se destacam Max Sorensen, que
entende ser o costume internacional a fonte da qual decorrem todas as outras
fontes do Direito Internacional,197 e Malcom Shaw, que entende ser ele uma
\u201cexpressão autêntica das necessidades e valores da comunidade em um dado
tempo\u201d,198 além de ser uma \u201cfonte democrática\u201d do Direito Internacional