A-Disciplina-de-um-Maratonista
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A-Disciplina-de-um-Maratonista


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de mãe, o de filha, o de 
esposa, o de profissional, o de administradora do lar. Têm de ser 
muito competentes para dar conta do recado. Não bastasse tudo 
isso, ainda há um padrão de beleza esquelético, talvez inspirado 
na grande criadora de parâmetros indiretos: a Barbie. A boneca 
sintetiza o estilo, a classe, a beleza e o corpo perfeito.
Certo dia, chegando ao Gran Cursos, fui abordado por uma 
jovem senhora. Ela criticava os professores, funcionários e afins. 
Aparentemente, a empresa não lhe agradava em nada. Tão logo 
concluiu as reclamações, a mulher se desculpou. Disse que 
estava em um dia ruim e que passava por problemas pessoais. 
De fato aquilo era apenas uma maneira de desabafar.
Essa história me fez refletir. Como é importante perseverar 
e amar, não é mesmo? Aos poucos, entre um olhar e outro, as 
palavras iam saindo da boca daquela mulher. Numa tentativa 
de consolo, ela confiou a mim os problemas de sua vida. Estava 
cansada. Estudava diariamente havia mais de seis meses. A mãe 
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J .W.Granjeiro
seguia internada em uma clínica para tratar de uma doença 
degenerativa, e a concurseira dedicava-se exaustivamente aos 
cuidados daquela que lhe dera a vida. Diariamente, por duas ou 
três horas, se desprendia dos estudos, cuidava de sua mestra e, 
em seguida, retornava à árdua caminhada rumo aos concursos 
públicos. Sem cessar, prolongava os estudos até às 23 horas.
O curioso é que a situação dela é idêntica à de muitas das 
milhares de alunas que temos. Naquele mesmo dia, atendi mais 
duas estudantes que também estavam emocionalmente frágeis. 
Todas, mulheres que enfrentam com determinação as adversi-
dades para realizar os sonhos. Todas, heroínas que se dedicam 
aos estudos e se privam de estar no seio da família, com o intuito 
de proporcionar um futuro melhor para os filhos, para os pais 
ou para si mesmas.
Vivendo em uma sociedade em que o gênero masculino é 
indisfarçadamente mais valorizado que o feminino, as mulheres 
lutam por igualdade. E é exatamente isso que atrai tantas delas 
para o serviço público. Trata-se de um sistema onde se preza a 
isonomia; onde a idade, a experiência e o sexo ficam de lado. Na 
batalha do concurso público, vencem aqueles mais persistentes, 
disciplinados e preparados. Apenas esses alcançam o lugar mais 
alto do pódio. E elas? Estão lá! O número de servidoras públicas 
aumentou consideravelmente nos últimos anos. Segundo dados 
do IBGE1, a participação feminina no serviço público já é maior do 
que a masculina em todos os estados brasileiros e, em alguns, elas 
ocupam três vezes mais cargos que eles! Graças ao instituto do 
concurso público \u2013 democrático e isonômico \u2013, muitas mulheres 
conquistaram uma carreira de sucesso e estão realizadas profis-
sionalmente, trabalhando com estabilidade e dignidade.
Lembre-se: \u201cA força de uma pessoa não provém da capaci-
dade física, e sim de uma vontade indomável\u201d (Mahatma Gandhi).
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1 BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de 
Geografia e Estatística. Mapa do Mercado de Trabalho no Brasil \u2013 1992-1997. Série 
Estudos e Pesquisas. Informação Demográfica e Socioeconômica. n. 7, p. 30. 
Disponível em: <mercado_trabalho/mapa_mercado_trabalho.pdf>. Acesso em: 
05.01.2009.
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A Disciplina de um maratonista
A Força do Destino
O nome dele era Davi. Pura coincidência: mesmo nome do 
Pequeno que venceu o Gigante, conforme revela a Bíblia. Vinha 
de família pobre, filho de sertanejos que lidavam com a terra e 
criavam umas vaquinhas na zona rural de uma pequena cidade 
do interior do Maranhão. Tinha três irmãos. 
Era a década de noventa, e, como em qualquer outro lugar, 
as pessoas mais humildes batalhavam muito para vencer na 
vida. Muitas morriam sem realizar o sonho da casa própria ou 
sem lograr aprovação em algum concurso público. Outras desis-
tiam dos estudos e iam \u201cmexer\u201d \u2013 como se diz lá na região \u2013 com 
comércio, abrindo lojas de autopeças, confecções, farmácias, 
bares ou restaurantes. O importante era ter o próprio negócio, 
casar, ter filhos e viver aquela vidinha feliz para sempre. 
