O_Direito_Internacional_dos_Refugiados
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dessas pessoas, a fim de
assegurar tanto o respeito a elas quanto a manutenção da segurança dos
Estados que recebiam enormes levas de refugiados todos os dias.
O surgimento dessa percepção somente no século XX, apesar de o
problema existir há mais de quatro séculos, pode ser explicado em função de
dois fatores. O primeiro, já mencionado, relaciona-se ao contingente numérico
dos refugiados, pois, enquanto até o século XX as cifras giravam em torno
de centenas de milhares, no início desse os números passaram para a casa dos
milhões,6 o que ameaçava consideravelmente a segurança interna dos Estados
que acolhiam essas pessoas, sem contar com um sistema organizado de
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2 Informações históricas baseadas em: ZOLBERG, A. The formation of new States as a
refugee-generating process. Annals of the American Academy of Politics and Social
Science, May 1983, p. 24-38.
3 A discussão sobre a classificação do refúgio como instituto será objeto da Seção 2 do
Capítulo 1 do Título I do presente trabalho.
4 A busca de proteção por indivíduos de modo isolado é mais remota, caracterizando o
instituto do asilo, que será oportunamente estudado. As grandes levas de pessoas
procurando proteção é típica desse momento histórico e caracteriza o início do instituto
do refúgio.
5 ARENDT, H. Origens do totalitarismo \u2013 Anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo. 3.
reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 302.
6 Apesar disso, caso se compare os números de refugiados dos séculos XV a XVIII em
função da população total dos Estados dos quais foram expulsos, verificar-se-á que, em
alguns casos, a proporção é maior.
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INTRODUÇÃO 25
proteção. O segundo fator relaciona-se à configuração geopolítica da comu-
nidade internacional, posto que os refugiados existentes antes da instituciona-
lização do refúgio possuíam inúmeras possibilidades de locais de acolhida,
uma vez que a totalidade de territórios do mundo ainda não se encontrava
dividida sob a forma de Estados-nações independentes,7 o que não ocorria
mais na década de 20 do século XX, quando os refugiados, ao deixar seus
Estados de origem pela falta de proteção a eles por parte desses, deparavam-
se sem alternativas, pois, estando a comunidade internacional dividida em
unidades políticas autônomas, e não havendo regras internacionais sobre o
tema, cada uma dessas estipulava as regras de entrada em seu território,
excluindo, na maioria das vezes, os refugiados, que chegavam (e ainda
chegam) sem dinheiro, sem referência e, à época, em grande número.
Apesar de ter-se dado início a esse processo de institucionalização da
proteção dos refugiados, acreditava-se que, assim como no passado, tratava-
se de um problema pontual, tanto espacial quanto temporalmente, e,
conseqüentemente, todos os órgãos criados a fim de tratar dessa problemática
foram estabelecidos para atender a um segmento específico dos refugiados
\u2013 aquele que surgisse no momento \u2013 e apresentaram em seus estatutos a
previsão do término de suas atividades.8
A história, no entanto, provou ser esta crença errônea. As datas
estipuladas para o fim do exercício do mandato dos órgãos especializados
na questão dos refugiados chegaram, e eles foram extintos, mas a necessidade
de proteção a esses indivíduos continuou a existir, demandando a criação
de novos entes para tratar do tema.
O evento histórico que mais desproveu pessoas de proteção estatal e,
com isso, gerou o maior número de refugiados foi a Segunda Guerra
Mundial.9 Nessa situação, nota-se a formação de dois tipos de grupos de
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7 Os Estados modernos aparecem em 1648 com a consagração de seus elementos principais
(povo, soberania, subdividida em independência e autonomia, e território) consagrados
pela Paz de Vestfália, que deu início à Ordem Internacional de Vestfália, a qual sobreviveu
por três séculos, e que entrou em crise, mas não desapareceu totalmente, após a Segunda
Guerra Mundial.
