Astrologia do Destino - Liz Greene
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Astrologia do Destino - Liz Greene


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menos atraentes de um 
confronto com Plutão. As carpideiras de Enqui e Atena nos fornecem um modelo 
mítico de um tipo de autopercepção que se move entre severo autojulgamento e 
estúpida autocompaixão. Isso impõe um reconhecimento da necessidade ou 
inevitabilidade do ódio, através da empada com a coisa ofendida. Do ponto de vista de 
Eresquigal, a vida está completamente corrompida. Ela foi estu
prada e exilada no inferno, e todos, particularmente sua livre e alegre irmã Inanna, 
devem sofrer por isto. As pequenas carpideiras não concordam nem discordam, não 
acusam nem racionalizam. Simplesmente ouvem e aceitam a aflição e a amargura dela. 
A fúria de Plutão, quando irrompe de dentro ou vem de fora, é terrível, talvez mais 
ainda quando e encontrada no lado de dentro, pois a gente fica com medo de destruir 
essas coisas que ama. Por isso, a fúria e reprimida e fica corroendo no inferno da 
psique.
No mito sumeriano, as carpideiras oferecem uma alternativa tanto para a repressão 
quanto para a expressão da raiva em comportamentos externamente destrutivos que, no 
final das contas, não curam a chaga. Pôr-se no lugar das carpideiras é mais difícil do 
que parece, todavia, pois mesmo que se consiga enfrentar este instinto vingativo e 
destruidor dentro de si mesmo, a tentação de "transformá-lo" e irresistível. O ego gosta 
muito de querer mudar tudo que ele encontra na psique de acordo com seus próprios 
valores e padrões, e o veneno de Plutão provoca uma resposta previsível: agora que vi 
minha feiúra, acho-a desprezível e preciso curá-la. No entanto, as carpideiras de Enqui 
não estão preocupadas em curar Eresquigal. Elas conseguem enxergar os dois lados da 
questão: a necessidade de salvar Inanna e a legitimidade da fúria de Eresquigal.
Enqui, o deus do fogo, que moldou essas criaturas, é o correspondente sumeriano de 
Loge, no mito teutônico, e de Hermes, no grego. Ele não toma o partido de ninguém, 
mas seu objetivo é visualizar todo o esquema, e pode amar todos os protagonistas já que 
eles fazem parte do grande teatro. Acho, aliás, duvidoso que Eresquigal seja, na 
verdade, "curável". Seguramente ela não se mostra apta a responder às solicitações do 
ego, a não ser quando ela própria o deseja, se é que de fato alguma vez o deseja.
Letes é o rio do abençoado esquecimento, no qual as almas dos mortos submergem 
antes de voltarem ao mundo para uma outra encarnação. Os que crêem na reencarnação 
como uma filosofia real podem considerar o fato de que misericordiosamente não 
recordamos dos nossos destinos quando nascemos como uma bênção de Plutão. Ou 
podem tomá-lo num sentido mais simbólico: não só esquecemos misericordiosamente o 
que está escrito para nós no nascimento, como também não nos lembramos muito bem 
como era a Grande Região Inferior depois que passamos por uma experiência platônica. 
Tendo conseguido emergir do inferno, assim como Orfeu somos ordenados por alguma 
voz Intima a não olhar para trás e, depois que o trânsito ou progressão termina, 
alegremente anunciamos quão produtivo, enriquecedor e inspirador de crescimento tudo 
isso foi. Não nos recordamos desse lugar, pois se o fizéssemos, perderíamos a coragem 
para enfrentar a futura e próxima volta do Grande Círculo. Letes e uma dádiva de 
Plutão; é uma imagem de maleabilidade psíquica, e a capacidade de esquecer o 
sofrimento. Não que Plutão não ofereça riquezas. Acho que necessariamente temos de 
esquecer depois o preço que pagamos por elas, a fim de que não sejamos envenenados 
pelo Estige e jamais perdoemos a existência. Ademais, acho que as experiências de 
Plutão muitas vezes coincidem com uma lembrança do que estava esquecido, com uma 
redescoberta da aflição, fúria e do ódio que foram paralisados e empurrados para o 
subconsciente pelo ego para sua própria sobrevivência.
