O fantástico Remo Ceserani
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O fantástico Remo Ceserani


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amor" há, como em "A Vênus de Ille", de Méri-
mée, um pouco de fantástico "arqueológico" misturado com 
outros tipos de fantástico: erótico, estético, decadente, que 
acabam por dar a cada um daqueles textos um caráter próprio 
e específico, no qual o fantástico perde muito da sua energia 
mais inquietante e se põe a serviço de outras modalidades ex-
pressivas. Ele, além disso, abandona suas plagas habituais e 
tende a se transferir para paisagens solares e luminosas, que 
tendem a substituir as contraposições evidentes entre escuri-
dão e luz, sonho (ou pesadelo) e vigília, morte e vida, mw1do 
subterrâneo e mundo terreno, com outras contraposições como 
paisagem nórdica e paisagem mediterrânea, pobreza (freqüen-
temente traduzida com pitoresca cor local) e stmtuosidade re-
finada, melancolia e exaltação amorosa, paisagem terrestre e 
paisagem celeste, corpo e alma. "Arria Marcella" (Arria Mar-
celta) souvenir de Pompéi, 1853) coloca em cena, sobre um 
fi.mdo napolitano e da antiga Pompéia, o personagem de Oc-
tavien, que contemplou a estupenda marca de um corpo 
deixada por Arria em um fragmento de lava, depois da emp-
ção destrutiva do Vesúvio, e conservada em wna urna do museu 
de Nápoles; e eis que aquela mesmaA.rria, estupenda e etérea, 
ll1e aparece, com uma irresistível força de sedução, no cenário · 
noturno de Pompéia. "Avatar" ("Avatar", 1857) conta a his-
tória de uma troca de almas, realizada por intervento do ori-
entalista e taumatúrgico doutor Balthazar Charbonneau, cujo 
aspecto bizarro "lembra um personagem fugido de um conto 
fantástico de Hoffmann" . A ele se dirige Octave de Saville, 
wn jovem dândi parisiense afetado pela depressão e sofi-endo 
do lânguido "mal da vida" em conseqüência de um amor não 
correspondido pela condessa Prascovie Labinska, que é ligada 
Remo Ceseroni 
por um fidelíssimo amor ao conde Olaf, seu marido . O doutor 
Charbonneau consegue transplantar a alma de Octave no cor-
po do conde Labinski e, por sua vez, a alma do conde La-
binski no corpo de Octave. "Jettatura" (1857) é uma história 
napolitana de mau-olliado escrita com belíssimas cenas bas-
tante pictóricas: o nobre francês Paul d'Aspremont encontra 
em Nápoles a jovem amada, a frágil inglesa Alicia Ward, mas 
é vítima das fofocas das pessoas, que dizem ser ele portador 
de mau-olliado. O acontecimento, muito romanesco e dra-
mático, transcreve a crença popular no mau-olhado em uma 
série de variações folclóricas e de decorações figurativas (com 
grande insistência sobre as imagens da visão e os atos do oll1ar) 
e termina com um duelo entre Paul e o rival napolitano conde 
de Altavilla, o assassinato de Altavilla, a morte misteriosa de 
Alicia e o suicídio de Paui.2 "O ignorado amor" ("O ignorado 
amor", 1865) é a história do amor entre um jovem parisiense, 
rico, refinado e poeta, de nome Malivert, e o fantasma de uma 
menina que fora apaixonada por ele e que vem, aos poucos, 
preencher-lhe a vida, levando-o a abandonar o amor munda-
no e frívolo por uma mulher da alta sociedade, madame 
d'Ymbercourt. 
Mas procuremos precisar mell1or a contribuição dada 
por Gautier à fortuna do gênero. O seu empenho de escritor 
fantástico foi , até os contos escritos na primeira fase, nos anos 
trinta e quarenta, caracterizado por um esforço de refinamen-
to das técnicas narrativas, pelo gosto obstinado dos detalhes 
quase maneiristas- a "perfeição excessiva" de que falava Cal-
vino . A isso se junta a contínua possibilidade de exceder na 
imitação parodística e na reverberação sutilmente humorísti-
ca, e de seleção de alguns temas tidos como pessoais e elabo-
rados de modo recorrente: os temas do desejo erótico, da 
dupla personalidade, da relação entre amor e morte, do vam-
pirismo, da metamorfose . 
