Fernando Savater - As Perguntas da Vida
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Fernando Savater - As Perguntas da Vida


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ousarei 
tentar uma análise das próprias perguntas. 
O que é o universo? A tarefa de responder a essa pergunta de-
veria começar por esclarecer o que entendemos por "universo". Di-
gamos que há dois sentidos do termo, um heavy e o outro mais light. 
De acordo com o primeiro deles, o universo é uma totalidade nitida-
mente delineada e distinta da soma de suas diferentes partes, sobre 
a qual cabe fazer indagações específicas. De acordo com o segundo, 
não é mais do que o nome que damos ao conjunto ou coleção inde-
terminada de tudo o que existe, uma espécie de abreviatura semân-
tica para o acúmulo inumerável e interminável de coisas grandes e 
pequenas, sem nenhuma entidade especial, sobre o qual podemos 
teorizar isoladamente. O primeiro conceito de universo é o que pa-
rece contar com nosso maior apoio intuitivo: se existem partes ou in-
gredientes, como pode não haver um todo definido no qual encon-
trem, de um modo ou de outro, sua acomodação? A maior parte dos 
filósofos gregos acreditou em um universo desse tipo, um grande 
Objeto do qual todos os outros objetos não são mais que componen-
tes que dele recebem sua coordenação. É claro que para eles esse ob-
jeto devia ser finito (por acaso podemos imaginar algum objeto in-
finito?; e se é infinito como podemos saber que é uno? Ou como 
essa infinitude poderia servir para relacionar as partes finitas entre 
si, inteligivelmente?), no entanto de uma finitude tão especial que 
não deixasse nada fora dela mesma. Esse paradoxo da finitude sem 
exterior é o que Arquitas de Tarento quis destacar pondo - imagina-
riamente - a mão para fora do universo, como quem deseja averi-
guar se está chovendo ou não ... fora do cosmo! Porque, se aceitamos 
intuitivamente que todos os objetos devem ser finitos, também de-
vemos aceitar então que todos os objetos têm um exterior. Se há um 
objeto que não tem exterior, por que dizemos que é finito? Se não é 
finito, por que dizemos que é um objeto? 
A dificuldade que aqui se coloca - a mesma que se colocou 
para os gregos e, depois, para todos os seus herdeiros atuais - está 
vinculada à tendência a formular sobre o imenso as mesmas per-
guntas que têm sentido em uma escala mais reduzida ... e talvez só 
nessa escala! Por exemplo, sabemos que cada coisa ocupa um lugar 
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e, portanto, podemos ser tentados a nos perguntar "que lugar ocu-
pará então o conjunto de todas as coisas?". Sabemos que um filme 
começa a uma determinada hora e acaba tantos minutos depois, o 
que nos leva a supor que o universo - que sem dúvida é uma super-
produção bem maior do que E o vento levou - também tenha come-
çado num certo momento e que deverá acabar em outro. Mas, como 
observou Bertrand Russell, embora todo ser humano tenha mãe, 
isso não autoriza a supor que a humanidade inteira seja obrigada a 
ter mãe também. 
Vemos que todos os objetos que conhecemos são formados de 
partes e que eles mesmos são partes de objetos maiores (pedras, ter-
ra e vegetação formam uma montanha, que por sua vez está inte-
grada numa cordilheira, que é parte de um continente, que por sua 
vez faz parte de nosso planeta, etc.), donde nos parece plausível su-
por um objeto colossal formado por todos os objetos que houve e 
que haverá. E sobre ele começamos a nos fazer as mesmas pergun-
tas que estamos acostumados a formular sobre as coisas que nos ro-
deiam, mas com resultados profundamente desconcertantes. Come-
çando pelas complicações que traz concebê-lo seja como finito ou 
como infinito e que já foram estudadas pelo sábio Kant no final de 
sua Crítica da razão pura. 
E se não houvesse uma coisa como a supercoisa-universo? E 
se só houvesse coisas, inumeráveis coisas que se sucedem umas às 
outras, se juntam e se separam, acabam e começam, mas não hou-
vesse nenhuma grande Coisa formada por todas as coisas? Por que 
então sentimos quase a necessidade de acreditar em tal coisa uni-. 
versal? O poeta português Fernando Pessoa, que também foi filó-
sofo, aventura uma explicação digna de ser levada em conta: "A 
matéria é constituída por objetos, coisas ... A consciência não o é. 