Quem não conseguia passar no vestibular de uma univer-
sidade pública \u2013 do Maranhão mesmo, ou do Piauí, Tocantins 
ou Pará, estados mais próximos \u2013 nem pensava em enfrentar 
uma faculdade particular porque a mensalidade era (e continua 
sendo) alta. Com os baixos salários da região, seria impossível 
sobreviver e ainda pagar os estudos.
O jovem e pujante Davi era diferente. Ele era determinado. Tinha 
um norte na vida. Queria ser juiz. Não juiz de futebol, com todo o 
respeito a esses profissionais, mas Juiz Federal, do Poder Judiciário. 
Assim, o rapaz estabeleceu metas, organizou-se e foi à luta.
Durante o dia, trabalhava no escritório de uma grande 
serraria e fábrica de carrocerias de caminhão da cidade. Mas 
aproveitava regradamente os fins de semana e os momentos de 
lazer. O tempo que tinha usava para se preparar para o vesti-
bular da Universidade Federal do Maranhão. Sabia que a vida 
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J .W.Granjeiro
de auxiliar de contabilidade não o levaria muito longe. O máximo 
que conseguiria seria o cargo de chefe do escritório da fábrica. 
Isso era pouco para ele. 
Dedicou-se de corpo e alma ao seu objetivo. Estudou, fez o 
vestibular e foi aprovado com ótima classificação na UFMA. O 
curso? Direito, claro. Era com isso que ele sempre sonhara. 
Mas Davi não parou por aí. Na verdade, estava só na metade 
de sua longa jornada. De dia continuava trabalhando no escri-
tório da serraria e de noite se preparava para ser advogado. Já 
quase no fim do curso, os três irmãos, que mal haviam concluído 
o antigo segundo grau, se uniram para ajudá-lo, ou melhor, para 
\u201cbancar\u201d o esforçado estudante, a mulher e os dois filhos dele. 
Tudo para permitir que o único universitário da família se dedi-
casse somente aos estudos. Com a ajuda dos irmãos, o jovem 
concluiu o curso de Direto e obteve, sem dificuldade, a famosa 
e temerosa carteira da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção 
do Maranhão. 
Davi exerceu a profissão por alguns meses, mas, como ainda 
não era possível montar um belo escritório e ganhar grandes 
causas, dedicava-se cada vez mais aos estudos. Ele não queria 
ser advogado do dia a dia, do tipo que só faz petições, embargos, 
recursos e defende alguém. Queria ser Juiz. 
Com o apoio da família e dedicação exclusiva aos estudos 
e ao cursinho preparatório, o incansável bacharel fez concurso 
para o Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão. Aprovado e 
bem classificado, em pouco tempo estava com a vida estabili-
zada, morando bem, e o melhor: retribuindo a ajuda dos irmãos, 
dentro das possibilidades. Mas estes não estavam preocupados 
em recuperar o dinheiro investido no estudioso membro da 
família. Estavam felizes, contentes por ter um irmão Juiz \u2013 o 
Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz Eleitoral da Primeira Zona 
Eleitoral Davi Costa, que venceu na vida com muita dedicação 
e PERSISTÊNCIA. 
Inspire-se na história de Davi e atinja o apogeu de sua 
própria história.
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A Disciplina de um maratonista
Estudo Individual x Estudo em Grupo
Certo dia, em um de meus treinos para maratonas no 
Parque da Cidade, fui abordado por um aluno que também é 
maratonista \u2013 corrêramos juntos a maratona do Rio de Janeiro. 
Ele contou-me que, outro dia, enquanto aguardava o horário de 
entrada no Gran Cursos, lia um de meus artigos sobre a relação 
entre concursos e maratonas quando ouviu o seguinte comen-
tário de um estudante que estava ali por perto: \u201cAssim é fácil 
concluir o percurso da maratona. O professor Granjeiro deve ter 
toda uma equipe de staff ao seu redor\u201d.
Bem, isso não é verdade. Apesar de a ideia ser boa, eu não 
disponho de uma equipe dessas. E, mesmo que dispusesse, a 
função dela seria apenas de apoio.
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