Fernando Savater - As Perguntas da Vida
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Fernando Savater - As Perguntas da Vida


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diferença: a natureza não tem preferências entre os seres, destrói e 
engendra com perfeita imparcialidade, não parece mostrar nenhum 
"respeito" especial por suas próprias obras. Como o mar vê se su-
cederem suas ondas que se desmancham umas às outras sem pre-
tender conservar nenhuma delas em especial, assim age a Natureza 
com relação às criaturas. Entre as falias* de Valência sempre há 
~ma que se salva da queima, por aclamação do povo, que a prefere 
as outras, mas a Natureza nunca indulta nenhum de seus ninots** ... 
N_ão podemos afirmar que a "natureza" sente mais simpatia pe-
los peixes do mar do que pelas substâncias químicas que os dizi-
mam, nem mais pela floresta do que pelo fogo que a destrói, nem 
q~e ela mostra mais interesse por qualquer um de nós do que pelo 
vrrus da AIDS que nos mata. Milhares de espécies vivas, a começar 
pelos veneráveis dinossauros, foram destruídas "naturalmente" an-
tes que o homem surgisse sobre a terra; os astros explodem nos céus 
longínquos em conflagrações monumentais que deixam no chinelo 
a maior de nossas bombas nucleares com a mesma "naturalidade" 
com que aparecem novos sóis, etc. Mas "valorar" é justamente fa-
zer diferenças entre umas coisas e outras, preferir isto a aquilo, es-
. *Alusão à_ festa popular valenciana, na véspera de São José, em que as/atlas, 
figuras de madeira e papelão em geral alusivas a acontecimentos da atualidade são 
queimadas em praça pública. (N. da T.) ' 
**Bonecos que são levados às ruas por ocasião das/atlas de Valência. (N. da T.) 
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colher o que deve ser conservado porque tem mais interesse do que 
o mais. A tarefa de valorar é o empenho humano por excelência e a 
base de qualquer cultura humana. Na natureza reina a indiferença, 
na cultura a diferenciação e os valores. Então devemos nos pergun-
tar que critérios de valoração podemos ter para fundamentar nossas 
supostas "obrigações" para com os elementos naturais. Deixando 
claro de antemão que, sejam quais forem esses critérios, sempre se-
rão "culturais" e nunca propriamente "naturais" ... 
Na minha opinião, poderiam ser de três classes: uns descobri-
riam o valor intrínseco de certas coisas naturais (ou de todas!), ou-
tros atenderiam à utilidade dos elementos naturais para nós e, final-
mente, os estéticos, que se baseariam na beleza do natural. Vejamos 
brevemente cada um desses modelos de valoração: 
- O valor intrínseco da natureza me parece o mais difícil de ar-
razoar, a não ser que se adote uma perspectiva religiosa segundo a 
qual tudo o que existe é sagrado porque foi criado por um Deus sá-
bio e bom, etc. Ainda assim, não é fácil sustentar esse ponto de vis-
ta, pois algumas das religiões que conhecemos melhor (por exem-
plo, a judaica e a cristã) sustentam que as coisas naturais foram pos-
tas por Deus a serviço do homem e não descartam o sacrifício do 
gado para homar a divindade ou cortar milhares de flores para ofe-
rendá-las à Virgem de Pilar. Evidentemente, todas as igrejas conhe-
cidas bendizem explodir as rochas de uma montanha para construir 
ali um belo templo ou um mosteiro. Na verdade, o "sagrado" con-
siste em apontar certos lugares ou certas coisas mais valiosas e res-
peitáveis do que outras semelhantes (uma árvore que não é como as 
outras árvores, uma fonte que não é como as outras fontes, etc., por 
causa de alguma presença divina ou santa), o que vai diretamente 
de encontro à suposição do valor intrínseco das realidades naturais . 
Em resumo: se todo o natural é "puramente" natural, nada tem pro-
priamente mais valor do que qualquer outra coisa, ou seja, nada tem 
valor próprio; se há algo de "sobrenatural" no natural, seu valor 
deve provir desse acréscimo divino, e não dele mesmo. 
