A Dimensão Galática da Astrologia - Dane Rudhyar
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A Dimensão Galática da Astrologia - Dane Rudhyar


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emocionalmente desejado. 
Ele representa a saída na superfície do globo, a biosfera. O que envolve uma 
disseminação, mais ou menos "horizontal", de energia, em termos de sua relação 
com algum objeto; relação que pode ser negativa, distanciando-se por conseguinte 
deste objeto. Plutão, ao contrário, relaciona-se basicamente com a concentração de 
poder (ou atividade) de alguma forma de "grupo" (concreto ou transcendental), 
através do indivíduo que se considera investido de tal poder, poder este que expressa 
ou busca uma finalidade centrante. À atuação marciana profunda. mente pessoal, 
Plutão responde com uma ânsia de atividade coletiva, de busca de uma mente ou 
vontade que, fornecendo uma concentração consciente, irá fornecer um centro do 
qual possa disseminar-se o propósito.
No nível mais elevado, Plutão concentra as energias galácticas sobre a 
humanidade por meio de indivíduos prontos a assumir firmemente seu papel de 
destino; neste sentido, a ação de Plutão é "vertical" e não "horizontal". No nível 
sócio-cultural, Plutão representa o ímpeto mais recôndito da coletividade \u2014 nação, 
grupo social, profissão \u2014 em formular, através das pessoas especialmente dotadas, a 
qualidade característica ("estilo". ou modo de viver) do estágio evolutivo histórico 
no qual atua o grupo ou nação. Enquanto Netuno representa a pressão geral da 
coletividade sobre os indivíduos a ele pertencentes \u2014 indicando assim, por 
exemplo, a subserviência do indivíduo mo. da e propaganda de todos os tipos \u2014 
Plutão, em uma carta natal, indica a possibilidade de o indivíduo tomar-se arauto 
ativo do espírito de grupo, por meio de ação criativa e positiva.
Esta concentração plutoniana de energias sociais ou biológicas sobre o 
indivíduo capaz de expressar o caráter e objetivo grupais resulta, via de rega, em 
ações aparentemente inspiradas pela ambição ou autogratificação pessoal; contudo, 
por trás desta fachada pessoal, existe um tipo mais abrangente de motivação 
inconsciente ou semiconsciente. Por exemplo, no nível psicológico, a atração 
emocional entre um homem e uma mulher assume habitualmente formas 
aparentemente pessoais e possessivas; contudo, por trás dessa aparência é a espécie 
humana, e com freqüência a cultura ou religião do casal, que os impele ou compele à 
união. Superficialmente, tudo parece pessoal e marciano, mas nas profundezas 
inconscientes dos dois jovens, é o propósito coletivo da raça ou da cultura que busca 
expressão. Qualquer concentração de energia e propósito social ou genérico
através das ações dos indivíduos, amiúde inconscientes do que os incita a agir, é 
plutoniana.1
Esse desafio plutoniano a Marte ocorre arquetipicamente em Áries. A própria 
vida, no seu sentido genérico, é o verdadeiro ator em todos os primórdios cósmicos 
ou raciais. Este o significado, nas mitologias mais ancestrais, do grande deus Eros 
(ou Kama deva, na Índia); só bem mais tarde essa força primordial da vida universal 
foi reduzida ao caráter "humano, demasiado humano" das concepções populares e da 
linguagem familiar (vide a vulgarização do termo erótico). Na antiguidade, o Eros 
grego e o Kama deva hindu foram os primogênitos entre os deuses. Representavam 
o desejo cósmico de criar um novo mundo; e tal desejo implica inevitavelmente uma 
"descida" ao caos. O caos representa a condição primeva e indiferenciada da 
matéria, resíduos das formas de energia extintas, "solo negro" ou cinzas de universos 
passados. Toda atividade criativa, em seu caráter fundamental, constitui uma descida 
à matéria. O Um universal, no Seu estado difuso e indiferenciado, dissemina-se pelo 
Espaço infinito, buscando concentrar-se no Específico, fonte de nova manifestação; 
e para tal deve centrar-se na matéria. Interpretamos simbolicamente este ato falando 
de uma "descida" às profundezas e às sombras. Todas essas descidas são motivadas 
por um desejo de experiências novas e mais abrangentes sob alguma forma de vida, 
em qualquer nível no qual essas formas sejam imaginadas como expressões ou 
receptáculos de um processo cósmico (micro ou macrocósmico).
