Fernando Savater - As Perguntas da Vida
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Fernando Savater - As Perguntas da Vida


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vendo concursos na televisão. 
O bom Stuart Mil! protestava, amargurado: "Se o artificial não 
é melhor do que o natural, que finalidade há em todas as artes da 
vida? Cavar, arar, construir, vestir-se são violações diretas do man-
damento de seguir a Natureza." Alguns lhe responderão que melhor 
seria e melhores seríamos se seguíssemos tais mandamentos natu-
rais. Mas o problema fundamental continua sendo o mesmo: por aca-
so sabemos o que a Natureza manda? Podemos dizer que nos "man-
da" morrer quando pegamos algum micróbio e que ela nos "proí-
be" de usar óculos ou voar? Por acaso sabemos o que a Natureza quer 
- se é que existe uma senhora tão importante - de nós ou em nós? 
Dos acontecimentos naturais podem-se tirar lições morais mui-
to diferentes. Por exemplo, os filósofos estóicos, no início da era cris-
tã, recomendavam viver de acordo com a Natureza e entendiam que 
esse acordo consistisse em refrear as paixões instintivas, ser verda-
deiros e abnegados, cumprir honrosamente os deveres de nossa si-
tuação social, etc. Mas Nietzsche zomba assim de suas pretensões: 
"Vocês querem viver ' de acordo com a Natureza'? Ó nobres estói-
cos, que engano o seu! Imaginem uma organização como a Nature-
za, pródiga sem medida, indiferente sem medida, sem intenções e 
sem considerações, sem piedade e sem justiça, ao mesmo tempo fe-
cunda, árida e incerta; imaginem a própria indiferença erigida em 
poder: como seria possível viver de acordo com essa indiferença? 
Viver não é justamente a aspiração a ser diferente da Natureza? Pois 
bem, admitindo que seu imperativo 'viver conforme a Natureza' sig-
nificasse no fundo o mesmo que 'viver conforme a vida', não po-
deriam vocês viver assim? Por que fazer um princípio do que vocês 
mesmos são, do que não podem deixar de ser? De fato, é o contrá-
rio: pretendendo ler com avidez o cânone de sua lei na natureza, vo-
cês aspiram a outra coisa, assombrosos atores que enganam a si 
mesmos. Seu orgulho quer impor-se à Natureza, fazer penetrar nela 
a moral e o ideal de vocês."2 
2. Para além do bem e do mal, F. Nietzsche. [Traduzido a partir do texto citado 
pelo autor: Más aliá dei bien y del mal, § 9, trad. esp. de E. Ovejero y Maury, Agui-
lar, Madri .] 
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Os que recomendam comportar-se "de acordo com a Nature-
za" selecionam alguns aspectos naturais e descartam outros. Os es-
tóicos queriam ser "naturais" controlando suas paixões e respeitan-
do o próximo, ao passo que, por exemplo, o marquês de Sade esta-
va convencido de que não há nada mais "natural" do que fazer tudo 
aquilo que nos apetece, doa a quem doer e por mais dano que se 
cause aos outros. Ou será que vemos a Natureza preocupada com o 
sofrimento de tantos milhões de seres vivos que padecetn para que 
os outros satisfaçam seus apetites à sua custa? Em sua disputa com 
Sócrates (no Górgias de Platão), Calicles também sustenta que a 
primeira "lei" da Natureza diz que os mais fortes e inteligentes têm 
direito a dominar o resto dos homens e a possuir as maiores rique-
zas, e por isso considera "antinaturais" e portanto "injustas" as leis 
democráticas que estabelecem a igualdade de direitos na pólis, as 
quais protegem os fracos e difundem uma moral semelhante à de 
Sócrates, segundo a qual é preferível padecer um apuro a causá-lo. 
Hoje não faltam cientistas sociais ou políticos que dêem razão mais 
ou menos explicitamente a Calicles em nome da teoria da evolução 
de Charles Darwin: se a Natureza vai selecionando os indivíduos 
mais aptos de cada espécie (as espécies mais aptas entre as que 
competem em um mesmo território) por meio da "luta pela vida", 
que elimina os mais frágeis ou os que pior se adaptam às circuns-
tâncias ambientais, não deveria a sociedade humana fazer o mesmo 
e deixar que cada um demonstrasse o que vale, sem levantar os caí-
dos nem subvencionar os torpes? Assim a sociedade funcionaria de 
modo muito mais "natural" e se favoreceria a multiplicação da raça 
impiedosa mas eficaz dos triunfadores ... 
