Fernando Savater - As Perguntas da Vida
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Fernando Savater - As Perguntas da Vida


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subs-
tituí-los por outros mais fiáveis? 
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Há coisas que sei porque os outros me disseram. Meus pais me 
ensinaram, por exemplo, que é bom lavar as mãos antes de comer e 
que minha cama tem quatro cantinhos e quatro anjinhos que aguar-
dam. Aprendi que as bolas de gude de vidro valem mais do que as 
de barro porque os meninos da minha classe me disseram no re-
creio. Um amigo muito sedutor me revelou na adolescência que, 
quando você se aproxima de duas garotas, deve falar primeiro com 
a mais feia, para que a bonita vá reparando em você. Mais tarde ou-
tro amigo, que viajava muito, informou-me que o melhor restauran-
te de Nova York se chama Four Seasons. E hoje li no jornal que o 
presidente russo Iéltsin é muito afeiçoado à vodca. A maioria de 
meus conhecimentos provém de fontes como essas. 
Há outras coisas que sei porque as estudei. Das vagas lembran-
ças da geografia da minha infância tenho a informação de que a ca-
pital de Honduras se chama, espantosamente, Tegucigalpa. Meus 
sumários estudos de geometria me convenceram de que a linha reta 
é a distância mais curta entre dois pontos, enquanto as linhas para-
lelas só se encontram no infinito. Também creio me lembrar de que 
a composição química da água é H20 . Como aprendi francês quan-
do pequeno, posso dizer ''j 'ai perdu ma plume dans le jardin de ma 
tante" para informar a um parisiense que perdi minha caneta no jar-
dim da minha tia (coisa que, na verdade, nunca me aconteceu). 
Pena que nunca fui muito estudioso, pois poderia ter obtido muito 
mais conhecimentos pelo mesmo método. 
Mas também sei muitas coisas por experiência própria. Assim, 
comprovei que o fogo queima e que a água molha, por exemplo. Tam-_ 
bém posso distinguir as diferentes cores do arco-íris, de modo que, 
quando alguém diz "azul", imagino determinado tom que vi com 
freqüência no céu ou no mar. Visitei a praça de San Marco, em Ve-
neza, e portanto creio firmemente que ela é maior do que a queri-
da praça De la Constitución de minha San Sebastián natal. Sei o 
que é dor porque tive várias cólicas de rim, o que é sofrimento por-
que vi meu pai morrer, e o que é prazer porque certa vez recebi um 
beijo estupendo de uma moça numa certa estação. Conheço o calor, 
o frio, a fome, a sede e muitas emoções, para algumas das quais 
nem sequer tenho nome. Também conservo experiência das mudan-
ças que produziu em mim a passagem da infância à idade adulta e 
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de outras mais alarmantes que vou padecendo ao envelhecer. Por 
experiência sei também que quando estou dormindo tenho sonhos, 
sonhos que se parecem assombrosamente com as visões e sensa-
ções que me assaltam diariamente durante a vigília .. . de modo que 
a experiência me ensinou que posso sentir, padecer, gozar, sofrer, 
dormir e às vezes sonhar. 
Pois bem, até que ponto tenho certeza de cada uma dessas coi-
sas que sei? Evidentemente, não acredito em todas com o mesmo 
grau de certeza e nem todas me parecem conhecimentos totalmen-
te fiáveis. Pensando bem, qualquer uma delas pode suscitar dúvidas 
em mim. Acreditar em alguma coisa só porque me foi dita pelos ou-
tros não é muito prudente. Eles mesmos poderiam estar equivocados 
ou querer me enganar: talvez meus pais me amassem demais para 
sempre me dizer a verdade, talvez meu amigo viajante soubesse 
pouco de gastronomia ou o sedutor nunca tenha sido um verdadeiro 
perito em psicologia feminina ... Das notícias que leio nos jornais, 
nem é preciso falar: é só comparar o que se escreve em uns com o 
que contam os outros para colocar tudo um pouco em dúvida. Em-
bora ofereçam maiores garantias, as matérias de estudo também não 
são completamente confiáveis. Muitas coisas que estudei quando jo-
vem são, hoje, explicadas de outra maneira, as capitais dos países 
mudam de um dia para outro (será que a capital de Honduras con-
tinua sendo Tegucigalpa?) e as ciências atuais descartam inúmeras 
teorias dos séculos passados: quem pode me afirmar que o que hoje 
é dado como certo também não será descartado amanhã? Nem se-
quer o que eu mesmo posso experimentar é fonte segura de conhe-
cimento: quando introduzo um bastão na água, parece que o vejo 
quebrar-se sob a superficie, embora o tato desminta essa impressão; 
e eu quase poderia jurar que o sol se desloca ao longo do dia ou que 
ele não é muito maior do que uma bola de futebol (deitado no chão, 
consigo tapá-lo apenas levantando um pé!), ao passo que a astrono-
mia me dá informações muito diferentes a esse respeito. Além dis-
so, às vezes também sofri alucinações e vi miragens, sobretudo de-
pois de ter bebido demais ou quando estava muito cansado ... 
