Fernando Savater - As Perguntas da Vida
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Fernando Savater - As Perguntas da Vida


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oposto por definição ao que habitualmente entende-
mos por "causa"? 
O argumento intuitivo mais comum em favor de um Deus cria-
dor é a ordem do cosmo, a qual supomos que só pode provir de uma 
Inteligência ordenadora. Dissemos anteriormente que essa "ordem" 
bem pode provir da inteligência do observador e não de um criador. 
Desde o século XVIII já se repetiu muitas vezes a metáfora do re-
lógio: se ao sair de casa encontramos um relógio, supomos que não 
tenha sido feito pelo acaso mas que deve ter sido fabricado por um 
relojoeiro; do mesmo modo, ao comprovar as assombrosas engre-
nagens da maquinaria universal, devemos supor que tenha sido fa-
bricado por um fazedor de mundos, de inteligência semelhante à 
humana, embora infinitamente superior. Mas o certo é que temos 
experiência de que os relógios são feitos por uma inteligência se-
melhante à nossa, ao passo que não temos experiência nenhuma de 
alguém que faça árvores, mares e muito menos mundos. Por isso é 
irrefutável o protesto de David Rume em seus magníficos Diálogos 
sobre a religião natural: "Alguém vai me dizer seriamente que um 
universo ordenado tem que provir de algum pensamento e alguma 
arte semelhantes aos do homem porque temos experiência dele? 
Para confirmar esse raciocínio seria preciso que tivéssemos expe-
riência da origem dos mundos, e sem dúvida não é suficiente que 
tenhamos visto que os barcos e as cidades procedem da arte e da in-
venção humanas."2 E outro pensador do século das luzes, Lichten-
berg, também se indigna veementemente contra essa suposição: 
"Nas interpretações comuns sobre o Criador do mundo com fre-
qüência se intromete a insensatez santarrona e afilosófica. A excla-
mação 'como será quem criou tudo isto!' não é muito superior a 
'como será a mina onde se encontrou a lua!', pois para começar se-
ria preciso perguntar-se se o mundo alguma vez foi feito e depois 
se o ser que o fez teria condições de construir um relógio de repe-
tição de lata ... creio que não, isso só pode ser feito por um homem. 
[ .. . ].Se nosso mundo alguma vez foi criado, quem o fez foi um ser 
2. Diálogos sobre a religião natural, de David Hume. [Traduzido a partir do 
texto citado pelo autor: Diálogos sobre la re/igión natural, trad. esp. de A. J. Capel-
letti e Horacio López, Sígueme, Salamanca.] 
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tão semelhante ao homem quanto a baleia às calhandras. Por con-
seguinte, não deixa de me assombrar que homens famosos d~g~m 
que uma asa de mosca encerra mais sabedoria do que ~ rdogi~. 
A frase não diz mais do que isto: a maneira de fazer relog10s nao 
serve para fazer uma asa de mosquito; mas,ª ~orma de fa~e~ ª~,:s de 
mosquito também não serve para fazer relog10s de r~pet~çao . 
Dizer "Deus criou o mundo do nada" é tão explicativo quanto 
afirmar "não sabemos quem fez o mundo, nem sabemos como pôde 
fazê-lo". Mas, quando se referem ao tema da origem, os cienti~t~s 
costumam incorrer em paradoxos não muito diferentes dos teologi-
cos . Segundo a teoria do big bang, por exemplo, o ~ivers? se e~­
pande a partir de uma explosão inicial, uma singulandade mepetl-
vel que não se deu em um ponto do espaço e um momento do tem-
po e, sim, a partir da qual começou a se abrir o espaço e.a correr o 
tempo. Bem, pois também não é muito claro. Para que haJa uma ex-
plosão inicial, por mais metafórica que seja, algo deve explodir,n~la; 
talvez a explosão desse "algo" seja a origem das nebulosas, galaxi~s, 
buracos negros e demais objetos que bem ou mal conhecemos (m-
cluindo no lote nós mesmos), mas então de onde saiu esse "algo"?; 
) " 1 " se sempre esteve aí (ou seja, em lugar nenhum , por que esse ª. go 
explodiu quando explodiu, e não antes ou depois? ~te., etc. Vistos 
os resultados dessas indagações, não será melhor deixarmos de nos 
fazer essas perguntas ou voltarmos aos mitos para lhes responder 
poeticamente? No entanto, por acaso podemos de~xar de fazê-las? 
