Novos temas da responsabilidade civil extracontratual das entidades públicas
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Novos temas da responsabilidade civil extracontratual das entidades públicas


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do Estado ao que se somam as 
especificidades da arbitragem, que, por natureza, constitui uma alternativa à 
administração da justiça estadual e que, enquanto alternativa, apresenta, 
nomeadamente, um modo de impugnação das decisões arbitrais distinto, 
rectius muito mais reduzido, do que o admitido para as decisões jurisdicionais 
públicas.
Mesmo que se entenda que, caso a sentença já não possa ser revogada, se 
exclui o acesso à ação para efetivar a responsabilidade civil dos árbitros 
sempre se terá de perscrutar em que medida é possível cumprir a exigência 
de revogação.
Começando pelo recurso ordinário, deve desde já afirmar-se que o seu 
carácter excecional impõe o seu abandono, enquanto meio impugnatório, na 
25 Sobre a compreensão deste fundamento de anulação, recentemente, ANTÓNIO PEDRO 
PINTO MONTEIRO, \u201cDa ordem pública no processo arbitral\u201d, disponível na internet, pesquisa 
confortável a partir do título, consultado em 2.12.12.
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medida em que se revela pouco adequado para a revogação de todas as 
decisões danosas. A mesma conclusão deve ser repetida para a oposição à 
execução, pois trata-se de um meio que está dependente da interposição de 
uma ação de execução, ou seja, de uma ação cujo fim principal é a 
execução e não um outro fim distinto, como é a revogação da decisão 
danosa.
Mais prometedor poderia ser o instituto de impugnação do laudo arbitral, 
desde logo, por ser este o instituto admitido em Itália para cumprir aquela 
função (art. 813-ter do Codice di Procedura Civile). À luz do disposto na LAV, a 
primeira conclusão que se retira da análise dos fundamentos de impugnação 
do laudo arbitral aí previstos é a da inexistência de qualquer referência ao 
fundamento erro da decisão arbitral. Se assim é, à luz da letra da lei, não se 
deve, todavia, desconsiderar que alguns dos fundamentos de anulação aí 
previstos podem ainda dar cobertura ao erro de direito. No entanto, torna-se 
muito difícil estes oferecerem suporte à revogação da decisão por erro de 
facto. 
Os limites da revogação da decisão arbitral verificam-se ainda que se lance 
mão de uma interpretação generosa do fundamento ordem pública (art. 
46.º/3-b)-ii)), pois o tribunal que anule a sentença arbitral não pode conhecer 
do mérito da questão ou questões por aquela decididas (art. 46.º/9). Se, por 
um lado, o cumprimento da exigência da revogação prévia através do meio 
de impugnação do laudo arbitral parece ser uma solução conforme com a 
lógica da arbitragem, isto é, de ser alternativa à administração da justiça 
pública, por outro, revela-se uma solução bastante limitadora da garantia 
indemnizatória26.
Para além dos meios de revogação do laudo arbitral admitidos pela LAV, 
poderia ainda equacionar-se lançar mão, tendo em conta a doutrina sobre a 
revogação prévia de uma decisão jurisdicional estadual danosa, do recurso 
de revisão previsto nas alíneas a) e b) do artigo 771.º do CPC27. Todavia, esta 
via exigia uma interpretação extensiva dos fundamentos de um recurso que é 
26 Cf. AAVV, Commentario breve al diritto dell\u2019arbitrato nazionale ed internazionale, 
Padova, CEDAM, 2010, p. 142.
27 Cf. MANUEL PEREIRA BARROCAS, Manual de arbitragem, Lisboa, Almedina, 2010, p. 373.
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por natureza extraordinário28 e cujos fundamentos obedecem ao princípio da 
taxatividade29. Acresce que este recurso revela-se pouco conforme com ideia 
da arbitragem que se quer, por regra, cingida à impugnação da decisão por 
via da anulação. Ainda assim, esta via persegue o valor Justiça, enquanto 
valor que não pode, de todo, ser desconsiderado no momento de aferir da 
possibilidade legal de cumprir o direito à reparação dos danos causados pela 
administração da justiça arbitral30. 
