O_campo_da_sociologia_das_emoções
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DisciplinaAntropologia I8.510 materiais61.513 seguidores
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e comparadas entre culturas, fra- 
1 \u2022 111 11 ido a pertinência da própria categoria de emoção (Abu-Lughod & Lutz, 
njijo: |). A abordagem historicista, por sua vez, compartilharia com a anterior 
1 postura relativista, porém esta se daria em relação ao tempo, afirmando- 
.<\u2022 o 1,11 ater histórico das emoções. Buscaria recuperar genealogias de certas
\u25a0 1I1 f,oi ias emotivas, a fim de revelar como constituíram sua forma atual ou
1 u i 1.1111 seu lócus social deslocado ao longo do tempo. Por fim, a quarta abor- 
.1 1) ,. 111, desenvolvida posteriormente às outras e defendida pelas autoras, iria 
il> m <lo viés comparativo e historicista, voltando-se mais para a riqueza das 
.11 ii.u.ocs sociais específicas nas quais as emoções se apresentam.
Ao tomar 0 conceito foucaultiano de discurso como ponto de partida,
\u25a0 ..i prispa tiv.i procura situar os contextos sociais em que as emoções são
1 p . . . . r . , com o intuito de mostrar que os discursos emotivos podem ser
> i-.to-, 1 01 no pi.iticas que estruturam os próprios objetos de que falam (: 9). 
\ 11. 11., ,10 .10 disc urso permite tratar as emoções como parte da interação so-
\u2022 111 ' . |>< >i lauto, .itcit.is ;i imprevisibilidade das reações dos atores envolvidos, 
pi 011 ti/indo &quot;uma visão mais complexa dos possíveis sentidos múltiplos, mu-
l a m : ro 1 onlt '.l.ido.tlcclocuçócse trocas emocionais\u201d (: i i ). Assim, mais do que
....... 1 11 1 ' xpirv.ao da rinoçilo como veículo de estados subjetivos internos,
busca-se afirmá-la como \u201catos pragmáticos e desempenhos comunicativos\u201d 
(: 11), ou seja, como \u201cuma forma de ação social que tem efeitos sobre o mun­
do, que são lidos de um modo culturalmente informado pela audiência da 
fala da emoção\u201d (: 12). Tal abordagem contextualista evidenciaria, portanto, a 
dimensão micropolítica das emoções, permitindo usá-las como via de acesso 
para a compreensão de relações de poder e desigualdades sociais.
Para aprofundar questões levantadas pela perspectiva relativista e pela 
perspectiva contextualista, que marcam o campo da antropologia das emo­
ções nos Estados Unidos, discutiremos os trabalhos de Michelle Rosaldo 
(1984) e a etnografia de Catherine Lutz (1988) como exemplos da primeira 
abordagem, e o de Lila Abu-Lughod (1990) como ilustração da segunda.
Rosaldo propõe uma antropologia do self e da emoção fortemente am­
parada no paradigma interpretativo, que toma o significado como público e 
a cultura como uma associação de significados. Nesses termos, o estudo das 
emoções vincula-se a uma compreensão mais fundamental da pessoa como 
construção cultural. A aquisição de um sentido de self implicaria visões cul­
turalmente organizadas de possibilidades e sentidos do que é uma pessoa, 
do mesmo modo que afetos seriam interpretações culturalmente informadas, 
nas quais o ator envolve seu corpo, seu self e sua identidade. Buscando pro- 
blematizar a dicotomia ocidental que opõe pensamento a emoção, Rosaldo 
propõe que:
as emoções são pensamentos de alguma maneira \u201csentidos\u201d em rubores, 
pulsações, movimentos do fígado, mente, coração, estômago, pele. São pensa­
mentos incorporados, pensamentos permeados pela percepção de que \u201cestou 
envolvido\u201d (1984:143, nossa tradução).
E segue questionando visões ocidentais de pessoa que informariam aná­
lises comparativas de emoções como culpa e vergonha. A noção de um self 
privado e interno, repleto de desejos e impulsos, e distinto da pessoa pública e 
social, estaria por trás da proposta de tomar esses sentimentos como guardiões 
das normas sociais e da ordem moral. Em seu estudo dos Ilongots, nas Filipi­
nas, Rosaldo encontra a vergonha não como emoção que constrange o indiví­
duo em relação a seus impulsos antissociais, e sim como sentimento que surge 
de situações de desigualdade que ferem uma forte valorização da igualdade.3
3 Em outro artigo, Rosaldo aprofunda sua análise do sentimento de vergonha e a ausência 
da culpa entre os Ilongots (Rosaldo, 1983).
