ZIZEK, Slavoj. Violência
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ZIZEK, Slavoj. Violência


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incondicional[11]. Isto é, o Outro imponderável enquanto inimigo \u2013 um
inimigo que é absolutamente Outro e não mais o \u201cinimigo respeitável\u201d\u2013, alguém cujo próprio
modo de raciocínio nos é estranho, pelo que nenhum encontro autêntico é possível na batalha
travada com ele. Embora Levinas não tivesse esta dimensão em mente, a ambiguidade radical,
o caráter traumático do Próximo facilita a compreensão da forma como a concepção de
Levinas do Outro preparou o terreno (abriu o espaço) para tanto \u2013 tal como, de modo
estritamente homólogo, a ética kantiana abriu caminho à ideia de um mal diabólico. Por mais
horrível que possa soar, o Outro levinasiano enquanto abismo de alteridade do qual emana a
injunção ética e a figura nazista do judeu como um Outro-inimigo e menos-do-que-humano têm
origem na mesma fonte.
Quando Freud e Lacan insistem na natureza problemática da injunção judaico-cristã
fundamental (\u201cama o teu próximo\u201d), não estão apenas assinalando os termos críticos e
ideológicos habituais sobre como qualquer ideia de universalidade é sempre definida pelos
nossos valores particulares, acarretando por isso mesmo exclusões dissimuladas; antes,
afirmam uma tese muito mais forte sobre a incompatibilidade entre o Próximo e a própria
dimensão da universalidade. O que resiste à universalidade é a dimensão propriamente
inumana do Próximo. É por isso que é tão violento e até mesmo traumático para alguém
ocupar o lugar do ser amado: ser amado me faz sentir diretamente o abismo entre o que sou
enquanto ser determinado e o X insondável em mim que causa o amor. A definição do amor
por Lacan (\u201cO amor é dar o que não se tem\u2026\u201d) deverá ser completada da seguinte forma: \u201c\u2026
alguém que não o quer\u201d. Temos consciência de que, na realidade, os bem conhecidos versos
de Yeats descrevem uma das mais claustrofóbicas constelações que se possam imaginar?
Se eu tivesse do céu os panos de bordado,
Recamados de prata e de ouro pela luz,
O pano azul bordado e o sombrio bordado
Do céu da noite e do da luz e meia-luz,
Desdobraria esses panos aos teus pés:
Mas, pobre como sou, tenho só os meus sonhos,
E assim são eles só que desdobro aos teus pés,
Pisa-os de manso porque são os meus sonhos.[12]
Em resumo, nos termos do filósofo francês Gilles Deleuze: Si vous êtes pris dans le rêve
de l\u2019autre, vous êtes foutu [Se você se deixar apanhar pelo sonho do outro, está ferrado!]; ou,
como Neil Gaiman, o autor da graphic novel Sandman, escreveu numa passagem memorável:
Você já se apaixonou alguma vez? É horrível, não é? Você fica tão vulnerável. Abre o seu peito e o seu coração e
permite que outra pessoa entre em você e bagunce tudo. Você constrói todas essas defesas, constrói uma armadura
que lhe cobre de alto a baixo para que ninguém possa lhe machucar, e então uma pessoa estúpida, igual a qualquer
outra pessoa estúpida, entra em sua estúpida vida\u2026 Você dá a elas um pedaço de você mesmo. Não lhe pediram.
Fizeram uma estupidez qualquer um dia \u2013 como lhe beijar ou sorrir pra você \u2013 e a sua vida deixou daí em diante de ser
sua. O amor faz reféns. Entra dentro de você. Devora-o e o deixa chorando no escuro, e é assim que uma simples
frase do tipo \u201ctalvez devêssemos ser só amigos\u201d se transforma num estilhaço de vidro que vai direito ao seu coração.
Dói. Não é só na imaginação. Não é só mental. É uma dor da alma, uma dor real que invade e rasga. Odeio o amor.
[13]
Em seus últimos anos de vida, o cineasta soviético Andrei Tarkovski viveu em Estocolmo
enquanto trabalhava no seu filme O sacrifício. Recebeu um escritório no mesmo prédio em
que Ingmar Bergman, que a essa altura ainda vivia em Estocolmo, tivera o dele. Embora os
dois realizadores se respeitassem profundamente e tivessem a maior admiração um pelo outro,
nunca se encontraram, e evitaram-se cuidadosamente, como se o fato de se encontrarem em
pessoa fosse demasiado doloroso e fadado ao fracasso precisamente devido à grande
proximidade de seus universos. Inventaram e respeitaram seu próprio código de mútua
discrição.
