CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas
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CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas


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importante de todos os segmentos da sociedade. 
Cada vez mais, as funções sociais dominantes organizam-se em torno de redes, e, a participação 
nessas redes é uma fonte crítica de poder. Nessa "sociedade em rede", como a chama Castells, a 
geração de novos conhecimentos, a produtividade econômica, o poder político e militar e os meios 
de comunicação de massa estão todos ligados a redes globais de informação e riqueza. (48)
A ascensão da sociedade em rede foi acompanhada pelo declínio do Estado nacional 
como entidade soberana.(49) Metidos em redes globais de turbulentos fluxos financeiros, os 
governos são cada vez menos capazes de controlar a política econômica nacional; já não podem 
dar à seus cidadãos as vantagens tradicionais do estado de bem-estar social; estão perdendo a 
guerra contra uma nova economia globalizada do crime; e sua autoridade e legitimidade são cada 
vez mais postas em questão. Além disso, o Estado também está se desintegrando por dentro 
através da corrupção do processo democrático, na medida em que os políticos, especialmente 
nos Estados Unidos, dependem cada vez mais de empresas e outros grupos de lobby, que 
financiam suas campanhas eleitorais em troca de políticas favoráveis a seus "interesses 
especiais".
O surgimento de uma enorme economia criminosa globalizada e a crescente 
interdependência desta com a economia formal e as instituições políticas em todos os níveis é 
uma das características mais perturbadoras da nova sociedade em rede. Na desesperada 
tentativa de escapar da miséria absoluta, indivíduos e grupos vitimados pela exclusão social 
tornam-se presas fáceis e são recrutados pelas organizações criminosas, que se estabeleceram 
em muitos bairros pobres e tornaram-se uma força social e cultural significativa em muitas partes 
do mundo.(50) O crime, evidentemente, não é coisa nova. O fenômeno novo é a interligação 
global, em rede, de poderosas organizações criminosas, que afeta profundamente as atividades 
econômicas e políticas no mundo inteiro, como Castells nos prova de modo documental e 
detalhado.(51)
O tráfico de drogas é a operação mais importante das redes criminosas globais, mas o 
tráfico de armas também desempenha papel de destaque, bem como o contrabando de 
mercadorias e de pessoas, o jogo, os seqüestros, a prostituição, a falsificação de dinheiro e 
documentos e dezenas de outras atividades. Provavelmente, a legalização das drogas seria a 
maior ameaça ao crime organizado. Porém, como nota Castells com uma ponta de ironia, "[Essas 
organizações] podem contar com a cegueira política e a moralidade deturpada de sociedades que 
não conseguem compreender o aspecto básico do problema: sem a procura, não haveria 
oferta."(52) 
A violência impiedosa, muitas vezes executada por matadores de aluguel, é um aspecto 
básico da cultura do crime. Tão importantes quanto esses assassinos, porém, são os policiais, 
juízes e políticos que constam das folhas de pagamento das organizações criminosas e são às 
vezes chamados, cinicamente, de "aparelho de segurança" do crime organizado.
A lavagem de dinheiro, contado às centenas de bilhões de dólares, e a atividade básica da 
economia do crime. O dinheiro lavado entra na economia formal através de complexos esquemas 
financeiros e redes de comércio; e, assim, mais um elemento desestabilizador invisível entra num 
sistema já desequilibrado e torna ainda mais difícil o controle das políticas econômicas nacionais. 
É possível que, em várias partes do mundo, as crises financeiras tenham sido desencadeadas por 
atividades criminosas. Já na América Latina, o narcotráfico representa um segmento seguro e 
dinâmico das economias regionais e nacionais. Na América Latina, a produção e a venda de 
drogas atendem a uma demanda constante, são voltadas para a exportação e totalmente 
internacionalizadas. Ao contrário da maior parte dos esquemas econômicos legalizados, são 
totalmente controladas por "empresários" latino-americanos.
À semelhança das empresas que operam na economia formal, as organizações criminosas 
de hoje em dia reestruturaram-se e assumiram a forma de redes, tanto internamente quanto umas 
em relação às outras. Constituíram-se alianças estratégicas entre organizações criminosas do 
mundo inteiro, dos cartéis do narcotráfico colombiano às redes criminais russas, passando pelas 
máfias siciliana e americana. As novas tecnologias de comunicação, com destaque para os 
telefones celulares e computadores laptop, são largamente usadas para a comunicação entre 
criminosos e o acompanhamento das transações. É assim que os milionários da máfia russa 
podem gerenciar seus negócios em Moscou sentados confortavelmente em suas seguras 
mansões na Califórnia, sem perder o contato com as operações do dia-a-dia.
Segundo Castells, a força organizativa do crime global se baseia "na combinação entre a 
organização flexível em rede das quadrilhas locais, dotadas de uma tradição e de uma identidade 
e operando num sistema institucional favorável, e o alcance global proporcionado pelas alianças 
estratégicas".(53) Castells acredita que as redes criminosas de hoje em dia são mais avançadas 
do que as empresas multinacionais no que diz respeito à capacidade de integrar a identidade 
cultural local e a participação na economia global.
Se o Estado nacional está perdendo a sua autoridade e legitimidade em virtude das 
pressões da economia global e dos efeitos desestabilizadores do crime globalizado, o que o 
substituirá? Castells observa que a autoridade política está se tornando mais importante nos 
níveis regional e local e aventa a hipótese de que essa descentralização do poder possa dar 
origem a uma nova espécie de organização política, o "Estado em rede" (network state).(54) 
Numa rede social, os diferentes nós podem ter tamanhos diversos, de modo que são comuns 
nessas redes as desigualdades políticas e as relações de poder assimétricas. Já num Estado em 
rede, todos os membros são interdependentes. 
Quando-se tomam as decisões políticas, é preciso levar em conta os efeitos delas sobre 
todos os membros do Estado, até mesmo os menores, pois elas afetarão necessariamente a rede 
inteira. Pode ser que a União Européia seja, até agora, a manifestação mais clara de uma rede 
desse tipo. Os Estados nacionais europeus dividem entre si a soberania em vez de transferi-la 
para um nível superior. As cidades e regiões têm acesso a ela através dos governos nacionais, e 
também se interligam horizontalmente através de um grande número de parcerias que cruzam as 
fronteiras nacionais. "A União Européia não suplanta os Estados nacionais existentes", conclui 
Castells, "mas, ao contrário, é um instrumento fundamental para a sobrevivência deles, que 
aceitam abdicar em certa medida da sua soberania em troca de ter uma participação mais forte no 
contexto mundial." (55)
Situação semelhante a essa existe no mundo empresarial. As empresas de hoje em dia 
organizam-se cada vez mais como redes descentralizadas compostas de unidades menores; 
ligam-se a redes de prestadores de serviços, fornecedores e consultores; e unidades 
pertencentes a redes diferentes também fazem alianças estratégicas e dedicam-se a 
empreendimentos conjuntos. Nessas estruturas em rede, cuja geometria é passível de uma 
variação indefinida, não existe um centro real de poder. Em contraste com isso, o poder das 
empresas em seu conjunto cresceu enormemente no decorrer das últimas décadas. Por meio de 
um sem-número de fusões e aquisições, o tamanho das grandes empresas continua crescendo.