CELSO RIBEIRO BASTOS - CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL
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CELSO RIBEIRO BASTOS - CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL


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como verda-
deiros comandos-regras em oposição aos comandos-valores, próprios das normas
programáticas.
 Quanto a estas últimas, há a frisar-se que conferem elasticidade ao
ordenamento constitucional e têm como destinatário o Legislador.
 São suas notas o não consentirem que os interessados as invoquem, as-
sim que entrada em vigor a Constituição, e aparecem muitas vezes acompa-
nhadas de conceitos indeterminados parcial ou totalmente.
 Convém aqui reproduzir a súmula feita por Jorge Miranda sobre a força
jurídica das normas programáticas:
 "I) Determinam a cessação da vigência por inconstitucionalidade super-
veniente das normas legais anteriores que despontam em sentido contrário.
 II) Conquanto o seu sentido essencial seja sempre prescritivo, e não 
proi-
bitivo, elas possuem, complementarmente, um duplo sentido proibitivo ou ne-
gativo - proibem a emissão de normas legais contrárias e proibem a prática
de comportamentos que tendam a impedir a produção de actos por elas im-
postos - donde inconstitucionalidade material em caso de violação.
 III) Elas fixam directivas ou critérios para o legislador ordinário nos
domínios sobre que versam - donde, inconstitucionalidade por omissão em
caso de inércia legislativa e ainda inconstitucionalidade material (que é 
inconstitu-
cionalidade por ação) por desvio de poder, em caso de afastamento desses
critérios.
 IV) Elas adquirem eficácia sistemática como elemento de integração
dos restantes preceitos constitucionais e, assim, através da analogia que sobre
elas se construa, adquirem uma eficácia criadora de novas normas".
 Embora não concordemos com a expressão "inconstitucionalidade super-
veniente", deixaremos para tratar do assunto mais adiante, no tema referente
à inconstitucionalidade.
CAPÍTULO III
INTERPRETAÇÃO.
INTEGRAÇÃO. APLICAÇÃO
SUMÁRIO: 1. Interpretação. 1.1. Interpretação conforme a Constituição. 
1.2. Sin-
gularidade das normas constitucionais do ângulo da sua interpretação. 2.
Integração. 2.1. Lacunas no direito constitucional. 3. Interpretação e 
integração:
realidades lógicas distintas. 4. Aplicação. 4.1. Aplicação das normas 
constitucio-
nais no tempo. 4.1.1. A nova Constituição e o direito constitucional anterior. 
4.1.2.
Direito constitucional novo e direito ordinário anterior. 4.2. Aplicação das 
nor-
mas constitucionais no espaço.
1. INTERPRETAÇÃO
 A interpretação, a integração e a aplicação constitucionais não se 
confun-
dem. Nada obstante isto, elas apresentam suficientes afinidades e conexões
entre si, a ponto de justificarem o seu tratamento em uma mesma unidade.
Assim fazendo, estaremos seguindo as preciosas lições de doutos mestres,
dentre eles Jorge Miranda.
 De outra parte, o estudo que levamos a efeito no capítulo anterior não
estaria completo sem as considerações que ora teceremos, todas elas indispensá-
veis para determinar o real alcance dos preceitos constitucionais. Comecemos
pela interpretação.
 Interpretar é extrair o significado de um texto. Embora possa afigurar-
se
como uma insuficiência da linguagem, visto que a primeira idéia que nos acode
ao espírito é a da lástima de o significado de textos tão importantes não ser de
uma evidência inquestionável, o fato é que a interpretação é sempre indispen-
sável, quer no Texto Constitucional, quer nas leis em geral.
 1. Anna Cândida da Cunha Ferraz, Processos informais de mudança da 
Constituição, p. 22:
"Uma Constituição se presume obra comum de todos os órgãos e forças vivas da 
nação, que nela
encerram princípios dominantes, disposições fundamentais, desprovidas ou quase 
desprovidas de con-
teúdo preciso, deliberadamente vagas, que deixam larga margem de interferência e 
complementação, na
organização fundamental do Estado, aos órgãos que devem observá-la, respeitá-la, 
cumpri-la e aplicá-la.