No nível da nossa atual sociedade ocidental e, em sentido mais geral, do que a 
filosofia hindu denominou Kali Yuga (a Idade do Ferro Grega, a Idade da Mãe 
Negra, Káli), a descida plutoniana possui um caráter trágico, pois indivíduos e 
nações devem sempre. defrontar-se com inúmeras memórias sombrias e 
assustadoras. Essas memórias devem ser conhecidas nas trevas subterrâneas para 
que haja novos inícios criativos. Em termos junguianos, este é o encontro com a 
Sombra. 
1. Neste sentido, uma força policial constitui manifestação da ação plutoniana no poder social (e 
às vezes político). O policial que abusa do poder comete crime maior do que o indivíduo que ofende outro 
\u2014 atitude marciana. Contudo, em nossa sociedade ilegal, freqüentemente ele é apenas repreendido ou 
despedido. O abuso do poder coletivo de que um homem é investido devia constituir o maior crime que 
uma pessoa pode cometer.
Entretanto, se tal encontro é corajosa e resolutamente vivido, a Sombra transforma-
se no Deus-em-profundidade, o Deus dos mistérios, o Deus "vivo", que polariza o 
Deus-mais-elevado, revelando assim a unidade fundamental da matéria e do espírito, 
e também de fracasso e vitória \u2014 ou, melhor ainda, da Harmonia do Ser e do Não-
Ser, ou Potencialidade e Realidade2 abrangentes, imutáveis e inefáveis.
Na maior parte dos contos de fadas, a Fera horrenda em busca de amor 
transforma-se em Príncipe maravilhoso, quando a donzela sente em seu coração 
compaixão pela feiúra deformada. Na mitologia grega esotérica, Plutão não apenas é 
o senhor dos subterrâneos, como também símbolo de abundância e riqueza. É 
igualmente simbolizado pela "Pérola de alto preço" que, oculta no interior da 
substância viscosa da ostra, só é encontrada pelo mergulhador corajoso das 
profundezas marinhas do inconsciente; para ser vitorioso em sua busca, o 
mergulhador deve desenvolver ampla capacidade respiratória \u2014 simbolizando a 
respiração o aspecto mais essencial ao processo de realização espiritual. Pérolas são 
produzidas pela ostra após a introdução de alguma substância irritante no seu espaço 
vital aparentemente protegido pela concha. O sofrimento é necessário para que seja 
experimentado um certo grau de transmutação e transubstanciação; mas tudo 
depende da atitude para com o sofrimento e a dor. A tragédia deve ser aceita. Deve 
ser compreendida; e compreender não significa apenas "submeter-se" e suportar 
todo o fardo do que se compreende, sentindo assim todo o seu peso e conteúdo; mas 
também tomar-se consciente do porquê do fardo colocado sobre os seus ombros \u2014 o 
propósito desse fardo e da experiência dentro do amplo ciclo da existência, e se 
possível da existência da humanidade e do mundo.
Plutão, mais do que qualquer outro planeta, pode conduzir à realidade do que 
demasiado freqüentemente denomina-se "consciência cósmica"; não obstante, não 
precise necessariamente fazê-lo. A Sombra dispõe de maneiras mais sutis de ocultar 
a realidade sob as inúmeras formas de ilusão netuniana. Como já foi dito, a ação de 
Plutão é grandemente condicionada pela resposta do indivíduo às forças e eventos 
uranianos e netunianos. O revolucionário uraniano pode ser facilmente arrancado do 
seu caminho pela intensidade de sua paixão aos fatores opressivos e arrasadores, não 
aceitando concessões; 
2. Ver Planetarization of Consciousness, cap. 5.
o idealista netuniano pode ser enganado pela ilusão de experiências pseudomísticas 
as quais fazem-no perder-se em meio à névoa densa, embora iridescente; e o 
humanista netuniano pode afundar na areia