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o estudo de saberes

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Educação em Revista|Belo Horizonte|v.30|n.04|p.105-125|Outubro-Dezembro 2014
O ESTUDO DE SABERES PROFISSIONAIS NA PERSPECTIVA ETNOGRÁFICA: 
CONTRIBUIÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS
Marise Nogueira Ramos*
RESUMO: O artigo discute a contribuição teórico-metodológica da 
etnografia para o estudo dos saberes profissionais. Defende o não 
abandono das determinações estruturais nessa perspectiva de análise, 
situando categorias do método histórico-dialético como necessárias para a 
reconstrução da relação entre singularidades e particularidades dos grupos 
profissionais e a totalidade social. Para isso, apresenta o conceito de saber 
profissional, relacionando-o com os conceitos de cultura e experiência, 
seguido de características e princípios da etnografia profissional, chegando 
a elementos práticos da pesquisa etnográfica. As considerações finais 
esclarecem que estudos sobre experiência, cultura e saberes profissionais 
permitem compreender sua natureza fenomênica e captar mediações da 
relação entre trabalho e educação, de modo a ver em que medida, ao se 
constituírem como grupos profissionais, os trabalhadores potencializam 
sua organização como sujeitos de classe.
Palavras-chave: Saber profissional. Cultura profissional. Etnografia profissional.
* Doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professora da Faculdade de 
Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e dos Programas de Pós-Graduação em 
Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e 
em Educação Profissional em Saúde (EPSJV) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Email: ramosmn@
gmail.com
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THE STUDY OF PROFESSIONAL EXPERTISE IN AN ETHNOGRAPHIC PERSPECTIVE: 
THEORETICAL-METHODOLOGICAL CONTRIBUTIONS 
ABSTRACTS: The article discusses the theoretical and methodological 
contribution of ethnography for the studies of professional expertise. 
The article defends also the non-abandonment of structural determinations 
in that perspective of analysis, situating categories of historical and 
pedagogical methods as a necessity for the reconstruction of the uniqueness 
of the relationship between professional groups and social totality. In order 
to do that, this report depicts the concept of professional knowledge 
related to the concepts of culture and experience, followed by features 
and principles of professional ethnography, reaching practical elements of 
ethnographic researching. The final considerations explain that studies on 
experience, culture and ethnographical and professional expertise motivate 
the understanding of their phenomenological nature and the understanding 
of mediations in relation to work and education, in order to see to what 
extension the groups forming themselves as professional workers empower 
their organization as actors of class.
Keywords: Professional Expertise. Professional Culture. Professional 
Ethnography.
INTRODUÇÃO
Este artigo discute a possível contribuição da abordagem 
teórico-metodológica da etnografia do conhecimento profissional 
desenvolvida por Caria (2011; 2010; 2008; 2007; 2005; 2002; 2000), 
com o intuito de se articular um referencial sobre saberes profissionais, 
construir instrumentos de pesquisa empírica e desenvolver métodos 
de análise de dados sobre saberes profissionais.
Nossa proposta reafirma categorias fundamentais do 
materialismo histórico-dialético – totalidade, historicidade e 
contradição – como referência epistemológica, pois o propósito 
de penetrar em planos ainda pouco investigados na área Trabalho 
e Educação e em seu recorte da Educação Profissional não se 
limita a descrever singularidades do comportamento humano ou 
particularidades de grupos sociais. Ao contrário, pensamos que a 
apreensão dos saberes de grupos profissionais pode nos ajudar a 
compreender dinâmicas e processos pelos quais os trabalhadores 
se afirmam como sujeitos das relações sociais de produção e, assim, 
resistem e elaboram formas de enfrentamento à dominação.
Não obstante, tivemos forte inspiração teórica em autores 
da sociologia que desenvolvem uma reflexão no âmbito das ciências 
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cognitivas, a exemplo Quéré e Fornel (1999); Quéré e Schoch (1998), 
Coulter (1989; 2001) e Dodier (1993), com influência da fenomenologia 
social. Por um lado, não perdemos o posicionamento crítico diante 
dessas correntes, pois reconhecemos, com Minayo (1994, p. 24), que 
“as críticas a essas perspectivas enfatizam o empirismo e o subjetivismo 
dos investigadores que confundem o que percebem e a fala que ouvem 
com a verdade científica e o envolvimento emocional do pesquisador 
com seu campo de trabalho”. Por outro lado, não negamos a 
contribuição dessas correntes para a construção do senso comum 
como objeto da sociologia. Em outras palavras, ao mesmo tempo em 
que nos atentamos para o problema de essas correntes diluírem o senso 
comum e a experiência humana numa microssociologia subjetivista, 
a exemplo do interacionismo simbólico de G. Mead e da abordagem 
da teatralização do mundo social de E. Goffman1, entendemos que a 
compreensão dos processos sociais não pode prescindir do estudo da 
experiência humana (THOMPSON, 1981).
Como veremos adiante, a perspectiva etnográfica que 
tomamos se exclui dessa linha porque abordamos a interação 
social sem perder o vínculo destas com relações sociais de poder 
de natureza estrutural. Assim, no estudo dos saberes profissionais 
compartilhados por um grupo, as interações são definidas como o 
processo de significação mútua e de negociação de poder no nível 
microssocial. Estas, porém, sofrem as determinações da estrutura 
social e podem ter implicações de natureza macrossocial, à medida 
que se estendem para perspectivas de organização e atuação ético-
política no plano das relações sociais de produção.
Por esses motivos, nossa trajetória de pesquisa referenciada ético-
política e epistemologicamente no materialismo histórico-dialético não 
impediu a articulação com a fenomenologia social, especialmente para 
depreendermos a dinâmica social no plano das interações e do senso 
comum, no qual cotidianamente se produzem experiências coletivas.
Nosso principal desafio teórico-metodológico na realização 
de estudos sob essa perspectiva é perceber possibilidades e limites 
de natureza epistemológica de se fazerem dialogar o referencial 
histórico-dialético com a etnografia. Cremos que esse desafio pode 
contribuir para o enfrentamento de algumas tensões teóricas do 
campo Trabalho e Educação no Brasil, especialmente vinculadas 
à relação entre as análises macroeconômicas e as estratégias de 
enfrentamento, pelos trabalhadores, da exploração nos processos de 
experiência humana (THOMPSON, 1981).
Consideramos, ainda, a contribuição que o avanço da 
compreensão dos saberes profissionais pode dar à elucidação 
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científica sobre fundamentos, motivações e limites de produção 
de conhecimentos pelos trabalhadores na sua prática social. 
Tal contribuição poderá se desdobrar para o âmbito das políticas 
públicas de educação profissional, universo em que nossa experiência 
profissional e acadêmica vem se consolidando.
O contexto de elaboração desse problema teórico-
metodológico são nossas atuais questões de pesquisa, dirigidas 
a trabalhadores técnicos de nível médio, que assim sintetizamos: 
1) Qual o significado dos conhecimentos científicos aprendidos na 
formação profissional para os trabalhadores técnicos nas situações 
concretas de trabalho?; 2) Como esses trabalhadores combinam seus 
saberes da experiência com os conhecimentos científicos, inclusive 
reconstruindo-os,