ZIZEK, Slavoj. Violência
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ZIZEK, Slavoj. Violência


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salvaguardar a sua cultura e o seu modo de vida
únicos. Não há desculpa para o crime e comportamentos violentos. Aquilo de que os jovens
imigrantes têm necessidade não é de mais apoios sociais, mas de disciplina e trabalho duro\u2026
Enquanto isso, os liberais de esquerda (não menos previsivelmente) agarram-se ao seu mantra
sobre o desprezo aos programas sociais e aos esforços orientados para a integração, privando
a geração mais jovem de imigrantes de quaisquer perspectivas econômicas e sociais claras: as
explosões violentas são o único meio que têm para exprimir a sua insatisfação. Como Stalin
poderia dizer, não faz sentido discutir qual reação é a pior: ambas são as piores, o que se
aplica também ao aviso formulado pelos dois lados, em cujos termos o perigo real das
explosões em causa reside na reação racista facilmente previsível dos próprios franceses.
Os motins de Paris devem ser situados numa série que formam com outro tipo de violência
que a maioria liberal entende hoje como uma ameaça ao nosso modo de vida: os ataques
terroristas diretos e atentados suicidas. Em ambos os casos, a violência e a contraviolência
envolvem-se num círculo vicioso mortal, engendrando cada uma delas as próprias forças que
tentam combater. Nos dois casos, estamos diante de passagens ao ato cegas, nas quais a
violência é uma implícita confissão de impotência. A diferença é que, em contraste com as
manifestações de Paris que eram um grau zero de protesto \u2013 uma explosão violenta que nada
queria \u2013 os ataques terroristas são realizados com base naquela crença em um sentido
absoluto fornecido pela religião. O seu alvo definitivo é o modo de vida ocidental ateu
baseado na ciência moderna. A ciência hoje compete efetivamente com a religião, na medida
em que serve duas necessidades propriamente ideológicas, assegurando uma esperança e uma
censura que tradicionalmente estavam a cargo da religião. Citando John Gray:
Só a ciência tem o poder de silenciar os hereges. É hoje a única instituição que pode reclamar autoridade. Como a
Igreja no passado, tem o poder de destruir ou marginalizar os pensadores independentes [\u2026]. Do ponto de vista de
alguém que aprecie a liberdade de pensamento, este fato pode ser infeliz, mas é indubitavelmente a principal fonte da
atração exercida pela ciência. Para nós, a ciência é um refúgio contra as incertezas, prometendo \u2013 e, em certa medida,
assegurando \u2013 o milagre de nos livrar do pensamento, ao mesmo tempo que as igrejas se transformaram em santuários
da dúvida.[4]
Não estamos falando aqui da ciência enquanto tal, e por isso a ideia de que a ciência
trabalha para \u201cnos livrar do pensamento\u201d não é uma variação em torno da ideia heideggeriana
de que \u201ca ciência não pensa\u201d. Falamos do modo como a ciência funciona enquanto força
social, enquanto instituição ideológica: nesse âmbito, sua função é fornecer certeza, ser o
ponto de referência em que podemos confiar, fornecer esperança. As novas invenções
tecnológicas vão nos ajudar a combater doenças, a prolongar a vida e assim por diante. Nessa
perspectiva, a ciência é aquilo a que Lacan chamava \u201cdiscurso universitário\u201d em sua
expressão mais pura: saber cuja \u201cverdade\u201d é um Significante-Mestre, ou seja, poder[5]. A
ciência e a religião trocaram de lugares: a ciência, hoje, fornece a segurança que outrora a
religião garantia. Numa curiosa inversão, a religião é hoje um dos lugares a partir dos quais
podemos formular dúvidas críticas sobre a sociedade. Transformou-se em um dos locais de
resistência.
O caráter \u201cdestituído de mundo\u201d do capitalismo está ligado a esse papel hegemônico do
discurso científico na modernidade. Hegel já detectara claramente esse traço ao notar que,
para nós (modernos), a arte e a religião já não impõem um respeito absoluto: podemos
admirá-las, mas não nos ajoelhamos mais diante delas, nosso coração não está mais na
realidade com elas. Só a ciência \u2013 o conhecimento conceitual \u2013 merece aquele respeito de
outrora. E apenas a psicanálise pode revelar plenamente os contornos do impacto
desagregador da modernidade \u2013 ou seja, do capitalismo combinado com a hegemonia do
discurso científico \u2013 sobre o modo como a nossa identidade se funda em identificações
simbólicas. Não é de se espantar que a modernidade conduza à chamada \u201ccrise do sentido\u201d,
quer dizer, à desintegração da ligação, ou até da identidade, entre verdade e significação.
