Novos temas da responsabilidade civil extracontratual das entidades públicas
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Novos temas da responsabilidade civil extracontratual das entidades públicas


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tem um carácter pessoal», isto é, «a aceitação de 
uma relação do tipo contratual ajuda a personalizar uma espécie de relações 
sociais que, no plano sociológico, se apresenta como um fenómeno de 
massas»12.
FIGUEIREDO DIAS e SINDE MONTEIRO, referindo-se à prestação de cuidados 
em estabelecimentos integrados no Serviço Nacional de Saúde, afirmam que 
a «qualificação daquele quadro de direitos e deveres, fixado genericamente, 
mas individualizável e individualizado em relação a cada doente em 
concreto, como integrando um contrato, parece-nos assim fazer presa na 
realidade, não sendo uma pura ficção», o que «aliás (\u2026) explica que outros 
países, dentro de parâmetros legais muito próximos dos nossos, seja de há 
muito pacificamente aceite a tese (salvo excepções contadas) da 
12 Cfr. Jorge Figueiredo Dias/Jorge Sinde Monteiro, Responsabilidade Médica em 
Portugal, cit., pp. 48-49.
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responsabilidade contratual (é o caso da Alemanha Federal)»13. O que os 
Ilustres Professores vieram, pois, afirmar é que existem deveres específicos dos 
estabelecimentos integrados no Serviço Nacional de Saúde, e dos que em 
nome deste agem, que fazem aproximar o modelo contratual. 
A situação em que um médico fatalmente, no exercício da sua atividade 
no Serviço Nacional de Saúde, tira a vida ao doente em resultado de uma 
prática grave de incorreção na assistência, com violação da leges artis, não 
pode ser apreciado e juridicamente valorado do mesmo modo que a 
situação em que alguém, sem qualquer contato prévio anterior, sem qualquer 
relação jurídica preexistente, lesa direito de outrem - há deveres específicos, 
há uma ambiência de confiança, há uma relação de confiança, que faz 
gerar no utente uma expetativa de que essa proteção será salvaguardada, 
daí o apelo a um modelo contratual.
Assim, quer se empregue o conceito e tratamento dogmático do contrato 
de adesão ou da relação contratual de facto, quer, acrescentamos, se adote 
e desenvolva a explicação do quadro fático com recurso à figura do contrato 
a favor de terceiro (o utente beneficiário do Serviço Nacional de Saúde), é 
possível explicar a relação jurídica administrativa entre pacientes num 
estabelecimento de saúde integrado no Serviço Nacional de Saúde e o 
estabelecimento prestador de cuidados de saúde como contratual. Na 
verdade, como afirma MOITINHO DE ALMEIDA que «quando o particular se 
dirige ao hospital público, solicitando observação ou tratamento médico, não 
vemos porque não configurar entre ambos a existência de um contrato»14.
13 Ibid. p. 49. Veja-se ainda João Álvaro Dias, Procriação assistida e responsabilidade 
médica, cit. , pp. 240-241, quando afirma que: «a fim de enquadrar tal responsabilidade poderá 
fazer-se apelo quer ao instituto dos contratos de adesão quer à figura das relações contratuais 
de facto («faktische Schuldverhältnisse») e mais especificamente às \u201crelações de massas\u201d 
(«Massenverkehr») resultantes de um comportamento social típico (Sozialtypisches Verhalten)», 
«sendo inegável um fenómeno de massificação no acesso aos serviços médicos das instituições 
e serviços públicos de saúde, qualquer das soluções \u2013 contrato de adesão ou relação 
contratual fáctica \u2013 tem potencialidades para retratar com fidelidade e rigor técnico a relação 
que se estabelece entre o doente e a instituição ou serviço público de saúde» e prossegue para 
afirmar que «estando em causa a tutela de direitos tão essenciais como o direito à saúde, à 
integridade física e à vida, bem se compreende que, nos limites do juridicamente admissível, a 
qualificação das relações contratuais poderá contribuir para a sua personalização e, porque 
não dizê-lo, para um sentido de responsabilidade acrescida por parte dos médicos que aí 
desempenham funções».
