Fernando Savater - As Perguntas da Vida
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Fernando Savater - As Perguntas da Vida


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1. Cuarteta, de J. L. Borges, em "Obra poética completa", Alianza Editorial, 
Madri. [Tradução livre: "Morreram outros, mas isso aconteceu no passado,/ que é a 
estação (ninguém o ignora) mais propícia à morte. / É possível que eu, súdito de Ya-
qub Almansur, / morra como tiveram que morrer as rosas e Aristóteles?"] 
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val súdito de Yaqub Almansur ou Alamnzor, Aristóteles ... ) já esta-
rem necessariamente mortos. Eles também tiveram que considerar 
para si, em sua época, o mesmo destino irremediável que hoje con-
sidero para mim: e nem por o terem considerado escaparam a ele ... 
De modo que a morte não só é necessária como é o protótipo 
mesmo do necessário em nossa vida (se o silogismo começasse es-
tabelecendo que "todos os homens comem, Sócrates é homem, 
etc.", seria igualmente justo de um ponto de vista fisiológico, mas 
não teria a mesmaforça de persuasão). Pois bem, além de sabê-la 
necessária a ponto de exemplificar a própria necessidade ("neces-
sário" é etimologicamente aquilo que não cessa, que não cede, com 
que não cabe nenhuma transação nem pacto), que outras coisas co-
nhecemos sobre a morte? Certamente bem poucas. Uma delas é que 
a morte é absolutamente pessoal e intransferível: ninguém pode mor-
rer por outro. Isto é, é impossível que alguém, com sua própria 
morte, possa evitar a outro definitivamente o transe de também mor-
rer, mais cedo ou mais tarde. O padre Maximilian Kolbe, que se 
ofereceu como voluntário num campo de concentração nazista para 
substituir um judeu que estavam levando para a câmara de gás, só 
o substituiu diante dos carrascos, mas não diante da própria mor-
te. Com seu heróico sacrifício concedeu-lhe um prazo mais longo 
de vida e não a imortalidade. Numa tragédia de Eurípides, a sub-
missa Alceste se oferece para descer a Hades - ou seja, para mor-
rer - em lugar de seu marido Admeto, um egoísta perigoso. No fi-
nal, Hércules tem que descer para resgatá-la do reino dos mortos e 
atenuar o desaforo. Mas nem sequer a abnegação de Alceste teria 
conseguido que Admeto escapasse para sempre de seu destino mor-
tal, só teria podido retardá-lo: a dívida que todos nós temos com a 
morte deve ser paga por cada um com a própria vida, não com ou-
tra. Nem sequer outras funções biológicas essenciais, como comer 
ou fazer amor, parecem tão intransferíveis: afinal, alguém pode 
consumir minha ração no banquete ao qual eu deveria ter compare-
cido ou fazer amor com a pessoa que eu teria podido ou desejado 
amar também, inclusive poderiam me alimentar à força ou me fa-
zer renunciar ao sexo para sempre. Contudo a morte, minha morte 
ou a de outro, sempre tem nome e sobrenomes insubstituíveis. Por 
isso a morte é o que há de mais individualizador e ao mesmo tem-
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po de mais igualitário: nesse transe, ninguém é mais nem menos do 
que ninguém, sobretudo ninguém pode ser outro que não o que é. 
Ao morrer, cada um é definitivamente ele mesmo e ninguém mais. 
Do mesmo modo que ao nascer trazemos ao mundo o que nunca 
antes havia sido, ao morrer levamos o que nunca voltará a ser. 
Sabemos mais uma coisa da morte: que além de ser certa ela é 
perpetuamente iminente. Morrer não é coisa de velhos nem de 
doentes: desde o primeiro momento em que começamos a viver já 
estamos prontos para morrer. Como diz a sabedoria popular, nin-
guém é tão jovem que não possa morrer nem tão velho que não pos-
sa viver mais um dia. Por mais sadios que estejamos, a espreita da 
morte não nos abandona e não é raro alguém morrer - por aciden-
te ou crime - em perfeito estado de saúde. E já disse muito bem 
Montaigne: não morremos porque estamos doentes, mas porque es-
tamos vivos. Pensando bem, sempre estamos à mesma distância da 
morte. A diferença importante não é entre estar sadio ou doente, em 
segurança ou em perigo, mas entre estar vivo ou morto, ou seja, en-
tre estar e não estar. E não há meio-termo: ninguém pode sentir-se 
de fato "meio morto", isso é apenas uma simples forma figurada de 
falar, pois enquanto há vida tudo pode se arranjar, mas a morte é 
necessariamente irrevogável. Enfim, o que caracteriza a morte é nun-
ca podermos dizer que estamos resguardados dela ou que nos afas-
tamos, ainda que momentaneamente, de seu império: mesmo que às 
vezes não seja provável, a morte sempre é possível. 
