CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas
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CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas


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nacional, 
contribuem significativamente para a incapacidade dos governos de controlar a política 
econômica. (21) Por causa disso, assistimos recentemente a uma série de crises financeiras 
graves, no México (1994), no Sudeste Asiático (1997), na Rússia (1998) e no Brasil (1999).
As economias grandes, dotadas de bancos fortes, geralmente são capazes de suportar a 
turbulência financeira, sofrendo somente danos limitados e temporários; mas a situação é muito 
menos confortável para os chamados "mercados emergentes" da metade sul do globo, cujas 
economias são pequenas em comparação com os mercados internacionais. Em virtude do seu 
forte potencial de crescimento econômico, esses países tornam-se alvos preferenciais para os 
jogadores do cassino global, que fazem investimentos gigantescos nos mercados emergentes 
mas retiram esses investimentos com a mesma rapidez ao menor sinal de enfraquecimento da 
economia. Quando fazem isso, desestabilizam as economias pequenas, desencadeiam a fuga de 
capitais e criam uma crise de grandes proporções. Para recuperar a confiança dos investidores, o 
país afligido geralmente é induzido pelo FMI a aumentar as taxas de juros, ao preço devastador , 
pelo aprofundamento da recessão local. As recentes quebras de mercados financeiros lançaram 
cerca de 40 por cento da população mundial numa recessão profunda! (22)
Depois da crise financeira asiática, os economistas puseram a culpa dessa crise em certos 
"fatores estruturais" dos países asiáticos, como, por exemplo, um sistema bancário fraco, a 
interferência excessiva do governo e a falta de transparência financeira. Entretanto, como salienta 
Paul Volcker, ex-diretor do Conselho do Federal Reserve dos Estados Unidos, nenhum desses 
fatores era novo ou desconhecido, e nenhum deles piorou de súbito. "É óbvio", conclui Volcker, 
"que algo ficou faltando em nossas análises e em nossas reações... O problema não é regional, 
mas internacional; e temos todos os motivos para crer que seja sistêmico. (24) Segundo Manuel 
Castells, as redes financeiras globais da nova economia são intrinsecamente instáveis. Produzem 
padrões aleatórios de turbulência informativa que podem desestabilizar qualquer empresa, bem 
como países ou regiões inteiras, independentemente do seu desempenho econômico real.(25)
É interessante aplicar a compreensão sistêmica da vida à análise desse fenômeno. A nova 
economia consiste numa meta-rede global de interações tecnológicas e humanas complexas, que 
envolve múltiplos anéis e elos de realimentação que operam longe do equilíbrio e produzem uma 
variedade infinita de fenômenos emergentes. A criatividade, a adaptabilidade e a capacidade 
cognitiva dessa meta-rede lembram, sem dúvida, as de uma rede viva mas a meta-rede não 
manifesta a estabilidade que é uma das propriedades fundamentais da vida. Os circuitos de 
informação da economia global funcionam numa tal rapidez e recorrem a uma tal multiplicidade de 
fontes que estão constantemente a reagir a um dilúvio de informações; por isso, o sistema como 
um todo acaba escapando ao nosso controle.
Também os organismos vivos e ecossistemas podem chegar a um ponto em que se 
tornam continuamente instáveis; mas, quando isso acontece, eles desaparecem em virtude da 
seleção natural, e só sobrevivem os sistemas dotados de processos de estabilização. No domínio 
humano, esses processos terão de ser introduzidos na economia global através da consciência 
humana, da cultura e da política. Em outras palavras, temos de projetar e implementar 
mecanismos reguladores para estabilizar a nova economia. Robert Kuttner, editor da revista 
progressista The American Prospect, resume a situação da seguinte maneira: «O que está em 
jogo é valioso demais para que o capital especulativo e as flutuações da moeda possam 
determinar o destino da verdadeira economia."(26)
O mercado global - um Autômato
No nível existencial humano, a característica mais alarmante da nova economia talvez seja 
o fato de ela ser fundamentalmente moldada e determinada por máquinas. O chamado "mercado 
global", a rigor, não é um mercado de forma alguma, mas uma rede de máquinas programadas 
para agir segundo um único valor - ganhar dinheiro por ganhar dinheiro- à exclusão de todos os 
outros. Nas palavras de Manuel Castells: O resultado do processo de globalização financeira pode 
ter sido a criação de um Autômato que vive no coração de nossa economia [e] condiciona de 
modo decisivo a nossa vida. O pesadelo da humanidade de ver as máquinas assumirem o 
controle do nosso mundo parece prestes a se tornar realidade - não sob a forma de robôs que 
eliminam empregos ou de computadores do governo que policiam a nossa vida, mas de um 
sistema eletrônico de transações financeiras. (27)
A lógica desse Autômato não é a das leis tradicionais de mercado, e a dinâmica dos fluxos 
financeiros que ele desencadeia não se submete, atualmente, ao controle dos governos, das 
grandes empresas e das instituições financeiras, por mais ricas e poderosas que sejam. Porém, 
em virtude da grande versatilidade e precisão das novas tecnologias de informática e 
telecomunicações, a regulação eficaz da economia global é tecnicamente viável. O problema 
principal não é a tecnologia, mas a política e os valores humanos.(28) E esses valores humanos 
podem mudar; não são leis naturais. As mesmas redes eletrônicas de fluxos financeiros e de 
informações poderiam ser programadas de acordo com outros valores.
Uma das mais importantes conseqüências dessa concentração exclusiva nos lucros e no 
valor das ações, que caracteriza o novo capitalismo global, foi a febre de fusões e aquisições 
empresariais. No cassino eletrônico global, qualquer ação que puder ser vendida por um preço 
maior será vendida, e é esse fato que determina e possibilita as aquisições hostis. Quando uma 
empresa quer comprar outra, tudo o que tem de fazer é oferecer um preço maior pelas ações 
desta última. A legião de corretores cujo trabalho consiste em esquadrinhar incansavelmente o 
mercado em busca de oportunidades de investimento e lucro fará contato com os acionistas e 
incitará com eles para que vendam suas ações pelo preço mais alto.
Quando essas aquisições hostis se tornaram possíveis, os proprietários de grandes 
empresas usaram-nas para penetrar em novos mercados, para comprar tecnologias especiais 
desenvolvidas por companhias pequenas ou simplesmente para crescer e ganhar prestígio. As 
empresas pequenas, por seu lado, ficaram com medo de ser engolidas e, para proteger-se, 
compraram empresas ainda menores para se tornarem maiores e mais difíceis de ser compradas. 
Assim desencadeou-se uma febre de fusões, que parece não ter fim. Como já dissemos, a 
maioria das fusões empresariais não fazem aumentar a eficiência nem os lucros das empresas, 
mas provocam mudanças estruturais rápidas e dramáticas para as quais as pessoas encontram-
se totalmente despreparadas, causando, assim, uma tensão enorme e tempos difíceis para todos 
os envolvidos.(29)
O impacto social
Em sua trilogia sobre a Era da Informação, Manuel Castells faz uma análise detalhada dos 
efeitos sociais e culturais do capitalismo global. Evidencia, em particular, o modo pelo qual a nova 
"economia em rede" transformou profundamente as relações sociais entre o capital e o trabalho. O 
dinheiro tornou-se quase totalmente independente da produção e dos serviços e passou a existir 
sobretudo na realidade virtual das redes eletrônicas. O capital é global, ao passo que o trabalho, 
via de regra, é local. Assim, capital e trabalho cada vez mais existem em espaços e tempos