psicologia_do_desenvolvimento
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a interdependência \u2013 
presentes nas etapas de desenvolvimento da criança.
 Entender o desenvolvimento da criança sob a ótica vygotskyana pode ser 
uma forma de eliminar as propostas unidirecionais das teorias em Psicologia. 
Vygotsky fez parte do grupo de pensadores que, na sua época, buscaram re-
formular a Psicologia, dando a ela, novamente, um caráter de ciência social, 
e não biológica, somente. Ele criticava, veementemente, as perspectivas te-
óricas, em Psicologia, baseadas em trabalhos comparativos entre animais e 
Bases epistemológicas de Vygotsky
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humanos, que não consideravam o legado da história do desenvolvimento 
cultural da humanidade. Vygotsky tentou elaborar, na sua breve vida acadê-
mica, uma teoria onde cada indivíduo aparece como ativo participante de 
sua própria existência, construída na inter-relação com outros sociais. Para 
ele, a cada estágio do desenvolvimento, a criança adquire a capacidade com 
a qual ela pode, competentemente, afetar o seu meio social e a si mesma. 
(Vygotsky, 1966, p. 123)
Atividades
1. De acordo com a perspectiva sociointeracionista de Vygotsky, como ocorre a 
construção da inteligência?
2. Para Vygotsky, como a criança interioriza o mundo ao seu redor?
3. Explique o que Vygotsky quer dizer com \u201cformas típicas do comportamento 
humano\u201d.
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Psicologia do Desenvolvimento
Dicas de estudo
MORTIMER, Eduardo Fleury; SMOLKA, Ana Luísa B. (Orgs.). Linguagem, Cultura e 
Cognição: reflexões para o ensino e a sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
Indicação de filme: Nell (EUA, 1994). Direção de Michael Apted.
Nell, a personagem principal é interpretada por Jodie Foster. O filme retrata 
a vida de uma jovem de aproximadamente 30 anos de idade que foi encontra-
da em uma casa abandonada após a morte de sua mãe, que era uma eremita. 
Nell vivia isolada do mundo moderno e reproduzia sons incompreensíveis. Havia 
recebido poucos estímulos para falar e também era afásica, isto é, apresentava 
uma patologia que afetava sua linguagem e sua comunicação. Foi encontrada 
por um médico que buscou integrá-la à sociedade. É interessante conferir como 
foi o processo de \u201chumanização\u201d de Nell.
Bases epistemológicas de Vygotsky
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O processo de humanização
Para discutir as características tipicamente humanas, Vygotsky analisa o 
comportamento animal. A comparação entre o comportamento humano 
e o comportamento animal é encontrada em diferentes momentos de sua 
obra. Em Formação Social da Mente, ele analisa as mais diferentes corren-
tes psicológicas da época e critica o uso de comportamentos animais para 
explicar os comportamentos humanos. E, por outro lado, analisa que os 
fatores considerados inerentes à natureza humana também não são de-
terminados apenas pelas características biológicas.
Segundo Vygotsky, existem alguns traços característicos do comporta-
mento humano:
qualquer comportamento de um animal conserva uma ligação dire- \ufffd
ta com os motivos biológicos;
o comportamento humano não é determinado por estímulos \ufffd
imediatos;
existem diferenças nas fontes do comportamento do homem e \ufffd
do animal.
O primeiro aspecto fica claro quando percebemos que a atividade 
animal está relacionada a comportamentos de espécie, ou seja, compor-
tamentos ligados ao instinto animal. Lorenz (apud PINO, 2000) fala da exis-
tência de \u201cmecanismos inatos deslanchadores da ação\u201d que permitem que 
os animais reajam de forma \u201csensata\u201d aos sinais emitidos por outros ani-
mais. Esses sinais seriam ativados em situações de ameaça, fome ou perigo 
para a sobrevivência de si ou do grupo. Esse viés instintivo se tornou muito 
marcante na Psicologia, com o comportamento humano sendo atribuído 
a porções instintivas do cérebro humano, o que se correlaciona a condu-
tas predeterminadas.
