A Astrologia e a Psique Moderna - Dane Rudhyar
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A Astrologia e a Psique Moderna - Dane Rudhyar


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e da 
"faculdade de ter um nome".
A criança passa a conhecer-se como um ego relacionando todas as suas 
sensações sempre cambiantes, seus estados de ânimo e suas sensações 
orgânicas a algum princípio inerente de estabilidade e permanência que 
correlaciona numa unidade qualquer coisa que esteja sendo conscientemente 
experimentada. E \u2014 porque qualquer organismo é, animado pela energia vital 
que circula ritmicamente através dele e mantém a integridade da sua estrutura 
a despeito das mudanças constantes que são produzidas pelo crescimento e 
pelo impacto do mundo exterior \u2014 o senso de ego não se baseia apenas num 
senso de estabilidade estrutural, mas também num sentimento dinâmico de 
força individualizada. O ego não é somente
"Eu"; também é o "sou" associado ao "Eu" \u2014 o "Eu sou". Contudo, o senso 
de ego é constantemente modificado por experiências interiores e exteriores, 
é empurrado por reações emocionais e é estimulado por estados de ânimo 
interiores, de desejo, de necessidade de expansão ou de medo. Desse modo, 
na realidade cotidiana normal, o "eu sou" está sempre associado com um ser 
ou estar "isto" ou "aquilo" \u2014 "eu estou zangado \u2014 eu estou me sentindo 
bem \u2014 eu estou doente \u2014 eu estou com medo \u2014 eu estou apaixonado", etc. 
De fato, é muito difícil a percepção da nossa qualidade de "ser ou estar" que 
não seja condicionada por algum sentimento ou conceito. Essa é a meta de 
muitos treinamentos espirituais, tais como a Yoga hindu e o moderno Novo 
Pensamento.
Quando uma experiência alcançando a consciência produz uma reação 
imediata de repulsão, medo, estranheza e inaceitabilidade, a lembrança dessa 
experiência freqüentemente não tem permissão para permanecer dentro da 
"área de consciência", que ê regida pelo ego. Ela mergulha "abaixo do 
limiar" da consciência, dentro do inconsciente pessoal. O inconsciente 
também contém muitos fatores que o indivíduo ainda não teve chance de 
experimentar \u2014 quer subjetiva, quer objetivamente. Estes fatores 
inconscientes ainda não experimentados são genéricos e coletivos. Eles são 
"genéricos" quando se referem à "nossa natureza humana comum" - isto é, a 
todos e quaisquer poderes que são inerentes e existem potencialmente em 
todo o ser humano nascido, simplesmente por causa dele ser "humano". Eles 
são fatores "coletivos" quando são resultantes da experiência racial, social e 
cultural de longas gerações de ancestrais. Desse modo, o inconsciente 
genérico refere-se àquelas características orgânicas e espirituais que a criança 
experimentará à medida que cresce e se toma uma personalidade 
amadurecida através do amor e da criatividade, da doença e do sofrimento, e 
de qualquer outra maneira na qual os poderes humanos latentes passam a ser 
reais para com ela como um indivíduo consciente. Os conteúdos do 
inconsciente coletivo \u2014 os "arquétipos" sociais e culturais definidos por 
Jung \u2014 também serão vivenciados pelo indivíduo à medida que a sua 
personalidade se desenvolve no meio de um ambiente sócio-cultural do qual 
ele aprende a retirar (e, eventualmente, a assimilar e a digerir) alimento 
psíquico e mental. Naturalmente, nem todos estes conteúdos do inconsciente 
coletivo serão assimilados ou mesmo encontrados na experiência consciente 
de todos os indivíduos. Contudo, quanto
mais destes conteúdos do inconsciente genérico e coletivo são assimilados, 
mais rica será a personalidade madura.
O processo de maturação e enriquecimento da personalidade é longo \u2014 
é um processo difícil. Também é um processo perigoso. A "personalidade", 
como um valor supremo e como uma qualidade de irradiação, criatividade e 
vida independente, é uma meta que só pode ser alcançada quando a pessoa 
individualizada atinge um estado de "definição, plenitude e maturidade" (C. 