O psicoterapeuta está familiarizado com o miasma de ódio e de raiva inflamados,
tanto dos paia quanto da própria pessoa, que irrompem quando as ofensas, as rejeições 
e as humilhações inconscientes da infância vêm à luz. Onde Plutão é encontrado no 
horóscopo, há quase sempre um esquecimento, uma repressão necessária e uma 
tendência à recordação inesperada e à erupção vulcânica de veneno sobre um objeto 
que talvez não passe apenas de um catalisador. Parece haver uma relação entre Plutão e 
aquilo que Freud entende por repressão (que não é realizada intencionalmente por um 
determinado ato de consciência, mas ocorre como um instinto de sobrevivência, 
através de uma espécie de censura inconsciente). São essas as coisas que devemos 
esquecer por algum tempo, a fim de podermos viver.
Existem desejos "reprimidos" na mente... Quando digo que existem esses desejos, 
não estou fazendo uma declaração histórica no sentido de que eles outrora existiam 
e foram depois abolidos. A teoria da repressão, que é essencial para o estudo das 
psiconeuroses, afirma que esses desejos reprimidos ainda existem \u2014 embora haja 
uma inibição simultânea que os reprime. 36
Podem-se fazer algumas eruditas conjeturas a respeito da natureza dos "desejos" 
reprimidos de Plutão, como também a respeito das excelentes razões para a "inibição 
simultânea" que bloqueia a entrada deles na vida consciente. Freud, que tinha 
Escorpião no ascendente, formulou-as muito bem no seu conceito do id. Elas são 
demasiado violentas, vingativas, sanguinárias, primitivas e perigosas para que a pessoa 
comum se sinta muito à vontade ou segura com a sua intrusão. A par dos "desejos", 
pode-se incluir lembranças, experiências de grande intensidade emocional que são 
esquecidas juntamente com seus objetos. Assim, largas fatias de infância caem debaixo 
da faca do censor \u2014 fatias estas que revelam o rosto selvagem do jovem animal 
lutando por auto-satisfação e pela sobrevivência.
Juntamente com o veneno, potencialidades também podem ser reprimidas, para não 
dizer que uma coisa poderia desencadear a outra. A criança que está sujeita à fúria 
possessiva da mãe ou ao gélido desinteresse do pai, cada vez que se senta para brincar 
com a massa de argila ou com tintas e comete a afronta de recolher-se à sua própria 
psique individual, irá crescer e tornar-se o adulto "sem criatividade" que por alguma 
insondável razão não consegue sequer tentar levar o lápis ao papel, preferindo, ao 
contrário, viver no crepúsculo cinzento de uma vida sem brilho e sem expressão, com 
inveja de todos os que sabem se expressar melhor, em vez de arriscar-se a recordar o 
preço pago por aqueles esforços criativos iniciais. A criança que atrai para si o ciúme 
dos pais por ser inteligente, bonita e independente demais, se transformará no adulto 
que sabota a si mesmo toda vez que está na iminência de ter sucesso na vida, em vez de 
arriscar-se à terrível competição com os pais, sem o apoio dos quais ela não pode viver. 
Não se quer interromper a monotonia, o esquecimento, mesmo que isso signifique que 
o surgimento ou o desenvolvimento de um talento nascente será sacrificado. Essa ati-
tude é melhor e mais fácil do que enfrentar os sentimentos violentos dos pais, dos 
irmãos e de si mesmo. Mais tarde, freqüentemente sob trânsitos e progressões 
relacionados com Plutão, nos lembraremos do que havíamos esquecido, do medo, do 
sofrimento, do desejo e da raiva. Então, é preciso fazer um retorno ao
mesmo lugar, passando pela mesma depressão, angústia e desgosto por si mesmo. No 
entanto, a Jornada posterior é mais uma espiral do que um círculo, pois é a criança 
dentro do adulto quem recorda, e o adulto poderá, talvez, ajudar a criança a suportar e a 
controlar o sofrimento.
Tártaro é, por vezes, o nome dado no mito a todo o reino de Hades. Bastante amiúde 
ele se refere a um tipo de sub-reino, a uma cidadela, por assim