Fatalmente necessária, perpetuamente iminente, intimamente 
intransferível, solitária ... o que sabemos sobre a morte é muito se-
guro (referem-se a ela alguns dos conhecimentos mais indubitáveis 
que temos) mas não a torna mais familiar nem menos inescrutável 
para nós. No fundo, a morte continua sendo o que há de mais des-
conhecido. Sabemos quando alguém está morto mas ignoramos o 
que é morrer visto de dentro. Creio saber mais ou menos o que é 
morrer, mas não o que é eu morrer. Algumas grandes obras literá-
rias - como o incomparável relato de Leon Tolstói A morte de Ivan 
Ilitch, ou a tragicomédia de Eugene Ionesco O rei está morrendo -
podem nos aproximar de uma melhor compreensão do assunto, em-
bora deixando sempre abertas as interrogações fundamentais. 
Quanto ao mais, através dos séculos houve muitas lendas sobre a 
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morte, muitas promessas e ameaças, muitas fofocas, relatos muito 
antigos - tão antigos, ao que tudo indica, quanto a espécie humana, 
ou seja, quanto esses animais que se tornaram humanos ao come-
çar a se perguntar sobre a morte - e que constituem a base univer-
sal das religiões. Pensando bem, todos os deuses do santoral antro-
pológico são deuses da morte, deuses que se ocupam do significado 
da morte, deuses que distribuem prêmios, castigos ou reencarnação, 
deuses que guardam a chave da vida eterna em face dos mortais. 
Antes de tudo, os deuses são imortais: nunca morrem e, quando in-
ventam de morrer, depois ressuscitam ou se transformam em outra 
coisa, passam por uma metamorfose. Em todos os lugares e em to-
dos os tempos a religião serviu para dar sentido à morte. Se a mor-
te não existisse, não haveria deuses, ou melhor, os deuses seríamos 
nós, os humanos mortais, e viveríamos no ateísmo divinamente ... 
As lendas mais antigas não pretendem nos consolar da morte 
mas apenas explicar sua inevitabilidade. A primeira grande epopéia 
que se conserva, a história do herói Gilgamesh, foi composta na Su-
méria, aproximadamente 2.700 anos antes de Jesus Cristo. Gilga-
mesh e seu amigo Enkidu, dois valentes guerreiros e caçadores, en-
frentam a deusa Ushtar, que mata Enkidu. Então Gilgamesh sai em 
busca do remédio para a morte, uma erva mágica que renova a ju-
ventude para sempre, mas perde-a quando está prestes a consegui-
la. Depois aparece o espírito de Enkidu, que explica ao amigo os se-
gredos sombrios do reino dos mortos, ao qual Gilgamesh se resigna 
a acorrer quando chega sua hora. Esse reino dos mortos não é mais 
do que um sinistro reflexo da vida que conhecemos, um lugar pro-
fundamente triste. É a mesma coisa que o Hades dos antigos gregos. 
Na Odisséia de Homero, Ulisses convoca os espíritos dos mortos e, 
entre eles, apresenta-se seu antigo companheiro Aquiles. Embora 
sua sombra continue sendo tão majestosa entre os defuntos quanto 
foi entre os vivos, ele confessa a Ulisses que preferiria ser o último 
porqueiro no mundo dos vivos a ser rei nas paragens da morte. Os 
vivos não devem invejar os mortos em nada. Por outro lado, outras 
religiões posteriores, como a cristã, prometem uma existência ~ais 
feliz e luminosa do que a vida terrena para quem tenha cumpndo 
os preceitos da divindade (em contrapartida, garantem urna eterni-
dade de torturas refinadas aos que foram desobedientes). Digo 
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"existência" porque à tal promessa não cabe o nome de "vida" ver-
dadeira. A vida, no único sentido da palavra que conhecemos, é 
constituída de mudanças, oscilações entre o melhor e o pior, de im-
previstos. Uma eterna bem-aventurança ou uma eterna condenação 
são formas intermináveis de congelamento
Gabriela
Gabriela fez um comentário
Muito bom
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