Durante muitos anos, a Psicologia acreditou que algumas reações hu-
manas aos reflexos eram instintivas, parecidas com as dos animais. A Psi-
cologia histórico-cultural de Vygotsky trouxe novos elementos e interpre-
tações para esses processos. Segundo Vygotsky (1988), algumas reações 
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Psicologia do Desenvolvimento
humanas são instintivas, mas também podem ser culturalmente elaboradas. 
Alguns acontecimentos de uma vida em grupo, por exemplo, podem provocar 
reações emocionais diferenciadas que variam de cultura para cultura.
Assim sendo, o segundo aspecto se torna claro à medida que percebemos 
que as características do comportamento humano são maiores que a mera sen-
sorialização dos estímulos ambientais: existe no comportamento humano uma 
elaborada forma de análise e representação dos elementos indicativos do am-
biente, o que implica uma interpretação desses elementos. As relações como 
\u201ccheiro de fumaça = fogo\u201d, características do comportamento de fuga dos ani-
mais, são diferentes no comportamento humano. Existe uma reflexão contex-
tual em que a análise de bens, valores e condição de enfrentamento está posta 
como prioritária na resposta do humano ao específico sinal do ambiente.
O terceiro aspecto posto na diferenciação entre o comportamento humano 
e o comportamento animal está relacionado às fontes do comportamento. A 
vida em grupo trouxe desafios de sobrevivência além do caráter natural: a busca 
de comida e o ritual de caça trouxeram novas formas para o comportamento 
humano. A necessidade de interpretar os sinais da caça e a elaboração de modos 
de captura e apreensão modificaram o comportamento inteligente, fazendo 
com que o homem criasse instrumentos que lhe permitiram modificar profun-
damente sua relação com o ambiente natural.
Nos seus estudos sobre a evolução da atividade humana, subsidiados pela 
perspectiva sócio-histórica de Vygotsky e pelos fundamentos da História, da Filo-
sofia e da Antropologia, Palangana (1995) demonstrou que a linhagem humana 
sofreu uma transformação significativa quando os nossos ancestrais passaram 
da condição de arborícolas para a de terrícolas. A alimentação semicarnívora 
modificou características físicas e psíquicas dos homens, bem como possibilitou 
a invenção da agricultura e estratégias específicas para o cultivo da terra. De 
acordo com a autora:
A vida na terra liberou as mãos da constante tarefa de preensão e, ao mesmo tempo, obriga 
os hominidas a lidar com os perigos imanentes à diferente realidade em que se encontravam. 
Esses fatos se completam: as mãos estão disponíveis a uma necessidade emergente, qual seja, 
usar instrumentos para se defender e, igualmente, para garantir o sustento. Tais condições de 
subsistência modificam a forma das mãos e mais, imprime-lhes habilidades e destrezas antes 
inexistentes. A mão humana é um órgão de trabalho e, concomitantemente, produto dele. 
Mas, ela não é parte independente do resto do corpo. É, isto sim, membro de um organismo 
integrado e extremamente complexo. Os benefícios processados pelas mãos repercutem no 
corpo do qual é parte. Assim, as novas habilidades e destrezas estão nas mãos, no pensamento 
e no mundo. (PALANGANA, 1995, p. 21-22)
O processo de humanização
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A partir dessa citação, é possível verificar como o uso das mãos foi sendo apri-
morado ao longo da evolução da espécie humana. A convivência coletiva entre 
os povos primitivos também trouxe a divisão de tarefas, a necessidade de comu-
nicação e o aparecimento da consciência humana relacionada ao trabalho.
Vygotsky considerava que os comportamentos humanos correspondentes à 
história da evolução das espécies são chamados de filogênese. O fato do homem 
se tornar bípede e usar as mãos são características que foram se impondo ao 
longo da história. Esse aspecto permitiu ao homem desenvolver a coordenação 
motora fina e o movimento de pinça, que possibilita a escrita. Outra caracte-
rística da filogênese humana diz respeito à flexibilidade do nosso cérebro, que 
permite que ele se adapte às mais variadas situações. O homem