Só o conjunto (por assim dizer) da consciência é 'real'; na matéria, 
o c~njunto não é real, não há conjunto; há partes, objetos somente. 
A idéia de que há um Universo, um conjunto da matéria, é uma 
aplicação à matéria do que é característico da consciência." Cada 
um de nós considera-se uno, um sujeito: talvez por isso tenhamos 
necessidade de unificar nossa experiência da realidade em objetos 
e todos os objetos em um único grande Objeto que os reúna com-
pletamente diante da consciência. 
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Desde a Antiguidade, a negação do universo como objeto úni-
co está ligada à filosofia materialista, exposta insuperavelmente 
por Lucrécio em seu longo poema cosmológico De Rerum Natura. 
Sem dúvida, o materialismo filosófico nada tem a ver com certos 
usos vulgares da palavra, segundo os quais ser "materialista" signi-
fica ânsia de riqueza e de excessos sensuais junto com carência de 
ideais ou de generosidade. Em filosofia, o materialismo é uma 
perspectiva caracterizada basicamente por dois princípios comple-
mentares: primeiro, não existe um Universo, mas uma infinita plu-
ralidade de mundos, objetos ou coisas que nunca se podem conce-
ber sob o conceito de unidade; segundo, todos os objetos ou coisas 
que percebemos são compostos de partes e, mais cedo ou mais tar-
de, irão decompor-se em partes. As últimas partes imperceptíveis 
de todo o real são chamadas pelos materialistas clássicos de "áto-
mos", ou seja, o que já não pode ser dividido em partes menores. 
Mas trata-se de uma suposição metafisica, não de uma observação 
fisica (não se devem confundir os átomos de Leucipo, Demócrito 
ou Lucrécio com os da fisica contemporânea!). 
O universo tem alguma ordem ou desígnio? Quer aceitemos 
que existe o universo em seu sentido "forte'', como um objeto úni-
co de que tudo faz parte, quer o tomemos apenas na acepção mais 
"leve" do termo, como abreviatura para nos referir a todas as coi-
sas reais, é inevitável perguntar se nele há alguma forma de ordem 
que nossa razão possa compreender. De fato, tanto em grego como 
em latim, as palavras que o nomeiam indicam ordenamento e har-
monia: o cosmo é o bem organizado e disposto (daí a palavra "cos-
mética", que indica a arrumação adequada da própria aparência), 
do mesmo modo que mundus em latim, cujo oposto é "imundo'', 
para sujo e desarrumado. Mas, segundo a mitologia grega, tal como 
narrada por Hesíodo em sua Teogonia, a origem de todos os deuses, 
assim como dos mortais, está em uma divindade primogênita cha-
mada Caos, o Abismo, o grande Bocejo, o sem forma e para sem-
pre ininteligível a partir de modelos ordenados. E aquele que foi, 
talvez, o mais enigmático e profundo dos primeiros filósofos, He-
ráclito, afirma em um de seus fragmentos aforísticos que dele ain-
da se conservam: "Tal como um turbilhão de refugos jogados ao 
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acaso é a ordem mais bonita, também assim é o cosmo" (fr. 124 
Diels-Kranz). Cabe, pois, indagar se no princípio era a ordem - o 
cosmo - ou a desordem caótica. Ou será - como parece sugerir iro-
nicamente Heráclito - que a ordem cósmica se parece mais com a 
de um amontoado de coisas acumuladas ao acaso e, assim, coinci-
de exatamente com o que os outros chamam de "caos"? 
Antes de prosseguir, teríamos que tentar esclarecer o que en-
tendemos por "ordem", uma noção filosoficamente crucial, mas 
nada óbvia. Neste exato momento, sobre a mesa em que estou es-
crevendo, amontoam-se papéis, apontamentos, fichas , clipes, cha-
ves e mais uma infinidade de outras coisinhas que formam um 
amontoado aparentemente tão casual como o mencionado por He-
ráclito. Mas, se alguma mão bem intencionada, com intenção de me 
ajudar, guardar as chaves na gaveta e mudar os clipes de lugar, sem 
dúvida sairei gritando aos quatro ventos: "Quem mexeu na minha 
mesa? Agora
Gabriela
Gabriela fez um comentário
Muito bom
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