O_Direito_Internacional_dos_Refugiados
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requisitos fundamentais para a convivência nesse nível, ganha força
apenas após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados adquirem a
consciência de dividirem o mesmo contexto, do que decorre a necessidade
de ajudarem uns aos outros.210
Disso advém o fato de a ONU usar esse princípio como justificativa
para várias de suas ações, tendo-o, inclusive, reiterado em vários trechos
de seus atos unilaterais, entre os quais se podem destacar os da resolução
107 da 55.ª reunião de sua Assembléia Geral211 e da resolução 73 de 2001
da Comissão de Direitos Humanos de seu Conselho Econômico e Social,
intitulada \u201cDireitos Humanos e Solidariedade Internacional\u201d.212
_____________
206 Há ainda certa confusão entre os princípios gerais de direito e a figura da eqüidade.
207 SHAW, M. Ob. cit., p. 84.
208 Verificar a seção 2, do Capítulo 2, do Título I do presente trabalho para maiores dados
sobre o tema da solidariedade.
209 Como, por exemplo, na obra A paz perpétua, de Immanuel Kant, na qual o autor discorre sobre
a ordem internacional e aponta a existência de vínculos de solidariedade entre os homens,
os quais se expandem até se tornarem supranacionais, como seu dado caracterizador.
210 Desta consciência de solidariedade decorrem as bases do Direito Internacional do Meio
Ambiente e do Direito Internacional dos Direitos Humanos.
211 Cf. a letra f de seu artigo 3.º: \u201cSolidarity, as a fundamental value, by virtue of which
global challenges must be managed in a way that distributes costs and burdens fairly
in accordance with basic principles of equity and social justice and ensures that those
who suffer or who benefit the least receive from those who benefit the most\u201d.
212 Cf. o seu preâmbulo: \u201cThe importance of international solidarity as a vital component
of the efforts of developing countries towards the realization of the right to development
of their peoples and the promotion of the full enjoyment of economic, social and cultural
rights by everyone\u201d e seu artigo 2.º \u201cfundamental value of solidarity to international
relations in the 21st\u201d.
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Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Se inclui porque os princípios gerais do direito são capazes de gerar regras, e o direito internacional não é uma coisa muito organizada em termos de positivação, assim tendo os princípios gerais do direito mesmo com uma lacuna normativa arranja-se meio de julgar usando os princípios do direito!
O DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS96
Por esse princípio os Estados devem dividir de modo adequado, de
acordo com os princípios da justiça social e da eqüidade, os custos e as
dificuldades dos desafios globais, sendo precisamente daí que decorre a sua
relevância para o Direito Internacional dos Refugiados, vez que este tem
como objeto um tema global cujo gerenciamento e solução dependem
exclusivamente do auxílio de um Estado à população de outro Estado
desprovida de proteção.
O princípio da solidariedade é, assim, uma das bases legais na qual
se funda o instituto do refúgio. Está ele consagrado no 4.º parágrafo
preambular da Convenção de 1951:
\u201cConsiderando que da concessão do direito de asilo podem resultar
encargos indevidamente pesados para certos países e que a solução satisfatória
dos problemas cujo alcance e natureza internacionais a Organização das
Nações Unidas reconheceu, não pode, portanto, ser obtida sem cooperação
internacional\u201d.213
O princípio da cooperação internacional tem trajetória similar à do
princípio da solidariedade, pois também se consolida no segundo pós-guerra,
especialmente por meio da proliferação de organizações internacionais, as
quais somente são possíveis pela aplicação de tal princípio.
Os fundamentos dessa cooperação decorrem também da divisão do
mesmo habitat por todos os Estados e da crescente gama de assuntos, na ordem
internacional, que necessitam de ações conjuntas para serem resolvidos.
Ele já foi reiterado pela ONU em várias ocasiões, sendo as duas mais
relevantes a resolução 1844 (XVII) de 1962 de sua Assembléia Geral,214
intitulada Ano Internacional215 da Cooperação, e o artigo 2.º, alínea 1 do
Pacto Universal de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966.216
_____________
213 Grifo da autora.
214 Como o princípio da cooperação internacional está presente em todo o texto deste diploma
legal, diferentemente dos demais instrumentos citados que traziam os princípios em estudo
pontualmente, optou-se por não fazer a sua transcrição.
215 A ONU tem o costume de nomear, por meio de resoluções da Assembléia Geral, os
anos de acordo com o aspecto que será mais divulgado e efetivado durante os 12 meses,
assim, por exemplo, o ano de 2001 foi denominado de Ano Internacional do Voluntário.
O mesmo procedimento é feito com décadas. Além disso, ela patrocina a nomeação de
dias internacionais: o dia 20 de junho é o Dia Mundial dos Refugiados.
216 \u201cCada Estado-Parte do presente Pacto compromete-se a adotar medidas, tanto por esforço
próprio como pela assistência e cooperação internacionais, principalmente nos planos
econômico e técnico, até o máximo de seus recursos disponíveis, que visem a assegurar,
progressivamente, por todos os meios apropriados, o pleno exercício dos direitos reconhe-
cidos no presente Pacto, incluindo, em particular, a adoção de medidas legislativas\u201d.
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Thereza Cristina Faccio de Castro
CONSOLIDAÇÃO DO INSTITUTO DO REFÚGIO 97
Tal princípio afeta diretamente a proteção dos refugiados, sobretudo
por ela ser promovida atualmente por organizações internacionais (entre as
quais se destaca a ONU, por meio de seu órgão \u2013 o ACNUR), que, enquanto
tais, são frutos da cooperação entre os Estados. Ademais, apesar de,
diferentemente da extradição, a acolhida de refugiados ser uma relação entre
Estado e indivíduo, a cooperação encontra-se na base de iniciativas pioneiras
como o reassentamento solidário, que será abordado no Capítulo III do Título
IV do presente trabalho.
Daí estar ele positivado no 4.º e no 6.º parágrafo preambulares da
Convenção de 51:
\u201cConsiderando que da concessão do direito de asilo podem resultar
encargos indevidamente pesados para certos países e que a solução satisfatória
dos problemas cujo alcance e natureza internacionais a Organização das
Nações Unidas reconheceu, não pode, portanto, ser obtida sem cooperação
internacional\u201d, e
\u201cNotando que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
tem a incumbência de zelar pela aplicação das convenções internacionais que
assegurem a proteção dos refugiados, e reconhecendo que a coordenação
efetiva das medidas tomadas para resolver este problema dependerá da
cooperação dos Estados com o Alto Comissariado\u201d.217
2.4 \u2013 As decisões judiciárias
As decisões judiciárias, referidas como decisões judiciais no artigo 38
do Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional e também
denominadas jurisprudência, são apontadas pelo artigo 38 do Estatuto da
Corte Internacional de Justiça como fontes subsidiárias, o que significa dizer
que, na verdade, servem como meios de prova do direito e não como sua
fonte criadora.218 Apesar disso, em algumas situações elas acabam por criar
regras internacionais.219
Entende-se como jurisprudência internacional as decisões das duas
cortes supramencionadas, bem como as decisões dos tribunais penais ad hoc
de Nuremberg, Tóquio, ex-Iugoslávia e Ruanda, as decisões das cortes
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217 Grifo da autora.
218 DINH, N.Q., DAILLIER P. e PELLET, A.Ob. cit., p. 362.
219 Exemplo disso é o julgado da Corte Internacional de Justiça no Reparation case de 1948
envolvendo a morte do Conde Bernadotti, emissário da ONU, e o pleito desta por uma
indenização; e que estabeleceu que as organizações internacionais são dotadas de
personalidade jurídica internacional.
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