Em seu romance El resto es silencio, o escntor guatemalteco 
Augusto Monterroso cria o perfil humorístico de um pensador dad.o 
às mais graves meditações. Uma delas diz o seguinte: "Poucas cõi-
sas como 0 universo!" De fato, o que parece evidente é que, se há 
algo como uma Coisa-Universo, ela é extremamente singular en~e 
0 resto das coisas. No entanto sem dúvida é justamente aí, no um-
verso, que nós humanos somos e atuamos. Talvez devamos descer 
do cósmico e voltar a nos ocupar de nossos pequenos afazeres en-
tre o zero e o infinito ... 
3. Aforismos, de G. Ch. Lichtenberg, trad. esp. de J. Villoro, Fondo de Cultura 
Económica, México. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.] 
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Dá o que pensar ... 
Por que nós, humanos, necessitamos um "mundo" no qual vi-
ver e não só a realidade? Quais são os diferentes tipos de "mun-
do" em que habitamos? Como se ascende de um ao outro? Quais 
foram as primeiras respostas dadas à questão sobre o "universo" e 
o que existe nele? Os mitos são meras superstições ignorantes? Em 
que os mitos se parecem com os princípios propostos pelos primei-
ros filósofos? Que características vantajosas a narração filosófica 
apresenta com relação à narração mítica? Quais são as três gran-
des perguntas básicas sobre o universo que se fazem os filósofos? 
Quais são as duas acepções principais do conceito de "universo"? 
Que dificuldades teóricas cada uma delas apresenta? Que parado-
xos encerra fazer sobre o imenso as perguntas que fazemos sobre 
aquilo que podemos alcançar? Em que consiste o "materialismo" 
entendido filosoficamente? O universo é antes de tudo "cosmo" ou 
"caos"? Existe uma "ordem" no universo? Podemos desligar o con-
ceito de "ordem" de nossas necessidades e interesses? O que chama-
mos de "ordem " do universo pode ser determinado por nossa forma 
de conhecer ou também por nossa forma de existir? O que é o ''prin-
cípio antrópico" e quais são suas duas formulações? A causali-
dade que nos diz de onde provém cada objeto a nosso alcance po-
de se aplicar ao universo inteiro? É inexplicável que haja "algo" e 
não "nada"? Recorrer a Deus resolve nossas inquietudes teóricas 
sobre a origem da realidade universal? O universo é semelhante a 
um relógio, que necessita de seu relojoeiro? O big bang ou as ou-
tras respostas dos astrofisicos resolvem o problema da origem do 
universo? Se o universo é uma grande Coisa, por que não pode ser 
como o resto das coisas que conhecemos? 
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Capítulo seis 
A liberdade em ação 
O homem habita no mundo. "Habitar" não é o mesmo que es-
tar incluído no repertório de seres que há no mundo, não é simples-
mente estar "dentro" do mundo como um par de sapatos está den-
tro de sua caixa nem ter um mundo biológico próprio como o mor-
cego ou qualquer outro animal. Para nós, humanos, o mundo não é 
simplesmente a trama total dos efeitos e causas, mas a palestra 
cheia de significado na qual atuamos. "Habitar" o mundo é "atuar" 
no mundo; e atuar no mundo não é apenas estar no mundo, nem se 
mover pelo mundo, nem reagir aos estímulos do mundo. O morce-
go ou qualquer outro animal responde a seu mundo de acordo com 
um programa genético próprio das necessidades evolucionais de 
sua espécie. Nós, os humanos, não só respondemos ao mundo que 
habitamos como também o vamos inventando e transformando de 
uma maneira não prevista por nenhuma pauta genética (por isso as 
ações dos aborígenes australianos não são iguais às dos astecas ou 
às dos vikings). Nossa espécie não está "fechada" pelo determinis-
mo biológico, mas permanece "aberta" e incessantemente criando 
a si mesma, conforme anunciou Pico della Mirandola. Quando falo 
em "criar", não estou me referindo a "tirar algo do nada", como um 
prestidigitador tira um coelho do chapéu aparentemente vazio (digo 
"aparentemente" porque se trata de um truque, um engano: ilusio-
nismo), mas refiro-me a "atuar" no mundo e a partir das coisas do 
mundo ... porém em certa medida mudando o mundo! 
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Gabriela
Gabriela fez um comentário
Muito bom
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