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As Leis da Imitação - Gabriel de Tarde

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GABRIEL DE TARDE
Consultor científico 
Paulo Ferreira da Cunha
Título original 
«LES LOIS DE L 'IM ITATIO N»
Tradução de
Carlos Fernandes Maia 
com^ colaboração de 
Maria Manuela Maia
Reservados os direitos 
desta edição por 
RÉS-Editora, Lda.
Pr. Marquês de Pombal, 78 
4000 PORTO-PORTUGAL
PREFÁCIO
da segunda edição
Desde a primeira edição deste livro, já publiquei 
a sua continuação e o complemento, com título Lógica 
Social.
Por isso, creio ter já respondido implicitamente 
a certas objecções que a leitura - de Leis da Imitação 
pudesse te r . feito. nascer..,Não é, contudo, inútil dar a 
este respeito algumas breves explicações.
Censuraram-me aqui e acolá por "ter muitas vezes 
chamado imitação a factos aos quais este nome não con­
vém de forma alguma". Reparo que me admira por vir da 
pena de um filósofo. Com efeito ,. sempre que o filósofo 
tem necessidade de um termo para exprimir uma genera- „ 
lização nova só lhe resta.a escolha entre duas saídas: ou
o neologismo, se nãc pode fazer de outro modo, ou, o 
que vale incontestavelmente muito mais, a extensão de 
um antigo vocábulo. Toda a questão está em saber se eu 
estendi abusivamente .— não digo sob o ponto de vista 
das definições de dicionário, mas a partir de uma noção 
mais profunda das coisas _ o significado, da palavra imi­
tação.
Ora, eu sei perfeitamente que não está conforme 
ao uso corrente dizer.de um homem, quando ele sem dár 
conta e involuntariamente reflecte uma opinião de outro 
ou se deixa sujestionar por uma acçãó de outro, que ele 
imita essa ideia ou esse actó. Mas, se é consciente è
deliberadamente que ele recebe o seu. vizinho uma forma 
de pensar ou de agir, concorda-se que o emprego do
5
Comte aperfeiçoado, condensado, clarificado, pensou du­
rante toda a sua vida no homem e que nem mesmo depois 
da sua morte é muito conhecido, como ousaria eu quei­
xar-me por não ter tido mais sucesso?
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CAPÍTULO I
A repetição universal
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Há lugar para uma ciência ou^ somente_para uma ■ 
história e ainda mais para uma filosofia dos factos so­
ciais? A questão é sempre pendente, ainda que, para fa ­
lar verdade, estes factos, se o.s olharmos de perto e sob 
um certo ângulo, sejam susceptíveis, tal como os outros,
--de se resolverem em séries de pequenos factas„.Jajrmlares 
e em fórmulas chamadas leis que resumem essas séries. 
Porquê, então, a ciência social ainda está a nascer ou a 
acabar de nascer no meio de todas as suas irmãs adultas 
e vigorosas? A principal razão, a meu ver, é que se dei­
xou . aqui a presa pela sombra, |as realidades. pelas._pal.a-. 
vrasl- Ninguém acreditou poder dar à sociologia uma feição 
cientrfica._.seDãO-.,d.ando-jhe..um ar biológico, ou, melhor 
ainda, urn_ar macâniçn. Éra procurar esclarecer o conhe­
cido pelo desconhecido, era transformar um sistema so­
lar em nebulosa não resolúvel para melhor o compreender.
Em matéria -social tem-se à mão, por um.~esps.cial. privi.- 
lêgio, as causas verdadeiras, os actos individuais de .que 
õs factos são feitos, o que está absolutamente „fora—dos 
nossos, oÍhos-ern_qualquer_ouir.a .roa.téria..iEstá-sè, portan-j. \ \ j 
tõ, dispensado, parece, de ter de recorrer, para a expli-l ^ , 
cação dos fenómenos da sociedade, a estas causas, ditas: 
gerais, que os 'físicos e os naturalistas são obrigados a 
criar com o nome de forças, de energias, de condições ^ 
de existência e de outros paliativos verbais da sua igno-,. 
