O_Direito_Internacional_dos_Refugiados
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de 67, alguns documentos mais recentes, que tratam do tema dos
refugiados, optaram por adaptar seus textos legais à realidade dos indivíduos
que buscam proteção e, com isso, acabaram por ampliar, em nível regional,
a definição do termo refugiado, alargando, assim, o sistema de proteção.
A essa ampliação dos motivos para o reconhecimento do status de
refugiado se denomina definição ampliada, sendo encontrada na já mencio-
nada Convenção Relativa aos Aspectos Específicos dos Refugiados Africanos
(1969), na Declaração de Cartagena (1984) e, ao menos teoricamente, em
decisões do Conselho da Europa.
A extensão dessa ampliação varia de documento para documento,
dependendo diretamente do grau de coerência entre os Estados que os
produziram, como também da gravidade da temática dos refugiados para a
região. É assim, por exemplo, que o Conselho da Europa, apesar de se ter
mostrado favorável à definição ampliada, não tomou medidas concretas para
efetivar tal expansão.
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OS MOTIVOS PREVISTOS INTERNACIONALMENTE 135
A inovação mais relevante trazida pelos documentos mais recentes,
presente tanto no continente africano325 quanto na América Latina,326 vem
a ser a caracterização da grave e generalizada violação de direitos humanos
como motivo de reconhecimento do status de refugiado.
Tal critério é dotado de flexibilidade (ainda maior do que a presente
na definição de pertencimento a grupo social) e busca possibilitar a correção
das limitações dos documentos internacionais sobre refugiados por meio de
uma maior aproximação com o campo de abrangência do Direito Interna-
cional dos Direitos Humanos.
Ademais, com a adoção desse critério verifica-se a passagem de um
foco na situação de perseguição individual para a situação objetiva no país
de origem, analisando-se, assim, a proteção dos direitos humanos de forma
mais ampliada.
A partir dessa ampliação a violação de quaisquer direitos humanos,
e não somente dos direitos consagrados como civis e políticos, retomando
a indivisibilidade dos direitos humanos, pode ensejar a proteção de alguém
na condição de refugiado, assegurando-se, de tal modo, o efetivo gozo dos
direitos humanos pelos indivíduos.
A grave e generalizada violação de direitos humanos é extremamente
relevante nos contextos africano e latino-americano, uma vez que os Estados
que os compõem apresentam sistemáticas violações à dignidade da pessoa
humana em formas diversas das dos cinco motivos consagrados internacional-
mente. Exemplo disso é Serra Leoa, Estado africano que apresenta o 174.º
índice de desenvolvimento humano do mundo, sendo o último ranqueado.327
A definição ampliada com base na grave e generalizada violação de
direitos humanos foi incorporada pelo ordenamento jurídico brasileiro, como
será visto no Título IV, Capítulo 2, Seção 2 do presente trabalho.
Apesar de representar uma evolução significativa, a aplicação da grave
e generalizada violação de direitos humanos como motivo para o reconhe-
cimento do status de refugiado é limitada tanto geográfica, em função de
ter sido adotada por instrumentos regionais, quanto politicamente, pois os
critérios para definir a caracterização de uma situação como de grave e
generalizada violação de direitos humanos não são objetivos, deixando a
questão da proteção dos refugiados mais uma vez sujeita à vontade política
e discricionariedade de cada Estado.
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325 Cf. artigo I (2) da Convenção Relativa aos Aspectos Específicos dos Refugiados Africanos
(1969) \u2013 vide nota de rodapé 180.
326 Cf. conclusão 3 da Declaração de Cartagena (1984).
327 Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD de 2000. Ob. cit.
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Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Isso deveria ser extendido para a legislação positivada internacional e não só ser regrado em regiões específicas, se isso ocorresse haveria uma ampla proteção a quem sofre com a violação dos direitos humanos. O problema em si está no interesse dos Estados de receber essas pessoas!
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Thereza Cristina Faccio de Castro
Haveria de ter uma definição objetiva, para que a violação aos direitos humanos como condição de reconhecer-se o status de refugiados fosse caracterizada como qualquer violação ao que se considera doutrinariamente ou positivadamente um direito humano, o que entende-se pelos direitos essenciais a dignidade do homem.
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2.2 \u2013 Situações de violência externa
O artigo I (2) da Convenção Relativa aos Aspectos Específicos dos
Refugiados Africanos (1969) atesta que:
\u201cO termo refugiado também deve ser aplicado a toda pessoa que, devido
a agressão externa, ocupação, e dominação estrangeira ou eventos que
perturbem seriamente a ordem pública, tanto na totalidade do Estado de
nacionalidade como em uma dada região, é compelida a deixar seu local de
residência habitual a fim de buscar refúgio em outro local fora de seu Estado
de origem\u201d.
A partir deste texto legal verifica-se que, como aponta James Hathaway,
a OUA
\u201creconhece a realidade de que formas básicas de abuso podem ocorrer não
somente como resultado de atos premeditados de governos dos Estados de
origem dos refugiados, mas também podem resultar da perda de autoridade
destes governos em função de agressão externa, ocupação e dominação
estrangeira\u201d.328
A consagração disso como motivo de reconhecimento do status de
refugiado somente poderia vir à tona na África, em função de sua história
de colonização e de suas lutas pela independência.
Apesar destas particularidades, a ampliação do conceito de refugiado
com base em situações de violência externa não tem seu valor reduzido,
já que é uma demonstração clara da vontade política dos Estados de assegurar
proteção aos indivíduos em momentos de crise.
2.3 \u2013 Problemas em uma região do Estado
Além de consagrar a grave e generalizada violação de direitos humanos
e a situação de violência externa como critério para a concessão de refúgio,
alguns estudiosos entendem que a OUA, em sua Convenção Relativa aos
Aspectos Específicos dos Refugiados Africanos (1969), ampliou ainda mais
a proteção aos refugiados, a partir da inserção da possibilidade da concessão
de refúgio com base em problemas em apenas uma região do Estado.
_____________
328 The law of refugee status. Ob. cit., p. 17: \u201cThe OUA definition acknowledges the reality
that fundamental forms of abuse may occur not only as a result of the calculated acts of
government of the refugee´s state of origin, but also as a result of that government´s loss
of authority due to external agression, occupation, or foreign domination\u201d (tradução livre).
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Thereza Cristina Faccio de Castro
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O seu supracitado artigo I (2)329 consagra essa possibilidade ao
positivar a proteção daquelas pessoas que sofrem perseguições em uma parte
de seu Estado, o qual não está totalmente atingido pelas violações de direitos
humanos que ensejam o refúgio.
Apesar da referência clara à possibilidade de reconhecimento do status
de refugiado com base em eventos ocorridos em uma parte do território
do Estado, ele limita esta concessão às pessoas que foram buscar refúgio
em outro Estado, por isso entende-se que tal extensão consagra, na verdade,
a impossibilidade do uso da existência de uma \u201calternativa de deslocamento
interno\u201d como justificativa para negar o reconhecimento do status de
refugiado.
Tal ampliação da proteção aos refugiados pelo sistema africano pode
ser explicada também em função das especificidades da África, especial-
mente da constituição deste continente, o qual é formado por diversas etnias
e teve suas fronteiras demarcadas externamente,