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KARL MARX - Sociologia

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Tania Quintaneiro 
Maria Ligia de Oliveira 
Barbosa Márcia Gardênia Monteiro de Oliveira 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um Toque de Clássicos 
MARX, DURKHEIM e WEBER 
 
 
 
 
 
 
2ª EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA 
1ª REIMPRESSÃO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Belo Horizonte 
Editora UFMG 
2003 
KARL MARX 
 
Márcia Gardênia Monteiro de Oliveira 
Tania Quintaneiro 
 
O trabalhador é tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, 
quanto mais cresce sua produção em potência e em volume. O 
trabalhador converte-se numa mercadoria tanto mais barata 
quanto mais mercadorias produz. A desvalorização do mundo 
humano cresce na razão direta da valorização do mundo das 
coisas. O trabalho não apenas produz mercadorias, produz 
também a si mesmo e ao operário como mercadoria, e 
justamente na proporção em que produz mercadorias em geral. 
 Karl Marx 
 
INTRODUÇÃO 
 
As formulações teóricas de Karl Marx acerca da vida social, especialmente a 
análise que faz da sociedade capitalista e de sua superação, provocaram desde o princípio 
tamanho impacto nos meios intelectuais que, para alguns, grande parte da sociologia ocidental 
tem sido uma tentativa incessante de corroborar ou de negar as questões por ele levantadas. 
Mas a relevância prática de sua obra não foi menor, servindo de inspiração àqueles envolvidos 
diretamente com a ação política. Herdeiro do ideário iluminista, Marx acreditava que a razão 
era não só um instrumento de apreensão da realidade mas, também, de construção de uma 
sociedade mais justa, capaz de possibilitar a realização de todo o potencial de perfectibilidade 
existente nos seres humanos. As experiências do desenvolvimento tecnológico e as revoluções 
políticas, que tornaram o Setecentos uma época única, inspiraram sua crença no progresso em 
direção a um reino de liberdade. 
Além das dificuldades inerentes à complexidade e extensão da obra de Marx, o 
que aumenta o desafio de sintetizá-la, o caráter sucinto de algumas de suas teses tem dado 
lugar a interpretações controversas. O que se procura a seguir é apresentar, para os que se 
iniciam no pensamento marxiano, seus fundamentos conceituais e metodológicos. 
 
DIALÉTICA E MATERIALISMO 
A tradição filosófica dominante na Europa até o início da modernidade 
pressupunha a existência, além do mundo sensível e histórico, de uma outra dimensão mais 
real e povoada de substâncias ou de essências imutáveis que seriam os verdadeiros objetos do 
conhecimento. Sob essa ótica, o movimento e a transformação, no nível fenomênico, eram 
considerados mera aparência ou concebidos como consumação de um ciclo inexorável que em 
nada afeta o ser das coisas, constituído desde sempre, e sempre idêntico a si mesmo. 
Gradualmente, os caminhos da razão e da história irão se aproximando até que formas mais 
dinâmicas de entender a realidade acabarão por ocupar o lugar das concepções anteriores. 
A filosofia idealista de Georg wilheim Friedrich Hege1 (1770-1831) é um ponto 
alto dessa trajetória. Para o pensador alemão, “tudo o que é real é racional, e tudo o que é 
racional é real”. A realidade histórica desenvolve-se enquanto manifestação da razão, num 
processo incessante de auto-superação desencadeado pelo conflito e pela contradição que lhe 
são inerentes. Tal é “o movimento dialético, esse caminho que produz a si mesmo”. A noção 
de dialética origina-se no pensamento clássico grego e é retomada e reformulada por Hegel 
que, discorrendo sobre a dificuldade de apreendê-la, diz: 
 
Assim como a opinião se prende rigidamente à oposição do verdadeiro e do falso, 
assim, diante de um sistema filosófico, ela costuma esperar uma aprovação ou uma 
rejeição e, na explicação de tal sistema, costuma ver somente ou uma ou outra. A 
opinião não concebe a diversidade dos sistemas filosóficos como o progressivo 
desenvolvimento da verdade, mas na diversidade vê apenas contradição.
1
 