Na sua última fase, outras características se juntam 
a essas. A presença das reflexões sobre a vida e a arte surge de 
forma mais direta e em maior número: na sua escrita se fazem 
mais intensos os signos de suas experiências de viajante e co-
nhecedor de lugares e povos exóticos e distantes (a Europa 
eslava, os países mediterrâneos, o Oriente), de seu contato 
quase cotidiano, e profissional, com as ribaltas, os.palcos, os 
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museus da Europa. Portanto, verifica-se o fortalecimento de, 
seu imaginário figurativo, teatral, musical, e também de sua 
vivacidade lírica (não se pode esquecer que, em um período 
excepcionalmente criativo da lú·ica francesa, a produção poéti-
ca de Gautier tem lugar eminente, ao lado dos grandiosos 
Hugo, Nerval e Baudelaire) . 
É preciso perceber também o fato de que todo um 
sistema literário - quando Gautier escrevia estes seus últimos 
contos fantásticos, e sobretudo "O ignorado amor" - havia 
mudado profundamente. A exploração minuciosa da realidade 
de lugares e pessoas, interior e exterior, realidade material e 
simbólica havia conhecido a essa altura os novos modelos exem-
plares, não só de Stendhal e Balzac, mas também, quando 
surgiu "O ignorado amor", de Flaubert. A transcrição excita-
da e obsessiva do sonho e da visão, e da viagem ao Oriente, já 
havia sido praticada, esplendidamente, pelo amigo Nerval. Ao 
lado do fantástico perturbador do sempre admirado Hoffinann, 
já haviam se aproximado, na experiência literária de Gautier, 
os estilos fortes e obscuramente macabros de Nodier e o pre-
ciosista de Mérimée, que se haviam juntado ao, vindo da Ale-
manha, maravilhoso fabular de Achim von Arnim (traduzido 
na França, com um prefácio do próprio Gautier, em 1856) e, 
vindo das plagas anglo-sa.."Xônicas e descoberto por Baudelaire, 
o fantástico obsessivo de Poe, ainda em tempo de receber 
alguma citação em "O ignorado amor" .3 
Hoffmann está, naturalmente, sempre presente nos 
últimos contos de Gautier, até mesmo com homenagens dire-
tas e pessoais, mas a distância do tempo e das prospectivas age 
até esse momento como filtro deformante: hoffmannianas são 
algumas figurinhas cômicas e caricaturais, que têm a mecani-
cidade dos autômatos e a gestualidade agitada dos macacos, e 
reúnem em si os tratos da sensibilidade visionária, da fixação' 
infantil ou da perversão senil, como o médico Balthazar em 
"Avatar" ou o g room Paddy em "Jettatura". Hoffmannianos 
são ainda muitos temas e motivos, mas quando, por exemplo, 
em "O ignorado amor", floresce o tema perturbador do Ho-
mem de Areia, ele aparece em uma versão refinada, românti-
ca tardia, agregando um toque de figuratividade alegórica à 
descrição de Malivert adormecido em seu escritório, melancó-
lico, sutil, decadente, entre fumaças orientais e abandonado 
Remo Ceseroni 
ao doce farniente.4 As páginas se tornam mais preciosistas e, 
além dos motivos fantásticos e hoffmannianos, lembram o 
imaginário supra-real do Fausto, devido ao imaginário român-
tico. Lembram ainda Chateaubriand, Stendhal e Vigny, por 
causa do realismo exíguo e bizarro; pelo estilo um tanto "in-
glês", fazem recordar algo entre Sterne e Dickens; e, por fim, 
há muito "visionarismo" dantesco (diga-se de passagem, tra-
ta-se de um Dante - aquele que "ilumina" as páginas de Gau-
tier- bastante raro, para entendedores, como aquele de certas 
metáforas do "Purgatório" e de certos cenários luminosos do 
"Paraíso"). 
Em relação às mais antigas experiências do gênero 
fantástico, os últimos contos são, do ponto de vista dos meca-
nismos narrativos, menos fluentes e compactos, e deixam en-
trever, aqui e lá, algum rebuscamento pesado, transições 
cansativas, travadas, embora habilmente mascaradas . É evi-
dente o recurso ao romanesco mais vistoso e ao pitoresco 
marcado da crônica criminal e do final aventuroso, sobretudo 
no final pompeiano de "Jettatura" ou naquele de "O ignorado 
amor". 
Certamente, para quem relembra com respeito os 
velhos conselhos classicistas, ou aqueles legados pelas tradi-
ções narrativas mais artesanais - que sempre sugeriram não
Carolina
Carolina fez um comentário
voce pode me enviar esse arquivo? não consigo baixar
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