No entanto, esses Calicles modernos não leram Charles Dar-
win com muita atenção. As doutrinas que eles professam devem-se 
mais a alguns "hereges" do darwinismo, como Francis Galton (um 
primo de Darwin que inventou a eugenia, segundo a qual a repro-
dução da espécie humana deve ser orientada como a dos animais 
domésticos, a fim de produzir os melhores exemplares, teoria que 
os nazistas puseram em prática de maneira atroz) e Herbert Spen-
cer, filósofo social partidário de um ultra-individualismo radical. 
Em contrapartida Darwin, em A ascendência do homem (seu se-
gundo grande livro, depois de A origem das espécies), sustenta algo 
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muito diferente e bem mais sutil. Segundo ele, foi a própria seleção 
natural que favoreceu o desenvolvimento dos instintos sociais - em 
especial a "simpatia" ou "compaixão" entre os semelhantes - nos 
quais se baseia a civilização humana, ou seja, o êxito vital de nos-
sa espécie. Para Darwin, é a própria seleção natural que desembo-
ca na seleção de uma forma de convivência que aparentemente con-
tradiz a função da "luta pela vida" em outras espécies, mas que 
apresenta vantagens de ordem já não meramente biológica, mas so-
cial. Ao contrário do que supõem Calicles e seus discípulos, o que 
nos faz "naturalmente" mais fortes como conjunto humano é a ten-
dência instintiva a proteger os indivíduos fracos ou circunstancial-
mente desfavorecidos em face dos biologicamente mais potentes. A 
sociedade e suas leis "artificiais" são o verdadeiro resultado "natu-
ral" da evolução de nossa espécie! De modo que o "antinatural" 
para nós será recair da "luta pela vida" nua e crua, na qual prevale-
ce a simples força biológica ou seus equivalentes modernos: por 
exemplo, a habilidade de alguns para acumular em suas mãos os re-
cursos econômicos e políticos que deveriam estar distribuídos de 
modo socialmente mais equilibrado. Dessa questão teremos que fa-
lar no próximo capítulo. 
Afinal de contas, será preciso dar razão ao velho Galileu quan-
do, no início do século XVII, ele confessa numa carta a Grienber-
ger que "a natureza não tem nenhuma obrigação para com os ho-
mens nem firmou nenhum contrato com eles". Porém o contrário 
também é verdade? Podemos dizer que nós, os homens, não temos 
nenhuma obrigação para com a natureza, uma vez que os únicos 
contratos que nos obrigam sempre são firmados com humanos 
como nós? Muitas pessoas acham que temos um certo tipo de 'de-
veres para com os seres naturais, como por exemplo não poluir os 
mares, não atentar contra a biodiversidade do mundo exterminando 
espécies vegetais ou animais, não destruir as paisagens bonitas, não 
fazer sofrer outros seres vivos capazes de sentir dor, etc. Para aten-
der a uma distinção que já utilizamos anteriormente, sem dúvida é 
"racional" pôr os elementos naturais a nosso serviço para melhorar 
nossa vida, prolongá-la e torná-la mais interessante, mas também 
parece "razoável" respeitar e conservar determinados aspectos da 
natureza com os quais nos achamos especialmente vinculados ou 
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que não poderemos substituir se forem destruídos. Afinal nossa 
própria vida como seres humanos - não só em seus aspect;s estri-
tamente bio~ógicos como também em sua vertente simbólica que 
nos caractenza como espécie - se nutre permanentemente de acon-
tecimentos "naturais", em qualquer sentido que demos à palavra. 
Se não me engano, quando falamos de certas obrigações hu-
manas para com a natureza, queremos dizer que, embora nela não 
haja valores propriamente ditos, pode ser justificado nós conside-
rarmos valiosas algumas de suas realidades. Novamente mesclam-
se assim o "cultural" e o "natural", porque atribuir valor é a tarefa 
cultural por excelência, a dimensão menos "natural" .. . de nossa 
própria "natureza"! O funcionamento geral da natureza, tal como 
podemos observá-lo, é regido pela mais estrita neutralidade ou in-
Gabriela
Gabriela fez um comentário
Muito bom
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