14 Cf. Moitinho de Almeida, A Responsabilidade civil do médico e o seu seguro, Scientia 
Iuridica, Tomo XXI, 1972 (Maio/Agosto), Braga, p. 352.
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A assistência de doente beneficiário do Serviço Nacional de Saúde num 
estabelecimento integrado no Serviço Nacional de Saúde corresponde à 
utilização de um serviço público. Ora, recorde-se que FREITAS DO AMARAL, a 
 propósito da «natureza jurídica do acto criador da relação de utilização do 
serviço público pelo particular», vem enunciar que: «a doutrina acha-se muito 
dividida sobre esta matéria, podendo dizer-se que a tendência geral é no 
sentido de os administrativistas verem nesse acto ou um simples facto jurídico 
privado do particular ou, então, um acto administrativo de admissão, 
enquanto os civilistas se inclinam para o considerarem como um contrato civil 
de prestação de serviços ou como actuações geradoras de relações 
contratuais de facto»15. 
Desta forma, afirma-se que o «acto criador da relação de utilização dos 
serviços públicos pelos particulares tem, regra geral, a natureza de contrato 
administrativo - contrato, porque entendemos que a fonte dessa relação 
jurídica é um acordo de vontades, um ato jurídico bilateral; e administrativo, 
porque o seu objecto é a utilização de um serviço público e o seu principal 
efeito é a criação de uma relação jurídica administrativa»16. 
Em suma, mesmo no quadro de estabelecimentos públicos, integrados no 
Serviço Nacional de Saúde, na prestação de cuidados de saúde, se é certo 
que está em causa também a proteção de direitos de personalidade, não 
podemos, porém, deixar de afirmar a existência de deveres específicos, cuja 
violação gera (verificados que sejam os demais pressupostos de 
responsabilidade civil) responsabilidade civil contratual. Não parece 
adequado considerar que na prestação de cuidados de saúde em 
estabelecimentos de saúde integrados no Serviço Nacional de Saúde estamos 
perante apenas um dever geral de abstenção da lesão de direitos de 
personalidade. Há, pois, deveres específicos a observar cujo incumprimento ou 
cumprimento defeituoso deve ser juridicamente censurado com um regime 
mais \u201cenérgico\u201d 17. 
15 Cf. Diogo Freitas do Amaral, Curso de Direito Administrativo, Volume I, (com a 
colaboração de Luís Fábrica, Carla Amado Gomes e Jorge Pereira da Silva) , 3.ª ed., Coimbra, 
2007, p. 804.
16 Ibid.
17 A responsabilidade civil contratual é «marcada, entre outros aspectos, por uma 
presunção de culpa (e de ilicitude, artigo 799.º/1) que faz dela, um instituto enérgico» (António 
Menezes Cordeiro, Tratado de Direito Civil Português, II, Direito das Obrigações, Tomo I, Coimbra, 
2009, p.371).
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A prestação de cuidados de saúde deve ser estudada numa perspetiva 
obrigacional, de direitos e obrigações, de situações jurídicas ativas e passivas, 
cujo incumprimento ou cumprimento defeituoso gera responsabilidade civil 
contratual e a consequente obrigação de indemnizar.
 
2. A prestação de cuidados de saúde como relação obrigacional complexa: 
i) o direito a prestações de saúde e o artigo 64.º da Constituição; a obrigação 
principal 
O direito à proteção da saúde, nos termos do artigo 64.º da Constituição, 
constitui um direito a prestações sociais18. Um direito subjetivo a prestações 
consiste no «direito do particular a obter algo através do Estado (saúde, 
educação, segurança social»19. 
O artigo 64.º da Constituição é uma das «normas consagradoras de direitos 
sociais, económicos e culturais da Constituição Portuguesa de 1976»