psicologia_do_desenvolvimento
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com esses objetos. Assim, os objetos 
assumem papel importante na construção do psiquismo infantil ao permitirem 
à criança, tanto conhecer suas próprias características, como estabelecer víncu-
los entre o adulto e ela, fortalecendo os aspectos psicoafetivos. Assim, os obje-
tos e as relações são fortalecidos por desafios gradativamente mais elaborados, 
causando o avanço do desenvolvimento infantil. Os objetos novos apresentados 
crescem em complexidade e desafio aos processos cognitivos da criança. Esses 
instrumentos de estimulação levam a criança a construir formas mais elaboradas 
de atividade e a isso chamamos inteligência prática.
Oliveira (1999) descreve que os animais, principalmente os chimpanzés, pos-
suem a inteligência prática. Eles são capazes de usar meios indiretos \u2013 como 
varas e paus, por exemplo \u2013 para alcançarem seus alimentos. Os animais também 
possuem estratégias diferenciadas para brincar com os objetos da natureza. To-
davia, esse modo de funcionamento intelectual dos animais independe da lin-
guagem. Embora emitam sons e gestos e desenvolvam ações para resolver seus 
problemas, os animais possuem uma linguagem pré-verbal e não conseguem 
A função do instrumento, do símbolo e da linguagem no desenvolvimento humano
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operar com signos. A associação entre pensamento, linguagem e operação com 
signos é uma característica especificamente humana que a criança vai incorpo-
rando ao longo do seu processo de desenvolvimento.
O papel da linguagem e 
da fala no desenvolvimento humano
A linguagem verbal e a escrita são características essencialmente humanas. 
A linguagem é um sistema simbólico de todos os grupos humanos. Vygotsky 
(1987) considerava que a associação entre pensamento e linguagem surgiu na 
espécie humana pelos intercâmbios estabelecidos do homem através do traba-
lho. Oliveira (1999) descreve que a perspectiva vygotskyana defende a ideia de 
que o trabalho exigiu do homem a utilização de instrumentos para transformar 
a natureza, assim como a necessidade de planejamento, ação coletiva e comuni-
cação social. Dessa maneira, o homem começou a operar com signos e símbolos 
para se fazer compreender.
Oliveira (1999, p. 45) considera que \u201co surgimento do pensamento verbal e 
da linguagem como sistemas de signos é um momento crucial do desenvol-
vimento da espécie humana, momento em que o biológico se transforma no 
sociocultural\u201d.
Cabe lembrar que, assim como essa atividade inteligente se desenvolve pela 
relação da criança com o objeto, a fala assume papel importante nesse processo. 
Para o desenvolvimento da fala até a chegada na linguagem, a criança vai par-
ticipar de diferentes processos interativos e chegará o momento em que ela irá 
superar os limites da corporeidade. No início do seu desenvolvimento, a crian-
ça consegue mamar e respirar ao mesmo tempo, conforme o desenvolvimento 
maturacional, visto que a laringe ainda não está posicionada, em decorrência da 
imaturidade neurológica.
Com o desenvolvimento do sistema nervoso e a sustentação da cabeça, a 
criança passa a poder produzir sons involuntariamente. Essa postura chama a 
atenção do adulto, que vem ao encontro da criança para então criar um jogo de 
vocalizações e sorrisos que proporcionará à criança relações afetivas que a in-
centivarão à continuidade desse jogo posteriormente. Inicia-se, assim, uma co-
municação entre adulto e criança, sendo que esta, mesmo que ainda desprovida 
da linguagem, inicia-se num processo de interação com o outro.
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Psicologia do Desenvolvimento
As pessoas que cuidam diariamente de uma criança pequena sabem identi-
ficar os sons que o bebê emite para obter o que deseja. O choro, por exemplo, é 
a primeira forma de comunicação humana. A mãe consegue identificar, ouvindo 
o choro da criança, quando ela está com cólica, fome, ou mesmo quando está 
indisposta. Por meio do não-verbal e dos gestos, o bebê consegue mobilizar o 
outro e dizer o que deseja para aqueles que cuidam dele.