A violência da linguagem
Então por que, atualmente, esse medo da superproximidade do Outro como sujeito de desejo?
Por que a necessidade de descafeinar o Outro, de privar ele ou ela da substância de sua
matéria-prima de jouissance? Suspeito que se trate de uma reação à desintegração das
barreiras simbólicas protetoras que mantinham os outros a uma distância adequada. O que
sentimos falta em nossa cultura, em que as autoconfissões brutais contrastam com o medo
politicamente correto do assédio que mantém o Outro à distância, é o espírito que Gore Vidal
caracterizou como ninguém. Vidal deu a resposta perfeita a um jornalista vulgarmente
intrusivo que lhe perguntou à queima-roupa se o seu primeiro parceiro sexual tinha sido um
homem ou uma mulher: \u201cFui demasiado bem-educado para perguntar\u201d, respondeu.
Não há exemplo mais tangível dessa desintegração de barreiras protetoras de civilidade
do que nos choques que se verificam entre culturas diferentes. No outono de 2005, o Ocidente
foi tomado por uma explosão de violência que ameaçava desembocar num choque literal de
civilizações: as manifestações amplamente difundidas que tiveram lugar nos países árabes
contra a publicação de umas caricaturas do profeta Maomé pelo Jyllands-Posten, um jornal
dinamarquês de reduzida circulação. O primeiro aspecto a ser notado \u2013 tão evidente que na
maior parte dos casos não chega a ser referido \u2013 é o fato de que a vasta maioria das milhares
de pessoas que se sentiram ofendidas pelas caricaturas e se manifestaram contra sua
publicação não tinham nem mesmo visto as imagens. Este fato nos confronta com um outro, e
pouco auspicioso, aspecto da globalização: \u201ca aldeia da informação global\u201d é a condição do
fato de que algo que apareceu num obscuro jornal diário da Dinamarca causou uma agitação
violenta em países muçulmanos muito distantes. É como se Dinamarca e Síria, Paquistão,
Egito, Iraque, Líbano e Indonésia fossem na realidade países vizinhos. Aqueles que veem a
globalização como uma oportunidade que permite que a Terra inteira se transforme em um
espaço unificado de comunicação, um espaço de reunião de toda a humanidade, deixam com
demasiada frequência na sombra esse outro lado inquietante da realidade que aclamam. Uma
vez que o Próximo é originariamente (como Freud suspeitou há muito tempo) uma coisa, um
intruso traumático, alguém cujo modo de vida diferente (ou, antes, cujo modo de jouissance
diferente, materializado em suas práticas e ritos sociais) nos perturba, abala o equilíbrio dos
trilhos sobre os quais nossa vida corre, quando chega perto demais, esse fato pode também
dar origem a uma reação agressiva visando afastar o intruso incômodo. Nos termos de Peter
Sloterdijk: \u201cMais comunicação significa em um primeiro momento, acima de tudo, mais
conflito\u201d[14]. É por isso que Sloterdijk tem razão quando afirma que a atitude de \u201ccompreensão
mútua\u201d deve ser completada pela atitude de \u201cnão ficarmos no caminho uns dos outros\u201d,
mantendo uma distância apropriada e elaborando um novo \u201ccódigo de discrição\u201d.
A civilização europeia considera mais fácil tolerar diferentes modos de vida precisamente
devido àquilo que seus críticos habitualmente denunciam como sua própria fraqueza e
fracasso, qual seja, sua alienação da vida social. Uma das coisas que a alienação significa é
que a distância faz parte do próprio tecido social da vida cotidiana. Ainda que viva ao lado
dos outros, meu estado normal é ignorá-los. Sou autorizado a não me aproximar demais das
outras pessoas. Posso me movimentar em um espaço social em que interajo com os outros
obedecendo a certas regras exteriores \u201cmecânicas\u201d, sem partilhar o seu mundo interior. Talvez
a lição a se tirar daqui é que de vez em quando uma certa dose de alienação se torna
indispensável para uma coexistência pacífica. Às vezes a alienação não é um problema, mas
uma solução.
As massas muçulmanas não reagiram às caricaturas de Maomé em si. Reagiram à imagem
ou