G. Jung) \u2014 isto é, quando seu organismo biopsíquico se toma bem-integrado 
e elástico, capaz de resistir, e dotado de força dinâmica \u2014 a força de se 
proteger e se reproduzir na sociedade e através dela. Quando o psicólogo fala 
em "personalidade", ele se refere a esse organismo biopsíquico, que é 
estruturado pelo ego (e no corpo, pelo esqueleto) e que demonstra unidade 
funcional. Ao referir-se à "personalidade", ele quer dizer a qualidade que 
irradia da pessoa individualizada relativamente dinâmica e madura \u2014 num 
sentido, o famoso it das celebridades do cinema e do palco, o poder de 
"projeção" que caracteriza os grandes atores, seja no mundo dos espetáculos 
ou no cenário político.
No seu sentido mais pleno, personalidade é um ideal de abrir um 
caminho para a frente. É um ideal, do mesmo modo que são ideais tomar-se 
um santo na religião e um "adepto" no ocultismo. Nenhum destes ideais pode 
ser alcançado na flor da adolescência (excetuando-se a possibilidade de uma 
incorporação "divina"), muito embora a potencialidade da sua obtenção possa 
ser indicada de uma forma mais ou menos forte desde a adolescência. 
Todavia, qualquer indivíduo que mostre inclinações para a auto-afirmação, a 
independência de pensamento e a intensidade emocional, pode ser "educado 
para tomar-se uma personalidade". Mas como, por quem e com que 
finalidade? Quando se procura responder a estas perguntas por demais 
pertinentes (e, infelizmente, amiúde interpretadas de um modo falso ou 
superficialmente consideradas), as dificuldades encontradas são muitas. As 
respostas não são óbvias; a validade delas deve ser cuidadosamente pesada, 
não somente num sentido geral mas também em termos de tendências 
históricas e das necessidades culturais de uma sociedade numa determinada 
época e, em relação à preparação do indivíduo que vai ser educado para se 
tomar uma personalidade.
Por enquanto, indicarei, resumidamente, três tipos básicos de respostas, 
propostas pelo antigo "mestre espiritual" oriental, pelo psicólogo profundo 
moderno (como Carl Jung) e pelo ainda não classificado e ainda
não definido claramente astropsicólogo, que procuraria combinar a 
potencialidade para a auto-educação contida na astrologia com a atitude do 
psicólogo seguidor de Jung ou de Kunkel. Antes de mais nada, porém, referir-
me-ei ao quadro histórico hoje em dia apresentado por nossa sociedade 
moderna, tipicamente ocidental, até onde concerne à relação desta sociedade 
com a personalidade.
O relacionamento da personalidade com a sociedade sempre deve ser 
considerado como um pano de fundo essencial para qualquer aplicação 
prática dos ideais e técnicas psicológicas, porque nenhum indivíduo existe 
num vácuo e porque nenhum homem ou mulher nasce como uma perso-
nalidade individualizada e madura. Todo o indivíduo deve emergir do útero 
coletivo da sociedade \u2014 freqüentemente, por meio de violência! A marca do 
condicionamento recebido durante este processo de emergência será sentida 
através de toda a sua carreira e determinará as suas outras necessidades. A 
educação para ser uma personalidade é educação fora da esfera da 
coletividade sócio-cultural de seres humanos, em cuja sociedade o indivíduo 
vive e procura atingir a sua meta \u2014 e, também, é educação baseada nas 
conquistas históricas dessa determinada sociedade. Isto poderá parecer um 
paradoxo, mas, num sentido, todo o desenvolvimento psicológico é baseado 
em paradoxos, na reconciliação de opostos \u2014 um fato bem conhecido dos 
antigos.
Nossa sociedade moderna, especialmente desde a revolução industrial e 
tecnológica que transformou radicalmente as condições da existência humana, 
caracteriza-se (psicologicamente falando) pela pressão constante que exerce 
no sentido da "despersonalização" do ser humano comum. Isso talvez seja 
mais característico (falando num sentido geral) nos Estados