Só poderia haver uma relativa exceção: a obrigação de respei-
tar a vida, porque se trata de uma condição que nós também com-
partilhamos. Poderíamos dizer que temos a obrigação de respeitar 
todos os seres vivos, pois são nossos "irmãos" vitais . Mas, como a 
caridade bem entendida começa por si mesmo, respeitar "nossa" vi-
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da nos obriga a inevitavelmente sacrificar outras: os animais e ve-
getai~ que com_emos (ninguém pode alimentar-se só de minerais), 
os m1croorgamsmos que eliminamos para nos curar de nossas 
doenças, as pragas que exterminamos para conservar nossas plan-
tações, etc. Até os jainistas (que colocam um véu diante da boca 
para não respirar insetos sem se dar conta) "matam" umas alfaces 
de vez em quando para se alimentar. Em contrapartida, talvez pos-
samos dizer que há algo intrinsecamente valioso em evitar sofri-
mentos desnecessários aos animais dotados de um sistema nervo-
so capaz de sentir dor. O difícil é então esclarecer o que é "desne-
cessário", pois o parâmetro só pode ser estabelecido por nossas ne-
cessidades humanas: parece evidente que é "desnecessário" torturar 
um animal pelo mero prazer de vê-lo sofrer, mas é necessário ou 
desnecessário alimentar monstruosamente os gansos para obter foi e 
gras, caçar baleias, tourear, matar o porco, etc.? Isso nos leva ao 
ponto seguinte. 
- O valor utilitário de certas coisas naturais é o mais fácil de 
arg~e~tar. A obrigação de não poluir o ar, as florestas, ou as águas 
denva d!retamente do fato de que nos são úteis. Faremos mal se de-
teriorarmos nosso meio pela mesma razão pela qual faremos mal se 
pusermos fogo na nossa casa .. . ou na do vizinho! Se destruímos ho-
je por torpeza ou cobiça aquilo de que necessitaremos amanhã es-
~an:os agindo de ~aneira suicida; se pelas mesmas más razões ~re­
JUd1camos o ambiente de outros seres humanos ou mesmo aquilo de 
que podemos supor que nossos filhos irão necessitar, estamos agin-
do de maneira criminosa. Segundo esse critério, é valioso na natu-
reza tudo o que nos é imprescindível ou benéfico e que não sería-
mos capaz de substituir se desaparecesse. Por isso é imprescindível 
tentar encontrar caminhos que tornem os benefícios do desenvolvi-
mento industrial compatíveis com a economia de energias não re-
nováveis e de outros recursos naturais, tal como propõe de manei-
ra engenhosa e sugestiva um filósofo suíço com muito senso práti-
co - Suren Erkman - em um livro recente, cujo título já encerra 
todo o seu programa: Por uma ecologia industrial: como colocar 
em prática o desenvolvimento duradouro numa sociedade hiperin-
dustrial. Os enfoques atuais do que vem a se chamar "sustentabili-
dade", embora variados, estariam nesse contexto. 
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O critério estético é ao mesmo tempo convincente e também 
muito complexo. A contemplação de certas formas da natureza nos 
é prazerosa: nós as consideramos "bonitas" (no capítulo nove des-
ta obra tentaremos abordar as perguntas suscitadas pela questão ge- · 
ral da beleza). Os animais, as flores e florestas, os mares, o céu es-
trelado, etc., alimentam nossa imaginação e suscitam em nós senti-
mentos de serenidade e satisfação. Mas esses sentimentos nem 
sempre são compartilhados universalmente: os pescadores têm uma 
visão "estética" do mar muito diferente de nós, que não temos que 
enfrentar seus temporais, e os pastores apreciam os lobos menos do 
que alguns ecologistas da cidade. Às vezes talvez seja conveniente 
lembrar o ditado cheio de bom senso embora um pouco cínico de 
Jules Renard em uma anotação de seu Diário (21 de fevereiro de 
1901): "Sim, a natureza é bela. Mas não te enterneças demais com 
as vacas. Elas são como todo o mundo." Porque, além do mais ova-
lor estético da natureza que nos obrigará a respeitar as paisagens às 
vezes colide com outros valores, quer utilitários, quer também es-
téticos: por exemplo, a polêmica despertada pelo projeto do escul-
tor Eduardo Chillida de vazar a montanha canária de Tindaya para 
transformá-la em uma grande obra de arte. Devemos preferir a es-
tética "espontânea" da natureza ou a estética do artista, dotada de 
um significado humano? 
Possivelmente é razoável resumir o sentido
Gabriela
Gabriela fez um comentário
Muito bom
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