Tudo isso quer dizer que nunca devo confiar no que me dizem, 
no que estudo ou no que experimento? De modo nenhum. Mas pa-
rece imprescindível revisar, de vez em quando, algumas coisas que 
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acredito saber, compará-las com outros conhecimentos meus, sub-
metê-las a exame crítico, debatê-las com outras pessoas que pos-
sam me ajudar a entender melhor. Em suma, buscar argumentos pa-
ra assumi-las ou refutá-las. Esse exercício de buscar e ponderar ar-
gumentos antes de aceitar como correto o que creio saber é o que em 
termos gerais costuma-se chamar de utilizar a razão. Claro que ara-
zão não é algo simples, não é uma espécie de farol luminoso que te-
mos dentro de nós para iluminar a realidade, nem nada parecido. As-
semelha-se antes a um conjunto de hábitos de dedução, sondagens e 
cautelas, em parte ditados pela experiência e em parte baseados no 
modelo da lógica. A combinação de tudo isso constitui "uma facul-
dade capaz - pelo menos em parte - de estabelecer ou captar as re-
lações que fazem com que as coisas dependam umas das outras e se-
jam constituídas de uma determinada forma e não de outra" (plagio 
esta definição - modificando-a a meu gosto - de um filósofo do sé-
culo XVII, Leibniz). Ocasionalmente, posso lançar mão de algumas 
certezas racionais que me servirão como critério para fundamentar 
meus conhecimentos: por exemplo, a de que duas coisas iguais a 
uma terceira são iguais entre si ou a de que algo não pode ser ou não 
ser ao mesmo tempo quanto a um mesmo aspecto (uma coisa pode 
ser branca ou preta, branca e preta, cinza, mas não ao mesmo tem-
po totalmente branca e totalmente preta). Em muitos outros casos 
devo me conformar com estabelecer racionalmente o mais provável 
ou verossímil: dados os inúmeros testemunhos que coincidem em 
afirmá-lo, posso aceitar que na Austrália há cangurus. Não parece 
insensato assumir que o aparelho com que eu esquento as pizzas na 
minha cozinha é um forno microondas e não uma nave extraterres--
tre; posso, de algum modo, acreditar que o porteiro da minha casa 
(que se chama João como ontem, que tem a mesma aparência e a 
mesma voz que ontem, me cumprimenta como ontem, etc.) é efeti-
vamente a mesma pessoa que vi ontem na portaria. Mesmo não es-
perando que nenhum acontecimento altere minha crença racional 
nos princípios da lógica ou da matemática, devo admitir, por outro 
lado - também por cautela racional -, que em outros campos o que 
hoje é verossímil ou provável sempre pode estar sujeito a revisão ... 
De modo que a razão não é algo que os outros me contam, nem 
fruto de meus estudos ou de minha experiência, mas um procedi-
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mento intelectual crítico que utilizo para organizar as informações 
que_ recebo, os estudos que realizo ou as experiências que tenho, 
aceitando algumas coisas (pelo menos provisoriamente, à espera de 
n~vos argumentos) e descartando outras, tentando sempre vincular 
minhas crenças entre si com uma certa harmonia. E a primeira coi-
sa que a razão tenta harmonizar é meu ponto de vista meramente 
pes~o~l ou subjetivo com um ponto de vista mais objetivo ou inter-
subjetivo, o ponto de vista a partir do qual qualquer outro ser racio-
nal pode consi~erar_ a realidade. Se uma crença minha se apóia em 
argumentos ~ac10nais
Gabriela
Gabriela fez um comentário
Muito bom
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