Gradativamente, as vocalizações são substituídas por imitações dirigidas pela 
linguagem da mãe, que estimula a criança a pronunciar sílabas e pequenas falas 
repetidas, como mama e papa. A aprovação e o sorriso da mãe para a crian-
ça que repete com acerto provoca jogos afetivos de aceitação. Assim, a criança 
passa a ser estimulada para a continuidade do jogo, pois cada vez mais é tratada 
como uma pessoa.
Nessa fase, a imitação é um dos principais aspectos do desenvolvimento 
humano. Quando a criança é pequena, a imitação não é um processo mecânico. 
O bebê não reproduz os sons que sua mãe realiza com ele como um papagaio, 
mas reelabora as instruções fornecidas pela mãe. A imitação é um processo com-
plexo. Para imitar, é preciso se colocar no lugar do outro, interiorizar os gestos, 
sons e significados. Newman e Holzman (2002) consideram que, na perspectiva 
histórico-cultural, a imitação representa um processo revolucionário, pois é fun-
damental para a criação de significados e para a aprendizagem.
A imitação é importante porque é o meio pelo qual a criança se coloca na 
frente do que realmente é. Ou seja, os pais se surpreendem quando observam 
as crianças reproduzindo uma ação ou palavra depois de horas ou dias do fato 
ocorrido. Os pais percebem que as crianças são capazes de outras ações, supe-
riores àquelas que eles imaginam. Por isso, afirma-se que na imitação a criança 
está à frente do seu tempo. Nas atividades de interação imitativa, nos jogos de 
linguagem, a criança aprende que é um aprendiz, um falante, uma pessoa que 
observa, interage e constrói conhecimentos.
Esse jogo se desenvolve até a chegada das primeiras palavras, e depois serão 
as primeiras frases ou palavras-frases. Nessas trocas, o importante é que sempre 
passa a existir um objeto entre a ação do adulto e a fala da criança: a linguagem 
da criança não surge de uma relação espontânea da mente, mas o agir, o pegar e 
o falar circulam nas representações entre adulto e criança. Isso é destacado por 
Vygotsky, que afirma que \u201cas crianças resolvem suas atividades práticas com a 
ajuda da fala, assim como dos olhos e das mãos\u201d (1994).
A função do instrumento, do símbolo e da linguagem no desenvolvimento humano
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Vygotsky (1988) considera que, na criança pequena, o desenvolvimento da 
linguagem manifesta-se por meio da fala egocêntrica. Nessa fase, as vocaliza-
ções da criança estão voltadas para ela mesma. Com o processo de desenvolvi-
mento, a criança vai aprimorando a sua fala, mas descobre que ainda é incapaz 
de resolver um problema por si mesma, percebe que sua linguagem é precária. 
Dessa maneira, pede ajuda verbal aos adultos para encontrar uma solução. Se-
gundo Vygotsky (1988, p. 30), nesse período, as crianças \u201capelam para os adul-
tos\u201d para buscar resolver o que não conseguem.
As crianças pequenas são capazes de ações como pegar uma cadeira e alcançar 
o objeto que desejam, realizar pequenas solicitações aos adultos \u2013 pedir água, por 
exemplo \u2013 mas ainda não conseguem usar a linguagem para pedir ajuda ou so-
lucionar os seus problemas. Quando as crianças conseguem atingir esse momen-
to, considera-se que elas adquirem, conforme Vygotsky, a fala socializada. Porém, 
para que consigam atingir essa forma de comunicação, há um longo processo.
Desse modo, enquanto fala e interage com os objetos, a criança vai construin-
do representações entre essas funções, até que possa comunicar por si mesma 
o que está querendo e agindo. O momento em que ela produz a sua própria 
linguagem é caracterizado por Vygotsky como o mais importante na história do 
seu desenvolvimento cognitivo:
O momento de maior significação no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem 
às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e 
a atividade prática, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, 
convergem. (1994,