CAPRA, Fritjof. A teia da vida
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CAPRA, Fritjof. A teia da vida


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além das aplicações militares e se 
converteu numa ampla abordagem sistêmica da análise custo-benefício, envolvendo 
modelos matemáticos com os quais se podia examinar uma série de programas 
alternativos planejados para satisfazer um objetivo bem definido. Nas palavras de um 
texto popular, publicado em 1968: 
Ela se esforça para olhar o problema todo, como uma totalidade, no seu contexto, e para 
comparar escolhas alternativas à luz dos possíveis resultados dessas escolhas.4
Logo após o desenvolvimento da análise de sistemas como um método para atacar 
complexos problemas organizacionais de âmbito militar, os administradores começaram 
a usar a nova abordagem para resolver problemas semelhantes nos negócios. 
"Administração orientada para sistemas" tornou-se um novo lema, e, nas décadas de 60 
e de 70, foi publicada toda uma série de livros a respeito de administração, os quais 
traziam a palavra "sistemas" em seus títulos.5 A técnica modeladora da "dinâmica de 
sistemas", desenvolvida por Jay Forrester, e a "cibernética da administração", de 
Stafford Beer, são exemplos das abrangentes formulações iniciais da abordagem 
sistêmica da administração.6
Uma década mais tarde, uma abordagem semelhante, mas muito mais sutil, da 
administração foi desenvolvida por Hans Ulrich, na St. Gallen Business School, na 
Suíça.7 A abordagem de Ulrich é amplamente conhecida nos círculos de administração 
europeus como "modelo de St. Gallen". Baseia-se na concepção da organização dos 
negócios como um sistema social vivo e, ao longo dos anos, incorporou muitas idéias 
vindas da biologia, da ciência cognitiva, da ecologia e da teoria evolucionista. Esses 
desenvolvimentos mais recentes deram origem à nova disciplina da "administração 
sistêmica", hoje ensinada nas escolas de comércio européias e defendida por consultores 
administrativos.8
 
A Ascensão da Biologia Molecular 
Embora a abordagem sistêmica tivesse uma influência significativa na 
administração e na engenharia durante as décadas de 50 e de 60, sua influência na 
biologia foi, paradoxalmente, quase negligenciável nessa época. Os anos 50 foram a 
década do triunfo espetacular da genética, a elucidação da estrutura física do ADN, que 
tem sido saudada como a maior descoberta em biologia desde a teoria da evolução de 
Darwin. Durante várias décadas, esse sucesso triunfal eclipsou totalmente a visão 
sistêmica da vida. Mais uma vez, o pêndulo oscilou de volta em direção ao 
mecanicismo. 
As realizações da genética produziram uma mudança significativa nas pesquisas 
de biologia, uma nova perspectiva que ainda domina atualmente nossas instituições 
acadêmicas. Assim como as células eram consideradas os blocos de construção básicos 
dos organismos vivos no século XIX, a atenção se voltou das células para as moléculas 
em meados do século XX, quando os geneticistas começaram a explorar a estrutura 
molecular dos genes. 
Avançando em direção a níveis cada vez menores em suas explorações dos 
fenômenos da vida, os biólogos descobriram que as características de todos os 
organismos vivos \u2014 das bactérias aos seres humanos \u2014 estavam codificadas em seus 
cromossomos na mesma substância química, que utilizava os mesmos caracteres de 
código. Depois de duas décadas de pesquisas intensivas, os detalhes precisos desse 
código foram decifrados. Os biólogos tinham descoberto o alfabeto de uma linguagem 
realmente universal da vida.9
Esse triunfo da biologia molecular resultou na difundida crença segundo a qual 
todas as funções biológicas podem ser explicadas por estruturas e mecanismos 
moleculares. Desse modo, os biólogos, em sua maioria, tornaram-se fervorosos 
reducionistas, preocupados com detalhes moleculares. A biologia molecular, 
originalmente um pequeno ramo das ciências da vida, tornou-se então uma difundida e 
exclusiva maneira de pensar que tem levado a uma séria distorção das pesquisas 
biológicas. 
Ao mesmo tempo, os problemas que resistem à abordagem mecanicista da 
biologia molecular tornaram-se cada vez mais evidentes na segunda metade do século. 
Embora os biólogos conheçam a estrutura precisa de alguns genes, sabem muito pouco 
sobre as maneiras pelas quais os genes comunicam o desenvolvimento de um organismo 
e cooperam para isso. Em outras palavras, conhecem o alfabeto do código genético, mas 
quase não têm idéia de sua sintaxe. Hoje é evidente que a maior parte do ADN \u2014 talvez 
até 95% \u2014 pode ser utilizada para atividades integrativas, a respeito das quais é 
provável que os biólogos permaneçam ignorantes enquanto continuarem presos a 
modelos mecanicistas. 
 
