CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas
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CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas


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O projeto ou o planejamento exigem capacidade de formar-se 
imagens mentais. Como essa capacidade, pelo que sabemos, é um privilégio dos seres humanos 
e dos outros grande macacos, não há projeto nem planejamento na natureza em geral.
As estruturas planejadas são sempre criadas em vista de algum tema e levam em si algum 
significado.(53) Na natureza não-humana, porém, não existe nem finalidade nem intenção. É 
nosso costume atribuir uma finalidade à forma de uma planta ou ao comportamento de um animal. 
Diríamos, por exemplo, que uma flor tem uma determinada cor para atrair abelhas polinizadoras, 
ou que o esquilo esconde as nozes para ter o que comer no inverno. Porém, essas são projeções 
antropomórficas pelas quais atribuímos características humanas de ação intencional a fenômenos 
não-humanos. As cores das flores e o comportamento dos animais foram desenvolvidos por 
longos processos de evolução e seleção natural, muitas vezes numa co-evolução com outras 
espécies. Do ponto de vista da ciência, não existe nem objetivo, nem projeto, nem planejamento 
na natureza.(54)
Isso não significa que a vida seja puramente arbitrária e sem sentido, como assevera a 
escola mecanicista do neodarwinismo. A compreensão sistêmica da vida reconhece que a ordem, 
a auto-organização; a inteligência manifestam-se em todas as partes do mundo físico, e, como já 
vimos, essa idéia é perfeitamente coerente com uma concepção espiritual da vida.(55) Entretanto, 
o pressuposto teleológico de que os fenômenos naturais têm cada qual um objetivo intrínseco é 
uma condição humana, pois o ter um objetivo é uma característica da consciência reflexiva, que 
não existe indiscriminadamente na natureza.(56)
As organizações humanas sempre contêm estruturas projetada, e estruturas emergentes. 
As estruturas projetadas ou planejadas são as estruturas formais da organização, que constam 
dos documentos oficiais. As estruturas emergentes são criadas pelas redes informais da 
organização e pelas comunidades de prática. Os dois tipos de estrutura são, como já vimos, muito 
diferentes, e toda organização precisa de ambos. As estruturas planejadas proporcionam as 
regras e rotinas que são necessárias para o efetivo funcionamento da organização. Permitem que 
a empresa otimize os seus processos de produção e venda seus produtos através de campanhas 
eficazes de propaganda. São as estruturas projetadas que dão estabilidade à organização.
Já as estruturas emergentes proporcionam a novidade, a criatividade e a flexibilidade. São 
versáteis e adaptáveis, capazes de mudar e evoluir. No complexo ambiente empresarial e 
comercial de hoje em dia, as estruturas puramente projetadas e formais não têm a reatividade e a 
capacidade de aprendizado necessárias. Podem ser autoras de feitos magníficos, mas, como não 
se adaptam, tornam-se deficientes quando chega a hora de aprender e mudar; correm, assim, o 
sério risco de ficar para trás.
Não se trata de uma questão de deixar de lado as estruturas projetadas em favor das 
emergentes. Precisamos de ambas. Em toda organização humana existe uma tensão entre suas 
estruturas projetadas, que incorporam e manifestam relações de poder, e suas estruturas 
emergentes, que representam a vida e a criatividade da organização. Nas palavras de Margaret 
Wheatley, "As dificuldades pelas quais passam as organizações são manifestações da vida que 
se afirma contra o poder de controle."(57) Os administradores hábeis compreendem a 
interdependência entre o planejamento e o surgimento espontâneo. Sabem que, no ambiente 
econômico turbulento em que ora vivemos, o desafio que se lhes apresenta é o de encontrar o 
reto equilíbrio entre a criatividade do surgimento espontâneo e a estabilidade do planejamento.
Dois tipos de liderança para encontrar-se o equilíbrio perfeito entre o planejamento e o 
surgimento espontâneo, parece necessária uma fusão de dois tipos de liderança. A imagem 
tradicional do líder é a de uma pessoa capaz de reter na mente uma visão, de formulá-la 
claramente e de comunicá-la com paixão e carisma. Trata-se também de uma pessoa cujas ações 
manifestam certos valores que servem como um padrão ao qual os outros devem se comparar e 
que devem tentar alcançar. A capacidade de reter na mente uma imagem clara de uma forma 
ideal, ou de um estado de coisas desejado, é algo que os líderes tradicionais têm em comum com 
os planejadores ou projetistas.
O outro tipo de liderança consiste em facilitar o surgimento da novidade. Consiste, 
portanto, mais em criar condições do que em transmitir instruções; consiste em usar o poder da 
autoridade para capacitar, fortalecer e dar poder aos outros. Ambos os tipos de liderança tem uma 
relação com a criatividade. Ser líder é criar uma visão; é ir aonde ninguém jamais esteve. É 
também habilitar a comunidade como um todo a criar alguma coisa nova. Facilitar o surgimento 
espontâneo de coisas novas é facilitar a criatividade.
A visão de um objetivo é um elemento essencial do sucesso de qualquer organização, pois 
todos os seres humanos precisam sentir que suas ações são significativas e colaboram para que 
determinados objetivos sejam atingidos. Em todos os níveis da organização, as pessoas precisam 
ter uma idéia de para onde estão caminhando. A visão é uma imagem mental de algo que 
queremos atingir ou realizar. As visões, porém, são muito mais complexas do que os objetivos 
concretos, e não é possível expressá-las através de uma linguagem racional comum. Os objetivos 
concretos podem ser medidos, ao passo que a visão é uma coisa qualitativa, algo muito menos 
tangível.
Sempre que precisamos expressar imagens complexas e sutis, recorremos às metáforas; 
por isso, não é de se admirar que as metáforas desempenhem papel de destaque na formulação 
da "visão" de uma empresa.(59) Muitas vezes, a visão permanece obscura enquanto tentamos 
explicá-la, mas de repente fica clara quando encontramos a metáfora correta. A capacidade de 
expressar uma visão em metáforas, de forma-la de tal modo que seja compreendida e adotada 
por todos, é uma qualidade essencial da liderança.
Para facilitar eficientemente o surgimento de coisas novas, os líderes das comunidades 
precisam compreender os diversos estágios desse processo vital fundamental. Como já vimos, 
para que haja surgimento espontâneo, é preciso que haja uma rede ativa de comunicações com 
múltiplos elos de realimentação. Para facilitar esse surgimento é preciso antes de mais nada criar 
e fazer crescer redes de comunicações capazes de "ligar o sistema cada vez mais a si mesmo", 
como dizem Wheatl Kellner-Rogers.(60)
Além disso, temos de nos lembrar que o surgimento da novidade é uma propriedade dos 
sistemas abertos, o que significa que a organização tem de abrir-se a novas idéias e 
conhecimentos. Para facilitar o surgimento da novidade, é preciso criar essa abertura - uma forma 
de aprendizado que encoraje o questionamento constante e recorra-se a inovação. As 
organizações dotadas de uma tal cultura valorizam a diversidade e, nas palavras de Arie de Geus, 
"toleram atividades originais: experimentos e excentricidades que dilatem a sua margem de 
conhecimento".(61)
Muitas vezes, os líderes têm dificuldade para estabelecer os sistemas de realimentação 
necessários para aumentar a ligação da organização consigo mesma. Tendem a recorrer sempre 
às mesmas pessoas - geralmente as que são mais poderosas dentro da organização e, portanto, 
não tendem a resistir à mudança. Além disso, os diretores-executivos pensam que, em virtude das 
tradições e da história da organização, as questões delicadas não