Astrologia do Destino - Liz Greene
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Astrologia do Destino - Liz Greene


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níveis diferentes de experiências? Seja qual for a resposta \u2014 não sei 
qual é \u2014 alguma coisa certamente parece acontecer no encontro com aquele "lugar do 
meio". E essa "alguma coisa" que agora gostaria de investigar mais a fundo.
A vitalidade e a veracidade desses conceitos difíceis e obscuros é comprovada na 
vida real e no contínuo processo de trabalho individual com a psique, em conjunção 
com os trânsitos planetários que se manifestam como imagens, nos sonhos, e 
acontecimentos, na vida exterior. Citei anteriormente o sonho de uma jovem que 
chamei Ruth, perseguida na vida interior e exterior pela figura de um homem violento. 
Mencionei que a figura do sonho mudou à medida que nosso trabalho progrediu, e que 
ele começou a assumir um disfarce mais útil. A certa altura do processo, o homem 
apareceu num sonho pedindo para ser morto e comido, e isso coincidiu com a decisão 
de Ruth, e também com sua capacidade, de romper um relacionamento destrutivo e 
sufocante onde se sentia paralisada e incapaz tanto de reagir como de abandonar. A 
mudança ocorreu durante um longo trânsito de Urano em oposição ao Marte natal e em 
quadratura ao Plutão natal. "Alguma coisa" obviamente aconteceu. Mas o quê?
Vou dar a seguir um resumo mais extenso de alguns dos desenvolvimentos da 
análise de Ruth. O seu mapa natal está reproduzido ao lado.
Esse caso não é nem bizarro nem espetacular. Apesar de seu sujeito ser uma pessoa 
fora do comum, com muitos dons criativos e um alto grau de sensibilidade e 
receptividade ao mundo interior, os problemas que sofreu são, no fundo, problemas 
humanos básicos, cujos padrões são arquetípicos. Os fracassos e sucessos da análise 
também não são espetaculares, e Ruth não foi "curada" porque não havia nada do que 
curá-la. Mas os sonhos que se seguem proporcionaram um quadro incomumente nítido 
de uma pequena parcela daquele processo
espantoso a que Jung se refere como processo de individuação e que também é, no 
meu entender, um processo de chegar a um acordo com o destino. O sonho abaixo 
ocorreu logo. no começo da análise, e os sonhos que ocorrem nessa época muitas vezes 
são profundamente significativos, porque condensam o problema da pessoa, seu 
referencial arquetípico e seu potencial de solução. Sinalizam o caminho do avanço da 
exploração do "lugar do meio".
Estou num pequeno barco com um homem. O mar está muito violento e estamos 
numa tempestade furiosa. O barco não é muito firme. Parece que o homem está 
conduzindo o barco para umas rochas. Sei que se batermos nas rochas vamos 
morrer; o barco não é forte o bastante para agüentar o impacto. Não consigo saber 
se o homem está tentando nos destruir ou se não percebe o perigo mortal das 
rochas. Tento fazer com que ele mude o rumo, mas ele parece decidido e é muito 
mais forte do que eu. Acordo em pânico, sem saber se vamos bater nas rochas ou 
não.
Esse sonho comunica uma experiência subjetiva de grande perigo. Como essa
situação pode se traduzir na vida exterior de Ruth ainda não está claro, mas as águas 
violentas do inconsciente junto com as rochas ameaçadoras da realidade externa 
colocaram a moça numa situação precária. No nível pessoal, entendi que esse sonho 
falava do "navio da vida", a consciência individual do ego, nesse caso não muito 
sólido. O relacionamento de Ruth com sua realidade física não estava muito estável 
quando começamos o trabalho, e seu senso de estar "contida" na vida era mínimo. O 
homem é uma figura altamente ambígua; pode estar tentando destruí-la ou pode estar 
tentando salvá-la, mas ela não está preparada para confiar em sua orientação, pois lhe 
parece que a direção em que ele a está levando só pode resultar em destruição. Uma 
das definições que Jung dá ao animus é que, na psique de uma mulher, o inconsciente 
se personifica como figura masculina, retratando seus atributos criativos e direcionais. 