8 O próprio Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados prevê, em seu Estatuto,
no artigo 5.º, que a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas avaliará a
necessidade de ele continuar a existir após 31.12.1953, o que tem feito, esporadicamente,
até os dias atuais, sempre prorrogando a existência desse órgão.
9 De acordo com HOBSBAWN, E., a Segunda Guerra Mundial produziu o fluxo de 40,5
milhões de refugiados, enquanto a Primeira Guerra totalizou entre 4 e 5 milhões, a
descolonização da Índia 15 milhões e a Guerra da Coréia provocou o deslocamento interno
de 5 milhões de pessoas. Era dos extremos \u2013 o breve século XX \u2013 1914 \u20131991. 2.
ed. 18. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 57-58.
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refugiados: de um lado, os judeus que no início da guerra foram deportados
para além das fronteiras alemãs, após terem sido despojados de todos os
seus bens e de sua nacionalidade, tornando-se apátridas,10 ou seja, os
refugiados de fato; e, de outro lado, os seres humanos, em sua maioria,
mas não somente judeus, que, durante o desenrolar do conflito, abandonaram
voluntariamente seus países de origem, pois eram perseguidos e não
contavam com a proteção estatal, os refugiados propriamente ditos.
Após o final dessa guerra, verificou-se o surgimento de um novo fator
a fomentar o aparecimento de um grande número de refugiados: o nascimento
do Estado de Israel. Com a criação de um Estado judeu no Oriente Médio,
deu-se a fuga de milhares de palestinos que habitavam esse território, os
quais passaram à condição de \u201celementos indesejáveis\u201d na região.11
Durante esse período, o mundo contava com milhões de refugiados:
alguns estavam adaptados nos Estados que os acolheram, outros sem lugar
ou alguém para retornar.
Foi em face dessa catástrofe humanitária e sob os auspícios da recém-
fundada Organização das Nações Unidas [ONU]12 que se estabeleceu uma
entidade genuinamente universal para cuidar dos refugiados. Em 1950
instituiu-se o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados
[ACNUR],13 o qual, assim como os organismos que o antecederam, trazia
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10 A questão dos apátridas será abordada na Seção 1, 1.2, do Capítulo 1 do Título II, quando
a diferença entre eles e os refugiados será apontada.
11 É interessante notar que os palestinos não são abrangidos pelo sistema geral de proteção
dos refugiados. Há duas explicações para tal fato. De um lado, há autores que entendem
que a condição de refugiados dos palestinos decorre da criação do Estado de Israel
patrocinada pela Organização das Nações Unidas, e em função disto, caso fossem tidos
como refugiados, estar-se-ia admitindo que a Organização das Nações Unidas \u201ccriou\u201d
refugiados, estabelecendo-se, com isso, um paradoxo da sua atuação: proteção versus
produção de refugiados. De outro lado, há autores que apontam a existência da reserva
geográfica presente na Convenção de 1951 Relativa ao Estatuto dos Refugiados (que
será estudada mais adiante) como o principal motivo da criação de dois órgãos separados.
Em face de tal situação, a ONU estabeleceu um órgão próprio para tratar da questão
dos deslocados palestinos (Agência das Nações Unidas para Auxílio e Trabalho para
Refugiados Palestinos no Oriente Médio, também denominada em português de
Organismo de Obras Públicas e Socorro das Nações Unidas para Refugiados Palestinos
no Oriente Próximo), excluindo-os da competência de seu órgão especializado no tema
dos refugiados.
12 Doravante referida pela sigla.
13 Doravante referido pela sigla. O ACNUR foi estabelecido por meio das Resoluções 319
(V), de 3 de dezembro de 1949, e 428 (V), de 14 de dezembro de 1950, da Assembléia
Geral da ONU, aprovadas por 36 votos a favor, 5 contra e 11 abstenções na 325.ª reunião
plenária desse órgão, de acordo com a biblioteca da ONU em Genebra.
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