psicologia_do_desenvolvimento
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isso ao entrarmos 
em um supermercado: em cada corredor, existe a representação de um 
segmento produtivo da sociedade, seus produtos e diferentes modos de 
produção, seus nomes relacionados ao custo e à qualidade, demonstran-
do como e de que diversidade vive a sociedade. Esses produtos são in-
dexados e classificados conforme suas características de produção, suas 
características físicas, de utilidade e sua importância na cadeia social.
Enquanto ser em processo de apropriação dos elementos culturais, 
e estando em fase de construção de um vocabulário que a permita en-
tender usos e funções dos objetos e instrumentos sociais, a criança então 
quer (assim como antes queria com os objetos, na sua primeira infância) 
apropriar-se dos nomes e funções desses produtos. Ela está tomando cons-
ciência de que, quanto mais puder se apropriar desses referenciais, mais 
será tratada como um ser de participação no contexto social. Como já faz 
uso da linguagem como instrumento de interação entre ela e aquele que 
sabe do mundo exterior, a criança vai desenvolver modos de se apropriar 
da experiência do outro para que também ela possa conhecer o mundo. 
Descobrindo gradativamente a linguagem como um instrumento simbó-
lico que lhe permite interagir, ela percebe ou toma consciência de que não 
precisa mais experimentar fisicamente todos os objetos para então saber 
seu nome e sua função: agora ela possui a linguagem que lhe permite 
tomar posse da experiência do outro para construir uma representação 
própria do mundo externo.
É claro que as mãos e a experimentação ainda estão presentes e que o 
agir ainda é necessário, mas a palavra abriu as portas de uma possibilidade 
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de vivenciar (seja por meio dos instrumentos sociais de comunicação, seja pela 
manipulação direta do objeto) a condição de construir internamente os seus 
próprios conceitos sobre a sociedade.
Para a criança construir os conceitos sobre o mundo ao seu redor, ela precisa 
interagir com esse mundo e suas representações. O ambiente que cerca a crian-
ça foi construído historicamente e é conceituado. Os homens, ao organizarem as 
cidades, as casas, seus espaços e costumes, foram organizando a sociedade em 
categorias e realizando agrupamentos. É possível verificar esses aspectos desde 
a organização estrutural de uma casa, seus objetos e mobiliários. Esses elemen-
tos são organizados conforme a concepção de espaço e os valores de cada povo 
e sociedade. Os adultos, quando nomeiam os objetos e ensinam seus nomes e 
funções para as crianças, estão fazendo a mediação desses conhecimentos para 
essas gerações.
Os sujeitos de interação 
como mediadores de conceitos
Um conceito central na teoria de Vygotsky é o conceito de mediação. Quando 
se diz que o adulto faz a mediação do conhecimento para a criança, isso significa 
afirmar que a relação da criança com uma informação recebida não é uma rela-
ção direta, mas uma relação mediada pelo adulto. Oliveira (1990, p. 51) descreve 
de forma expressiva como ocorrem essas mediações através da linguagem:
A linguagem intervém no processo de desenvolvimento intelectual da criança praticamente já 
desde o nascimento. Quando os adultos nomeiam objetos, indicando para a criança as várias 
relações que estes mantêm entre si, ela constrói formas mais complexas e sofisticadas de 
conceber a realidade. Sozinha, não seria capaz de adquirir aquilo que obtém por intermédio 
de sua interação com os adultos e com as outras crianças, num processo em que a linguagem 
é fundamental. Quando uma mãe passeia com seu filho na rua, ela destaca para ele alguns 
objetos, as casas, as crianças etc. Ao agir assim, a mãe dá elementos que organizam a percepção 
da criança: chama a atenção para determinados aspectos, negligencia outros. Auxiliada na 
discriminação central e do irrelevante, a criança pode, posteriormente, ser capaz de exercê-la 
por si só ao tentar compreender o ambiente.
Dessa maneira, a criança vai construindo significados a partir das interações 
mediadas pelos adultos. Com o tempo, a criança passa a utilizar-se de gestos e 
palavras para se fazer compreender e também para controlar as suas próprias 
ações. A mediação passa a ocorrer, portanto, não somente de forma externa, 
mas internamente, pois a criança, ao controlar as suas ações, está auto-regulan-
do os seus comportamentos através da utilização dos significados apropriados 
dos gestos e palavras. Saber os usos apropriados dos gestos e palavras de sim e 
A formação de conceitos elementares
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não é um desses exemplos. A criança aprende esses significados quando toma 
consciência da sua ação, a qual foi mediada pelo adulto.
Como percebemos, a sociedade definiu a criança pela linguagem e a con-
ceituou pela ação. Isso ocorre com a criança utilizando seus próprios recursos 
de interação, apontando, usando o gesto como um aproximador entre o que 
o outro pensa e o que ela pensa. A criança pergunta como forma de entender 
o que o outro representa, como a forma e o uso dos objetos para ela mesma 
construir, internamente, em sua mente, a sua representação do objeto indicado. 
Pino (2000) expressa essa função ao explicar o papel da mediação semiótica, ou 
sígnica, na construção do psiquismo infantil:
ele relata uma \ufffd função indexical, em que o signo está preso ao objeto e, as-
sim, a criança aponta, mostra e pede o nome como forma de representar 
internamente a representação do objeto;
e também nos fala de uma \ufffd função simbólica, em que o objeto já está inter-
nalizado e o sujeito já pode manifestar seu uso e sua função a partir desse 
conceito internalizado.
Vygotsky considera que o signo é uma espécie de instrumento psicológico 
utilizado pelo homem. É por meio do signo (palavras, desenhos, símbolos) que 
as pessoas representam os objetos, tornam presente o que está ausente e se re-
cordam de fatos ocorridos. No processo de desenvolvimento da linguagem e de 
construção de significados, é possível observar como os homens fazem uso dos 
instrumentos verbais. É fácil observar crianças bem pequenas, quando come-
çam a falar, utilizarem da expressão au-au para se referirem a todos os animais 
que encontram. Esse pensamento é considerado generalizante. Quando vai in-
ternalizando que existem diferentes raças de cachorro, por exemplo, a criança 
vai construindo novos significados e começa a aprender a nomear esses animais 
a partir das classes a que eles pertencem. Ela também compreende diversos sím-
bolos a partir do momento em que precisa fazer uso desses símbolos. O próprio 
desenvolvimento da linguagem vai exigindo a elaboração de novos conceitos.
Porém, é preciso considerar que as crianças pequenas apresentam dificul-
dades para entender todos os significados presentes em uma língua. A criança 
interage com uma diversidade de palavras e conceitos desde que nasce. As di-
ferenças de linguagem, mesmo dentro de um mesmo país, fazem com que as 
crianças fiquem confusas em relação aos verdadeiros significados das palavras, 
dos objetos e suas funções.
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Vygotsky também deixa claro que esses processos são multideterminados 
pelo contexto e pela significação que esses elementos tomam na cultura e 
na sociedade em que estão inseridos. Tomemos como exemplo as múltiplas 
formas de representar, pela linguagem, certas frutas (mimosa, tangerina, ber-
gamota etc.). Uma outra palavra referente a um objeto relativo ao material 
escolar também é um desses exemplos. Em São Paulo, o utensílio para guar-
dar lápis, borrachas e canetas é chamado de estojo. Já no Paraná, esse mesmo 
objeto é denominado de penal.
As diferenças linguísticas mostram que existem formas variadas de se dizer 
uma mesma palavra. Essas variações estão associadas ao contexto e à cultu-
ra em que esses conceitos estão inseridos. Na concepção histórico-cultural, a 
utilização dos instrumentos