O fantástico Remo Ceserani
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O fantástico Remo Ceserani


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noite após 
noite, no soi1ho. A sua incerteza perdura ainda no momento, 
muito mais tarde, da lembrança e da narração. 
O outro conto de Gautier, breve e elegante, "O pé 
da múmia" (Le pied de la momie),31 coloca em cena umgentle-
man de estilo parisiense, que nos conta uma aventura. Desco-
briu um dia, perto de um antiquário, retirado de wn bizarro 
personagem um pouco hoffmanniano e um pouco oriental, 
um objeto raríssimo: um autêntico pé de múmia, pertencente 
à princesa egípcia Ermonthis . Ele compra o objeto e faz dele 
um peso para papéis, que coloca sobre um maço de folhas, 
seus esboços de poemas, cartas, artigos incompletos: o resul-
tado, lhe parece, é "encantador, bizarro e romântico" . Para 
festejar a aquisição, vai jantar com os an1igos, já que - e arre-
mata com uma brincadeira -lhe "teria sido dificil jantar con-
sigo mesmo" . Quando volta para casa, não muito lúcido pelo 
vinho bebido, sente um perfume intenso e vagamente oriental, 
que evidentemente emana do pé embalsamado há tantos anos, 
que agora está reagindo ao calor do quarto. Cai em um sono 
profundo, e por wna hora ou duas tudo fica confuso e opaco 
para ele, mergulhado no esquecimento . Depois, a escuridão 
de sua mente se ilumina e os sonhos começam a aflorar nele 
"com o seu vôo silencioso" . Entra em um novo estado, da-
quele em que alguém sonha porém imagina estar acordado e 
Remo Ceserani 
~ 
ter sonhado. Vê-se em seu quarto, perfeitamente tranqüilo, 
mas eis que, repentinamente, tudo se anima e, sobre a mesa 
em que estava pousado, o pé da múmia começa a se contorcer 
sobre as folhas de papel. A essa altura, não está mais tão feli z 
com sua aquisição porque, ele diz, "amo os pesos de papel 
sedentários e considero pouco natural que os pés caminhem 
sem pernas" . Começa a se assustar. E eis que lhe aparece a 
princesa Ermonthis (belíssima, vestida de modo bastante es-
tranho, sem um pé), que se põe a dialogar com aquele seu pé 
pousado sobre a mesa. O protagonista, que por acaso naquela 
noite entendia a língua com perfeição, acompanha o diálogo. 
Quando percebe que o pé não pode voltar a ser da princesa 
porque foi comprado por ele, se lança para perto dela e lhe 
oferece o ·pé. Ela, com o pé recolocado, lhe dá em troca uma 
"estatueta de barro verde" que trazia no colo, um ídolo repre-
sentante da deusa Ísis condutora de almas. Então ela se ofere-
ce para acompanhá-lo a fim de que conheça seu pai, o faraó , 
nas profundezas misteriosas de uma pirâmide e da eternidade. 
o velho faraó, sentado sobre um trono ao lado de todos os 
faraós do Egito, conhece plenamente o jovem francês , o qual 
pensa, no calor do instante, em pedir a mão dela, calculando 
que, a respeito da restituição do pé, "seria uma recompensa 
antitética de bastante bom gosto". Porém, o velho faraó não 
lhe dá ouvidos, e, ao contrário, acha risível dar a princesa 
como esposa, belíssima, porém uma velha com mais de trinta 
séculos, àquele jovenzinho de tão pouca idade e tão frágil : 
"A desproporção - disse - é grande demais, e depois as nossas 
meninas precisam de maridos que durem, e você não é capaz 
de se conservar". "Veja como sou vigoroso" , disse o velho 
com ar de desafio. E aperta a mão do jovenzinho com tal 
força que parece cortar-lhe os dedos com os anéis. Mas, na 
realidade, aquele que lhe aperta a mão não é o faraó, mas sim 
o amigo Alfred, que vem acordá-lo. A narração se encaminha 
para o fm1 com a inevitável surpresa e a presença irredutível 
do objeto mediador: o protagonista procura qualquer coisa 
em seu escritório e percebe que, ao invés do pé, é a estatueta 
de barro verde, da deusa Ísis, que está como peso de papel. 