rância sobre o fundo ni'tido das coisas.''}
21
AS LEIS DA IMITAÇÃO
Mas considerar os actos humanos como os únicos 
factores da história...! Isso é muito simples. Impôs-se a 
obrigação de forjar outras causas sobre o tipo destas ficções 
úteis que têm, por outro lado, um curso predeterminado; 
e felicitamo-nos por ter assim dado por vezes aos factos 
humanos, vistos de muito alto, perdidos de vista, por assim 
dizer, uma cor completamente impessoal. Acautelemo-nos 
deste idealismo vago; acautelemo-nos também do individua­
lismo banal que consiste em explicar as transformações so­
ciais pelo capricho de alguns grandes homens. Digamos an­
tes de mais que elas se explicam pela aparição, acidental 
em certa medida, quanto ao seu lugar e ao seu momento, de 
algumas grandes ideias, ou antes, de um número conside­
rável de ideias pequenas ou grandes, fáceis ou difíceis, o 
mais das vezes imperceptíveis à nascença, raramente glo­
riosas, em geral anónimas, mas ideias sempre novas, e 
que em razão desta novidade eu me permitirei de bapti­
zar colectivamente de invenções ou descobertas. Por estes 
dois termos entendo uma inovação qualquer ou um aperfei­
çoamento, por mais ténue que seja, acrescentado a uma 
inovação anterior, em qualquer ordem de fenómenos so­
ciais (linguagem, religião, política, direito, indústria, arte).
I^ Nio morilento em que esta novidade, pequena ou grande, é 
concebida ou resolvida por um homem, nada mudou apa­
rentemente no corpo social, como nada mudou no aspecto 
físico de um organismo em que üm mfcróbío, quer nefas­
to, quer benéfico, entroujr e as mutações graduais que 
acarreta a introdução deste elemento novo no corpo so­
cial parecem dar continuação, sem descontinuidade visí­
vel, às mutações anteriores na corrente das quais elas 
se inserem. Daí uma enganadora ilusão que leva os filó-, 
sofos historiadores a afirmar a continuidade real e funda­
mental. das metamorfoses históricas.' As suas verdadeiras 
càusas, contudo, resolvem-se numa série de ideias muito 
numerosas na verdade, mas distintas e descontínuas, ain­
da qüe unidas entre èlas pelos actos de imitação, muito- 
màis numerosos ainda, que as tomam por modelos./
É preciso partir daqui, isto é, de iniciativas reno­
vadoras, que, trazendo ao mundo ao mesmo tempo necessi­
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A REPETIÇÃO UNIVERSAL
dades novas e novas satisfações,fnele se propagam em se­
guida ou tendem a propagar-se por imitação forçada ou 
espontânea, electiva ou inconsciente, mais ou menos ra­
pidamente, mas em passo regul.ajL^A maneira duma onda 
luminosa ou de umaffãmTlia de formiga^.} A regularidade 
dê" que fà[õ~f\'âõ~~ê~ cTeTõ rm a nenhuma evidente nos factos 
sociais, mas descobrir-se-a se os decompusermos em tan­
tos elementos quanto neles haja, até ao mais simples 
dentre eles, às invenções distintas combinadas, aos clarões 
de génios acumulados e tornados luzes banais: análise, é 
verdade, bem difícil. Socialmente, não passa tudo de in­
venções e imitações, e estas são os rios de que aquelas 
são as montanhas; nada menos subtil, de certeza absoluta, 
que esta visão; mas, seguindo-a ousadamente, sem reser­
va, desdobrando-a desde o mais pequeno detalhe até ao 
mais completo conjunto dos factos, talvez se observe co­
mo ela é apta a pôr em rei evo. todo o pitoresco e, por 
sua vez, toda a simplicidade da história, para revelar pers­
pectivas ou tão bizarras como uma paisagem de rochedos 
ou tão regulares como um planalto, l isto é_ ainda idealis­
mo, se se quiser mas idealismo,.que..:consiste em expjjj.ar. 
a j?istória_pejas idejas dos seus autores e não__pelas do 
filsto.riadori .^
Antes de mais, ao considerar sob este ângulo a ciência 
social, vê-se a sociologia humana atrelar-se às sociolo- 
gias animais (por assim dizer) como a espécie ao género: 
espécie singular e infinitamente superior às outras, quer 
dizer, fraterna. No seu belo livro sobre as Sociedades 
anim ais, que é muito anterior à primeira edição da 'pres­
sente obra, M. Espinas diz expressamente que os traba­
lhos das formigas se explicam muitíssimo bem pelo prin­
cípio "da iniciativa individual seguida da im itação". Esta 
iniciativa é sempre uma inovação, uma invenção igual às 
nossas em arrojo de espírito. Para ter a ideia de cons­
truir um arco, um túnel aqui ou acolá, antes aqui do 
que acolá, uma formiga deve ser dotada de uma inclina­
ção inovadora que iguala ou ultrapassa