Assim, no contexto desse sonho, poderíamos dizer que é o inconsciente que a conduz 
para as rochas ameaçadoras, e é difícil saber se sua intenção é destrutiva ou redentora.
O barco danificado, que parece representar um ego ou continente danificado, não é 
de surpreender quando se considera o horóscopo de Ruth. A oposição entre a Lua em 
Câncer e Saturno em Capricórnio, nas casas parentais, sugere que nenhum dos pais foi 
capaz de dar-lhe qualquer sensação de segurança, já que estavam tão ocupados sendo 
infelizes. A atmosfera da infância de Ruth foi crítica e destrutiva. Já falei alguma coisa 
sobre a situação infeliz da mãe. Tendo a Lua em Câncer na casa que rege a mãe, a 
extraordinária sensibilidade de Ruth às correntes emocionais não verbalizadas de seu 
ambiente, e em especial de sua mãe, deixaram-na particularmente vulnerável ao 
submundo das psiques dos pais, e não era possível enganá-la a respeito do horripilante 
estado real das coisas existentes no casamento dos pais e dentro da própria mãe e do 
próprio pai. Plutão colocado na décima segunda casa, como também já falei, também 
confere muita sensibilidade à escuridão coletiva que espreita por trás do nascimento da 
pessoa, os "pecados ancestrais" que se acumularam por muitas gerações. Ruth experi-
mentava essa percepção como "má", resposta típica de muitas crianças, pois se nada é 
trazido para o claro e a criança vivencia subcorrentes destrutivas, muitas vezes 
presume que são suas. No horóscopo de Ruth, isso é exacerbado pela oposição entre o 
Sol e Plutão, pois essa "escuridão familiar" está tanto dentro dela como dentro dos 
pais; não se pode esperar que uma criança faça a distinção \u2014 ela vai simplesmente 
aceitar o conjunto como se fosse sua culpa e sua criação.
O relacionamento de Ruth com a mãe estava impregnado de sentimento de rejeição 
e de crítica. Ela sabia que estava magoada e zangada por causa desse tratamento, e seus 
sentimentos de ultraje eram muito conscientes. Sobre o pai ela era muito mais vaga. 
Ele lhe parecia "fraco", mas ela não tinha nenhuma noção clara de quem era ele, ou de 
como se sentia com relação a ele. Outro sonho do início da análise trouxe à luz facetas 
de seu relacionamento com o pai que eram muito mais perturbadoras e esclareceram 
consideravelmente alguns dos componentes que tinham formado a imagem do homem 
terrível que a perseguia nos sonhos.
Estou em meu quarto com um gatinho que estou cuidando. Meu pai entra de 
repente pela porta. Quase não o reconheço, pois ele parece terrivelmente zangado e 
tem chifres pretos na cabeça. Ele vê o gatinho brincando no chão e
vai chutando-o pelo quarto todo. Corro atrás chorando, com medo de que ele o tenha 
matado, e com mais medo ainda de que ele fique violento comigo.
Esse sonho, nem é preciso dizer, gerou transtorno e ansiedade consideráveis em Ruth. O 
conteúdo do sonho forçou-a a encarar a situação "real" existente entre ela e o pai: que 
havia muita raiva espreitando por trás de sua superfície "fraca", e que essa raiva tinha 
sido dirigida contra sua jovem feminilidade, sugerida pelo gatinho de que ela está 
cuidando. A violência dele se direciona contra os instintos dela, seu desenvolvimento 
como mulher. Os chifres na cabeça são uma imagem curiosa; Ruth associou os primeiro 
como diabo, mas à medida que discutimos o sonho ela também os associou aos chifres 
de um touro, sugerindo um aterrorizante poder fálico no pai, de que ela era totalmente 
inconsciente. Simplificando, o sonho parece estar sugerindo que a sexualidade 
reprimida do pai, envenenada pela raiva, dirigia-se contra a própria Ruth. É uma 
imagem de estupro psíquico, pois ele entra no "quarto" dela, no seu próprio espaço 
psicológico, e fere o animalzinho indefeso que ela está tentando alimentar e criar.
O sonho anterior de Ruth sobre o barco, somando as percepções adquiridas com o 
segundo sonho, parece descrever