 Daí afirmar Lowenstein que "toda Constituição é, em si, uma obra humana 
incompleta, além de
ser obra de compromisso entre as forças sociais e grupos pluralistas que 
participam de sua formação".
 Como todas as normas jurídicas, a Constituição normada deve ser 
compreendida e, para ser
compreendida, deve ser interpretada.
 Caminho inevitável para a compreensão da norma jurídica é a 
interpretação, vale dizer, a
compreensão no seu sentido.
 A Constituição, pois, como Lei das Leis, não pode prescindir de 
interpretação".
 Carlos Maximiliano, apud José Baracho, Teoria da Constituição, p. 49: 
"Com as luzes da
hermenêutica, o jurista explica a matéria, afasta as contradições aparentes, 
dissipa as obscuridades e
faltas de precisão, põe em relevo todo o conteúdo do preceito legal, deduz das 
disposições isoladas o
princípio que lhes forma a base, e desse princípio as conseqüências que do mesmo 
decorrem".
 Alberto L. Warat e Eduardo A. Russo, Interpretación de la ley, Abeledo-
Perrot, v. 1, p. 41: "Los
métodos interpretativos aparecen definidos por el saber acumulado (el sentido 
comun teórico de los
juristas) como técnicas rigurosas, que permiten alcanzar el conocimiento 
científico del derecho posi-
tivo. En realidad, es notoria su conexión con la ideologia de las distintas 
escuelas que conforman el
pensamiento jurídico. Así, el método exegético, el método de escuela histórica, 
el método dogmático,
el método comparativo de lhering de la segunda fase, el método de la escuela 
científica francesa, el
método del positivismo sociológico y de la escuela del derecho libre, el 
teleologico vinculado a la
jurisprudencia de intereses, el método egológico y el tópico-retórico, todos 
ellos se relacionan con
las escuelas correspondientes, de las cuales, en algunos casos, importaron el 
propio título".
 Emilio Betti,Interpretación dela ley de los actos jurídicos, Madrid, 
1971, p. 95: "La interpretación
que interesa al Derecho es una actividad dirigida a reconocer y a reconstruir el 
significado que ha de
atribuirse a formas representativas, en la órbita del orden jurídico (Categ., 3 
y ss.) (1), que son fuente
de valoraciones jurídicas, o que constituyen el objeto de semejantes 
valoraciones. Fuentes de valoración
jurídica san normas jurídicas o preceptos a aquéllas subordinados, puestos en 
vigor en virtud de una
determinada competencia normativa. Objeto de valoraciones jurídicas pueden ser 
declaraciones o
comportamientos que se desarrollan en el circulo social disciplinado por el 
Derecho, en cuanto tengan
relevancia jurídica según las normas y los preceptos en aquél contenidos y que 
tengan a su vez
contenido y carácter preceptivo, como destinados a determinar una ulterior linea 
de conducta.
 La interpretación jurídica así entendida no es más que una especie, bien 
que la más importan-
te, del género denominado "interpretación en función normativa"".
 Jerzy Wróblewski ensina: "Há várias concepções da intepretação legal,
mais ou menos influenciadas pelo uso do termo "interpretação" e por idéias
semióticas gerais.
 Para o nosso propósito é suficiente ressaltar três concepções sobre a
interpretação legal e eleger uma delas, a utilizada na teoria geral que aqui
apresentamos.
 A interpretação em sentido amplíssimo se define com a compreensão de
um objeto como fenômeno cultural. Se nos encontramos, por exemplo, com
uma pedra, de uma forma particular, poderíamos nos perguntar se é o resulta-
do de forças naturais como o vento ou a água, ou produto do trabalho humano
como instrumento ou obra de arte. No primeiro caso somente nos interessa-
mos pelo processo natural relacionado com a geologia, mas no segundo caso
atribuímos à pedra algum valor (sentido, significado), tratando-a como resul-
tado de uma atividade humana. Em outras palavras, atribuímos algum valor
(sentido, significado) ao substrato material, interpretando-o como resultado
da atividade do homem. E esta é