CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas
297 pág.

CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas


DisciplinaHistória do Direito7.593 materiais298.700 seguidores
Pré-visualização50 páginas
as três principais redes de televisão conquistavam 
noventa por cento da audiência no horário nobre em 1980, mas só cinqüenta por cento em 2000, 
e a audiência continua diminuindo. Segundo Castells, a tendência atual é de um aumento dos 
meios dirigidos a públicos específicos. Quando as pessoas tiverem acesso a todo um menu de 
canais feitos sob medida para o seu gosto, estarão dispostas a pagar por isso, o que eliminará 
desses canais a publicidade paga e aumentará, talvez, a qualidade da programação.(68)
A rápida ascensão da televisão que cobra por emissão específica (pay-per-service) nos 
Estados Unidos - HBO, Showtime, Fox Sports, etc.- não é sinal de que o controle das empresas 
sobre a televisão esteja diminuindo. Embora alguns desses canais não exibam comerciais, ainda 
assim são controlados por empresas que vão tentar fazer publicidade, custe o que custar. A 
Internet, por exemplo, é o meio mais recente de que as empresas dispõem para veicular suas 
propagandas. 
A America Online (AOL), o maior provedor da Internet, é essencialmente um shopping 
center virtual, saturado de anúncios. Embora ofereça acesso a Web, seus 20 milhões de 
assinantes passam 84 por cento do tempo usando os serviços do próprio provedor, e só 16 por 
cento do tempo na Internet aberta. E, unindo-se à gigantesca Time-Warner, a AOL pretende 
acrescentar ao seu domínio uma quantidade enorme de conteúdos de canais de distribuição já 
existentes, de modo que as grandes empresas que fazem publicidade possam ter acesso aos 
assinantes através de uma série de plataformas de mídia. (69)
Hoje em dia, o mundo dos meios de comunicação é dominado por uns poucos 
conglomerados gigantescos de multimídia, como a AOL, Time-Warner ou a ABC-Disney, que são 
enormes redes de empresas menores ligadas por vínculos e alianças estratégicas de várias 
espécies. É assim que os meios de comunicação, como o restante do mundo empresarial, estão 
também se tornando mais diversificados e descentralizados, ao mesmo tempo que o impacto das 
empresas sobre a vida das pessoas continua aumentando.
A integração de todas as formas de expressão cultural num único hipertexto eletrônico 
ainda não se realizou, mas os efeitos dessa perspectiva sobre as nossas percepções já se fazem 
sentir no conteúdo atual dos programas da televisão aberta e a cabo e nos sites da Web a eles 
associados. A cultura que criamos e sustentamos com nossas redes de comunicações determina 
não só nossos valores, crenças e regras de conduta, mas até mesmo a nossa percepção da 
realidade. Como explicam os estudiosos da cognição, os seres humanos existem num contexto de 
linguagem. À medida que tecemos continuamente uma teia lingüística, nós coordenamos nossos 
comportamentos e juntos criamos nosso mundo.(70)
Quando essa teia lingüística tornar-se um hipertexto feito de palavras, sons, imagens e 
outras expressões culturais, transmitidas eletronicamente e abstraídas da história e da geografia, 
esse fato influenciará profundamente a maneira pela qual vemos o mundo. Como observa 
Castells, já nos meios de comunicação eletrônicos de hoje em dia podemos observar uma 
confusão generalizada entre os diversos níveis de realidade. (71) À medida que as diversas 
modalidades de comunicação emprestam códigos e símbolos umas das outras, os noticiários 
cada vez mais se parecem com programas de entrevistas, a transmissão de um julgamento pela 
TV se parece com uma novela e as reportagens sobre conflitos armados se parecem com os 
filmes de ação, e torna-se cada vez mais difícil distinguir o virtual do real.
Uma vez que os meios eletrônicos, e especialmente a televisão, tornaram-se os principais 
canais de comunicação de idéias e valores ao público, a política cada vez mais acontece no 
espaço virtual desses meios.(72) A presença nos meios de comunicação é tão essencial para os 
políticos quanto é para as empresas e seus produtos. Hoje em dia, na maior parte dos países, os 
políticos que não aparecem nas redes eletrônicas de comunicação não têm a menor possibilidade 
de ganhar o apoio do povo. A verdade é que permanecerão totalmente desconhecidos para a 
imensa maioria dos eleitores.
Com a crescente confusão entre os noticiários e os programas de entretenimento, entre a 
informação e a publicidade, a política começa a parecer-se cada vez mais com um teatro. Os 
políticos mais bom-sucedidos já não são os que têm as plataformas mais populares, mas sim os 
que "ficam bem" na televisão e sabem manipular os símbolos e códigos culturais. A associação 
dos candidatos com uma "marca" - ou seja, o ato de tornar o nome e a imagem deles atraentes 
para o público mediante uma associação firme de nome e imagem com símbolos sedutores para 
os telespectadores - tornou-se tão importante na política quanto é na publicidade empresarial. 
Num nível muito básico, o poder político esta ligado à capacidade de usar eficientemente os 
símbolos e códigos culturais para estruturar um discurso nos meios de comunicação. Como 
salienta Castells, isso significa que, na Era da Informação, as lutas pelo poder são lutas 
culturais.(73)
A questão da sustentabilidade
Nestes últimos anos, os efeitos sociais e ecológicos da nova economia têm sido discutidos 
à exaustão por acadêmicos e líderes comunitários, como mostramos nas páginas anteriores. As 
análises deles deixam perfeitamente claro que o capitalismo global, em sua forma atual, é 
manifestamente insustentável e teria de ser reestruturado desde as bases. Essa reestruturação é 
defendida até mesmo por alguns "capitalistas esclarecidos", que, depois de ganhar rios de 
dinheiro, começam agora a se preocupar com a natureza altamente imprevisível e o enorme 
potencial autodestrutivo do atual sistema. Tal é o caso do financista George Soros, um dos 
jogadores que mais ganharam no cassino global, que começou há pouco tempo a chamar a 
doutrina neoliberal da globalização econômica de "fundamentalismo de mercado" e a considera 
tão prejudicial quanto qualquer outro tipo de fundamentalismo.(74)
Além de sua instabilidade econômica, a forma atual do capitalismo global é insustentável 
dos pontos de vista ecológico e social, e por isso não é viável a longo prazo. O ressentimento 
contra a globalização econômica está crescendo rapidamente em todas as partes do mundo. 
Pode ser que o destino último do capitalismo global seja, nas palavras Manuel Castells, "a 
rejeição social, cultural e política, por parte de um grande número de pessoas no mundo inteiro, 
de um Autômato cuja lógica ignora ou desvaloriza a humanidade dessas pessoas".(75) Como 
vemos, é muito possível que essa rejeição já tenha começado. 
 6- A biotecnologia em seu ponto de mutação
Quando pensamos nas tecnologias avançadas do século XXI, nossa mente se volta não só 
para a informática, mas também para a biotecnologia. Como a Revolução da Informática, a 
"revolução biotecnológica" começou nos anos 1970 com diversas inovações decisivas e alcançou 
seu clímax inicial na década de 1990.
A engenharia genética é às vezes considerada um ramo específico da informática, uma 
vez que envolve a manipulação de "informações" genéticas. Entretanto, existem diferenças 
fundamentais e muito interessantes entre as estruturas conceituais em que se baseiam essas 
duas tecnologias. A compreensão e o uso do conceito de redes têm sido um dos elementos 
essenciais da Revolução da Informática, ao passo que a engenharia genética baseia-se numa 
abordagem linear e mecânica, do tipo "encaixe de peças", e até há pouquíssimo tempo