1 0 I ( i U I T U H A M N M N T I M M N T U N
I\u2019ara ela, se o sentimento de vergonha parece estar sempre relacionado aos in­
vestimentos que uma pessoa faz em determinada autoimagem, a forma tomada 
por essa emoção depende tanto do modo de conceber e lidar com as demandas 
i los indivíduos quanto de cada situação social.
Em sua etnografia sobre os Ifaluk, voltada para a compreensão de suas 
vicias emocionais, Lutz assinala a importância, para esse tipo de projeto etno­
gráfico, de compreender as categorias nativas ocidentais sobre a experiên- 
i i.i emocional, ao que denomina de \u201cetnopsicologia euroamericana\u201d. Para 
ria, as representações ocidentais da emoção se organizam em torno de duas 
<«posições básicas: emoção versus pensamento, e emoção versus alheamento. 
A valoração da emoção, contudo, altera-se em função daquilo com que con-
11 -isla: em oposição ao pensamento, é o polo negativo; diante do alheamento, 
Inrna-se o polo positivo.
lúnoção e pensamento compartilhariam um traço importante: são \u201ccarac- 
lei Isticas internas das pessoas\u201d, sendo vistos como \u201crealidades mais autênticas e 
i < mio um lócus do self mais autêntico em comparação com a relativa inauten- 
l u idade da fala e de outras formas de interação\u201d (Lutz, 1988:56, nossa tradução).
I v..i oposição apareceria sob diversas roupagens, da ciência ao senso comum, 
e se desdobraria em diversas outras, entre as quais \u201cvulnerabilidade/controle\u201d,
\u25a0 iios/ordem\u201d \u201cfísico/mental\u201d, \u201cnatural/cultural\u201d e \u201cfeminino/masculino\u201d. Con- 
Itido, ao se opor ao alheamento, a emoção se revalorizaria como uma forma
I I m i n profunda de compreensão, vizinha da sabedoria, constituindo outras ver-
II írs dessa oposição: \u201crelação/individualismo\u201d, \u201ccomprometimento/niilismo\u201d e,
III >\ .1 mente, \u201cnatural/cultural\u201d e \u201cfeminino/masculino\u201d. A dupla possibilidade 
tlf conceber a emoção traria consigo uma ambivalência, ligada, segundo a au- 
im.i, .1 uma contradição que perpassaria atualmente os Estados Unidos e se
\u25a0 I n 1.1 &quot;rnire a ênfase na racionalidade, no controle e na ordem, e a promoção
\u25a0 I&quot; | >1.1/11 c da dor da emoção\u201d (: 59, nossa tradução).
m u i 1 u i i i i o i ) p r o b l e m a t i z a , algum tempo depois, aspectos da perspec- 
Hv.t n l.iiivista, cm particular a ideia de que as emoções poderiam ser separa- 
I 1 'l<i II iixo <l,i vida social contida no próprio nome da área \u201cantropologia das
1 uh 11,Oi I >i 1 o de outro modo, a proposta de relativizar conceitos emotivos 
iii ikui.ipm loui.í los como dotados de um sentido unívoco, independente- 
tin 111 \u25a0 do-, 1 outextos soi i.lis em que são expressos. Nessa perspectiva, a pró- 
pi 1,1 noi.tio de soi ledade tende .1 sei pensada como um corpo unitário, e não
1 nnio ui 11 1 onjimlo de indivíduos e grupos envolvidos em relações de poder
e competindo por seus interesses. Abu-Lughod, em vez disso, argumenta em 
favor de uma visão pragmática das categorias emotivas que desloca o foco 
dos seus significados para sua prática, isto é, os modos pelos quais os discur­
sos emotivos são acionados em contextos diversos, por razões distintas e com 
efeitos variados, decorrendo daí sua concepção micropolítica das emoções, 
que busca inserir os discursos emotivos em negociações e jogos de poder.
Com base nessa abordagem contextualista, Abu-Lughod analisa o lugar 
da poesia amorosa no cotidiano de um grupo beduíno do Egito, os Awlad\u2019Ali. 
Apesar dos casamentos preferenciais entre primos e da relação de modéstia 
entre marido e mulher, que reforçam a autoridade da hierarquia social en­
tre os gêneros e as gerações familiares, as poesias amorosas fazem parte do 
cotidiano acionando outro conjunto de valores, calcado na resistência e na 
liberdade. Recitadas principalmente por jovens rapazes e mulheres, estas se 
tornam um discurso de desafio aos ideais da vida social beduína. Com as 
mudanças econômicas que, desde a década de 1980, vêm afetando o estilo 
nômade dos beduínos, os jovens rapazes,