Na Europa, onde a modernização teve lugar ao longo de vários séculos, houve tempo para
uma adaptação a essa ruptura, para uma moderação do seu impacto desagregador, através do
Kulturarbeit, o trabalho da cultura. Formaram-se lentamente novas narrativas e mitos sociais.
Algumas outras sociedades \u2013 designadamente as muçulmanas \u2013 foram expostas diretamente a
esse impacto, sem disporem de barreiras de proteção ou de dilações temporais, e por isso o
seu universo simbólico foi muito mais brutalmente perturbado. Perderam o seu fundamento
(simbólico) sem disporem de tempo suficiente para estabelecerem um novo equilíbrio
(simbólico). Não é de se surpreender, portanto, que o único modo para algumas dessas
sociedades evitarem o colapso total fosse ereger em pânico o escudo do \u201cfundamentalismo\u201d,
essa reafirmação psicótica-delirante-incestuosa da religião como intuição direta do interior do
Real divino, com todas as aterradoras consequências que tal reafirmação acarreta, entre as
quais se inclui o regresso vingativo da obscena divindade de um supereu que exige sacrifícios.
Quanto aos ataques \u201cterroristas\u201c realizados por fundamentalistas, a primeira coisa que
salta aos olhos é a ideia, desenvolvida de forma mais sistemática por Donald Davidson, de
que os atos humanos são racionalmente intencionais e explicáveis em termos de crenças e
desejos do agente[6]. Essa abordagem exemplifica o viés racista das teorias da
\u201cracionalidade\u201d. Embora seu alvo seja compreender o Outro a partir de dentro, acabam por
atribuir-Lhe as crenças mais ridículas \u2013 como, por exemplo, as infames quatrocentas virgens
que esperam o crente no paraíso como explicação \u201cracional\u201d da disposição do Outro para se
explodir. Em seu esforço de tornar o Outro \u201ccomo nós\u201d, acabam tornando-o ridiculamente
esquisito[7].
Eis uma passagem de uma das mensagens de propaganda distribuídas pela Coreia do Norte
durante a Guerra da Coreia:
O herói Kang Ho-yung foi seriamente ferido nos dois braços e nas duas pernas durante a Batalha do Monte Kamak, e
foi então que atacou os inimigos rolando no chão com uma granada de mão na boca, gritando (logo antes de destroçá-
los): \u201cPartiram-me os braços e as pernas. Mas o meu espírito de vingança contra os canalhas que vocês são tornou-se,
em compensação, mil vezes mais forte. Vou mostrar pra vocês o ardor inquebrantável de um membro do Partido dos
Trabalhadores da Coreia e sua vontade inflexível e firmemente empenhada em defesa do Partido e do Líder!\u201d.[8]
É fácil tirar um sarro do caráter ridiculamente pouco realista dessa descrição: afinal de
contas, como poderia o pobre Kang gritar tudo isso enquanto tinha uma granada na boca? E
como teria, no meio da batalha, tempo para declamar a sua longa proclamação? Mas e se o
erro for justamente ler esta passagem como uma descrição realista, imputando assim crenças
ridículas aos coreanos? Se fossem diretamente questionados, é evidente que os norte-coreanos
responderiam: é claro que essa história não é literalmente verdadeira \u2013 ela simplesmente
objetiva comunicar o espírito de sacrifício incondicional e a disposição a fazer o impossível
por parte do povo coreano, no intuito de derrotar a agressão imperialista contra a sua terra\u2026
E se o erro fosse o mesmo cometido por antropólogos que imputam aos aborígenes
\u201cprimitivos\u201d que celebram a águia como seu antepassado a crença de que são realmente
descendentes da águia? Porque não lemos esta passagem \u2013 que soa efetivamente um tanto
operática em seu pathos \u2013 da mesma forma que escutamos o Terceiro Ato do Tristão de
Wagner, durante o qual o