9. Por fim, face às limitações que resultam no cumprimento legal da 
revogação da decisão danosa e, consequentemente, do direito à 
reparação dos danos causados pelos árbitros, a outra solução que 
salta à vista é a não exigência da revogação prévia da decisão 
danosa. A principal justificação desta solução pode encontrar-se na 
inconstitucionalidade de tal exigência, logo que o legislador não 
providencie ao lesado um meio de revogação da decisão, desta 
maneira, privando em abstrato o lesado do direito à reparação dos 
danos causados (por legalmente não lhe ser possível o cumprimento 
daquela condição).
Esta última hipótese parece ser a solução mais conforme com a ideia de 
arbitragem. Não só por, em regra, na arbitragem não ter lugar recurso da 
decisão final, como por não se admitir recurso das providências cautelares e 
de ordem preliminar (art. 27.º/4)31. Além disso, esta parece ser a solução que 
mais favorece a proteção dos direitos fundamentais: tutela jurisdicional efetiva 
e reparação de danos. 
28 JOSÉ ALBERTO DOS REIS, Código de Processo Civil anotado, Vol. VI, 3.ª edição, Reimpressão, Sl, 
Coimbra Editora, 2012, p. 339 e ss, referia-se, em anterior legislação, a vício processual, a dolo do 
juiz, a falsidade de provas ou de atos judiciais e a superveniência de elementos decisivos.
29 Cf., entre outros, acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, de 14.07.2010, proc. 
169/06.0TBAGN-A.C1, Regina Rosa; e LUÍS CORREIA DE MENDONÇA e HENRIQUE ANTUNES, Dos recursos: 
regime do Decreto-Lei nº 303/2007, Lisboa, Quid Juris, 2009, p. 339.
30 Outra possibilidade admitida noutros países em matéria de responsabilidade civil do 
Estado por erro judiciário passa pela admissão de um meio processual autónomo para revogar 
a decisão danosa. Cf., no ordenamento jurídico espanhol, o disposto no artigo 293.º da Ley 
Orgánica 6/1985, de 1 de julio, del Poder Judicial.
31 Cf. SUZANA SANTI CREMASCO, \u201cA responsabilidade pelo exercício da função jurisdicional do 
árbitro: uma leitura do enunciado do art. 9º, n.º 4 e n.º 5, da nova Lei de Arbitragem Voluntária 
Portuguesa (Lei n.º 63/2011, de 14 de dezembro) a partir dos preceitos da Lei n.º 67/2007, de 31 
de dezembro\u201d, Revista Brasileira de Arbitragem, n.º 34 (2012), 1-33, p. 26.
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Outro dado que favorece a não exigência da prévia revogação danosa 
resulta do facto de a LAV apenas referir o tribunal competente para a ação 
tendente a efetivar a responsabilidade civil dos árbitros (art. 59.º/10), nada 
dizendo sobre o tribunal competente para a revogação prévia da decisão 
danosa. A exigência do disposto no artigo 13.º/2 do regime aprovado pela Lei 
67/2007 está pensada para um sistema onde a admissão do recurso é a regra, 
o que não acontece com a LAV. A possibilidade da indemnização não pode 
estar condicionada pelo carácter restrito da impugnação do laudo. Fazer 
depender o direito à reparação de um mecanismo de âmbito restrito e 
controvertido, como é o caso da ação de anulação, é fazer repousar um 
problema sobre outro problema.
A irrecorribilidade como regra é uma consequência da opção por um meio 
alternativo de resolução de litígios, enquanto manifestação da renúncia 
parcial à administração da justiça estadual. O facto de as garantias da 
impugnação da sentença arbitral serem inferiores às previstas para a sentença 
jurisdicional não poderá querer dizer que a responsabilidade civil da 
arbitragem também deva ser inferior à da administração da justiça estadual. 
Na verdade, uma coisa é a garantia primária de impugnação e outra é a 
garantia secundária de reparação.