Este conto, que apresenta de forma bastante elabo-
rada os temas do sonho e da passagem de fronteiras, serve 
facilmente às interpretações da simbologia sexual de inspira-
O fanláslico 
35 
3 6 
ção psicanalítica: presença de objeto-fetiche com vaga forma 
fálica, uma figura de mulher com vestes de sedutora, presença 
de um pai severo e castrado r etc. 32 Porém, o aspecto mais 
interessante desse conto é um outro: já encontramos, também 
em autores como Hoffmann, uma certa tendência a coligar o 
modo fantástico com o irônico-humorístico; mas nesse conto, 
o humorismo tem uma presença bastante forte e parece ter o 
objetivo não só de alegrar os possíveis tons obscuros do fan-
tástico, mas de juntar a ele algo a mais em termos de jogo 
intelectual, não privado de sua elegância e talvez também de 
sua seriedade . 33 
Pertence ao gosto do "fantástico arqueológico" "A 
Vênus de Ille" (La Vênus d 1Ille, 1837), de Prosper Mérimée, 
que foi autor de outros belíssimos contos fantásticos, como 
por exemplo "Lokis" . 34 "A Vênus de Ille"35 nos leva para um 
território de fronteira, sobre os Pirineus, com, de uma parte, 
as populações locais, catalãs e bascas, ainda imersas em ritos 
antigos e crenças supersticiosas, e de outra o mundo francês e 
parisiense que é também o nosso, composto por leitores racio-
nalistas e munidos de uma sã dúvida e de bom senso. Portador 
dos valores parisienses é o narrador-protagonista, um estudio-
so que trabalha com arqueologia e que se põe a viajar em um 
Rossiglione para ver monumentos clássicos e medievais e, uma 
vez chegado a Ille, conhece um habitante apaixonado por an-
tigüidades, o senhor de Peyrehorade, que, havia apenas duas 
semanas, encontrara uma estátua antiga, de bronze, uma Vê-
nus, que o especialista parisiense reconhece de súbito como 
"uma obra-prima da melhor idade da estatuária" .36 Ao lado 
da fronteira geográfica, há, evidentemente, dando um signifi-
cado ao conto, também uma fronteira histórica, que divide em 
dois lados o paganismo e o cristianismo, a crença mágica nos 
poderes misteriosos de uma estátua-ídolo e a moderna tr:ms-
formação dos poderes mágicos em força espiritual e humanís-
tica ou, na nova versão do racionalista Mérimée, a crença nos 
poderes emotivos e cognoscitivos do homem e o pensamento 
típico do materialismo burguês . 
O narrador, quando chega a Ille, é informado de 
que a população do lugar considera a estátua encontrada um 
ídolo pagão que exerce influências maléficas e já causou não 
poucas desgraças: com o senhor de Peyrehorade, visita a está-
Remo Ceserani 
_.,___ 
tua e com ele discute o significado da inscrição que se lê sobre 
o pedestal: "Cave amantem", que lhe sugere a tradução "cui-
da bem de ti, se ela te ama" . Ele logo sabe que o filho do chefe 
da casa, Alphonse, está se preparando para festejar suas núp-
cias, dois dias depois, sexta-feira. 37 Trata-se de um casamento 
arranjado, de conveniência, sendo ambos os noivos ricos e 
motivados por interesses. Na manhã do matrimônio, o narra-
dor está sentado à frente da estátua, para fazer-lhe um esbo-
ço, quando ali perto está sendo jogada uma partida de péla 
entre jogadores locais e alguns tropeiros aragoneses e navar-
ros que estavam de passagem pelo vilarejo, muito habilidosos 
no jogo. Alphonse, embora já vestido para a cerimônia, vendo 
que os seus estão perdendo, tira suas roupas de noivo e entra 
no jogo. Quando percebe que o grande anel de casamento 
que carrega no dedo o atrapalha para jogar, tira-o e coloca-o, 
com descuido, no dedo da estátua ali no canto. Com seu re-
forço , o time local vence o visitante. 
O cortejo matrimonial chega enfim à casa da noiva 
quando Alphonse percebe a falta do anel. Não conta a nin-
guém, pois teme ser ridicularizado por ter dado o anel para a 
estátua. Substitui o anel por um outro que, por sorte, tem à 
disposição. À noite, no decorrer da festa que se faz em Ille, na 
casa do noivo, o narrador percebe que Alphonse, a uma certa 
altura, se distancia e, na volta, está totalmente pálido e preo-
cupado. Muito mais tarde, e depois de muitas taças de vinho, 
Alphonse chama o narrador à parte e confessa que rião foi 
possível recuperar o anel, já que a estátua havia fechado seus
Carolina
Carolina fez um comentário
voce pode me enviar esse arquivo? não consigo baixar
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