 
O finito
2
 deve, portanto, ser apreendido a partir do seu oposto, o mfinito, o 
universal, e é essa relação entre o particular e a totalidade que Hegel denomina unidade 
dialética.
3
 O fenômeno torna-se inteligível ao ser articulado à totalidade em que se insere, ao 
ser constituído conceitualmente. Na base desse empreendimento está o sujeito - que é quem 
realiza o esforço conceitual orientado a transcender a simples observação dos “fatos”, 
estruturando-os em um sistema totalizante. Este, no entanto, será sempre transitório, passível 
de superação, devido ao auto-movimento do conceito, que reflete a busca pela verdade em 
que se empenha o pensamento científico e filosófico. Aplicada aos fenômenos historicamente 
produzidos, a ótica dialética cuida de apontar as contradições constitutivas da vida social que 
resultam na negação e superação de uma determinada ordem. 
 
1
 HEGEL. A fenomenologia do espírito, p. 6. O pensamento de Hegel continua a ser pouco assimilável pela 
mentalidade ocidental, especialmente suas reflexões sobre o ser e o não-ser, que ultrapassam os princípios da 
identidade e da não-contradição da lógica clássica. Hegel procura mostrar que o sensível, o que vemos, é, logo a 
seguir, o que não é. Se o “aqui” é uma árvore, quando lhe voltamos as costas, essa verdade desaparece e se 
transforma no seu contrário, o “aqui” passa então a ser uma casa. O “aqui” permanece e lhe é indiferente ser casa 
ou árvore. Da mesma maneira, o “agora” que é noite transforma-se depois em um não-existente quando o dia 
amanhece. “Aqui” e “agora” são universais e o objeto é inessencial. 
2
 Isto é: o acontecimento singular, a acidentalidade, o fato, o fenômeno contingente, o imediato, o particular ou a 
parte. 
3
 “O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que atinge a completude por meio do seu 
desenvolvimento”, diz Hegel, assim, “o fruto surge em lugar da flor como verdade da planta”. HEGEL. A 
fenomenologia do espírito, p. 13 e 6. 
Outro tópico recorrente no pensamento político e filosófico, sobretudo ao longo 
do século 18, refere-se à perda de autocontrole por parte dos seres humanos, subjugados pela 
sua própria criação: a riqueza da vida material e seus refinamentos.
4
 Esse tema reflete-se na 
idéia hegeliana de consciência alienada, separada da realidade, “a consciência de si como 
natureza dividida”. De fato, para o filósofo idealista, ser livre significa recuperar a 
autoconsciência, e a história dos povos é o processo através do qual a Razão alcança 
progressivamente esse destino. Após a morte de Hegel, seu pensamento foi interpretado e, até 
certo ponto, instrumentalizado politicamente por seus seguidores o que deu origem a duas 
tendências: uma conservadora, de direita, e outra de esquerda, representada pelos jovens ou 
neo-hegelianos, entre os quais encontravam-se Marx e Engels.
5
 De fato, o marxismo, desde 
seus inícios, manterá um intenso e duradouro debate com o idealismo hegeliano. 
Na passagem do idealismo para o materialismo dialético, Ludwig Feuerbach 
(1804-1872), hegeliano de esquerda, foi uma figura-chave. Feuerbach sustentava que a 
alienação fundamental tem suas raízes no fenômeno religioso, que cinde a natureza humana, 
fazendo com que os homens se submetam a forças divinas, as quais, embora criadas por eles 
próprios, são percebidas como autônomas e superiores. O mundo religioso é concebido por 
Feuerbach como uma projeção fantástica da mente humana, por isso mesmo alienada.
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 A 
supressão desse mundo, por meio da crítica religiosa, faria desaparecer a própria alienação, 
promovendo a liberação da consciência.
7
 
Embora inicialmente seduzidos pelas teses de Feuerbach,

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