Crítica do Pensamento Sistêmico 
Em meados da década de 70, as limitações da abordagem molecular para o 
entendimento da vida ficaram evidentes. Entretanto, os biólogos pouco mais 
conseguiam ver no horizonte. O eclipse do pensamento sistêmico no âmbito da ciência 
pura tornou-se tão completo que não foi considerado uma alternativa viável. De fato, a 
teoria sistêmica começou a ser vista como um malogro intelectual em vários ensaios 
críticos. Robert Lilienfeld, por exemplo, concluiu seu excelente relato, The Rise of 
Systems Theory, publicado em 1978, com a seguinte crítica devastadora: 
Os pensadores sistêmicos exibem uma fascinação por definições, conceitualizações e 
afirmações programáticas de uma natureza vagamente benévola, vagamente moralizante. 
... Eles coletam analogias entre os fenômenos de um campo e os de outro ... as descrições 
[dessas analogias] parecem oferecer a eles um deleite estético que é a sua própria 
justificação. ... Não há evidências de que a teoria sistêmica tenha sido utilizada para se 
obter a solução de nenhum problema substancial em nenhum campo em que tenha 
aparecido.10
A última parte dessa crítica não é mais, em definitivo, justificada atualmente, 
como veremos nos capítulos subseqüentes deste livro, e pode ter sido muito radical até 
mesmo na década de 70. Poderia argumentar-se, inclusive naquela época, que a 
compreensão dos organismos vivos como sistemas energeticamente abertos mas 
organizacionalmente fechados, o reconhecimento da realimentação como o mecanismo 
essencial da homeostase e os modelos cibernéticos dos processos neurais \u2014 para citar 
apenas três exemplos que estavam bem estabelecidos na época \u2014 representaram 
avanços da maior importância na compreensão científica da vida. 
No entanto, Lilienfeld estava certo no sentido de que nenhuma teoria sistêmica 
formal do tipo imaginado por Bogdanov e por Bertalanffy tinha sido aplicada com 
sucesso em nenhum campo. O objetivo de Bertalanffy, desenvolver sua teoria geral dos 
sistemas numa disciplina matemática, em si mesma puramente formal, mas aplicável às 
várias ciências empíricas", certamente nunca foi alcançado. 
A principal razão para esse "malogro" foi a carência de técnicas matemáticas para 
se lidar com a complexidade dos sistemas vivos. Tanto Bogdanov como Bertalanffy 
reconheceram que, em sistemas abertos, as interações simultâneas de muitas variáveis 
geram os padrões de organização característicos da vida, mas eles careciam dos meios 
para descrever matematicamente a emergência desses padrões. Falando de maneira 
técnica, os matemáticos de sua época estavam limitados às equações lineares, que são 
inadequadas para descrever a natureza altamente não-linear dos sistemas vivos.11
Os ciberneticistas concentravam-se em fenômenos não-lineares, tais como os 
laços de realimentação e as redes neurais, e tinham os princípios de uma matemática 
não-linear correspondente, mas o verdadeiro avanço revolucionário viria várias décadas 
depois, e estava estreitamente ligado ao desenvolvimento de uma nova geração de 
poderosos computadores. 
Embora as abordagens sistêmicas desenvolvidas na primeira metade do século não 
tivessem resultado numa teoria matemática formal, eles criaram uma certa maneira de 
pensar, uma nova linguagem, novas concepções e
Lucas
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