psicologia_do_desenvolvimento
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objetos etc. O último exemplo refere-se 
ao artificialismo, a característica de atribuir ao homem a criação de fenômenos 
naturais.
O pensamento pré-operatório é dependente da percepção imediata e por 
isso está sujeito a erros. Para poder analisar esses processos, foram desenvolvi-
das provas para que Piaget pudesse avaliar as características de como esse pen-
samento ocorre. Para tanto, um conceito estava presente: a conservação. Para a 
criança, a conservação implica perceber que os objetos podem ser manipulados 
sem serem alterados em suas características materiais. Depois de suas testagens, 
Piaget afirmou que a criança em período pré-operatório não faz processos con-
servativos, respondendo de modo individual, o que é marca do egocentrismo 
do pensamento.
Foram várias as provas de conservação e podemos citar a de massa: uma 
massa de modelar recebe, sucessivamente, novas e diferentes formas, e então se 
argui se há maior quantidade de massa nas transformações ou na massa original. 
As provas foram de volume e transvazamento de líquidos, peso e quantidade de 
matéria, como no exemplo abaixo.
Pergunta-se se há maior quantidade de fichas na primeira ou na segunda fi-
leira. Muitas vezes, conseguindo contar as fichas, a criança, ao vê-las separadas 
ou na ação de separar, acaba por confundir o espaçamento com a quantidade e 
afirma que a inferior está maior porque está mais comprida. Essa mesma tendên-
cia aparecerá nas provas de conservação de volume, peso e massa.
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Psicologia do Desenvolvimento
O egocentrismo aparece também quando se trata do aspecto social. Uma 
criança não entenderá que a mãe está cansada e por isso o passeio ao parque 
ficará para mais tarde, visto que a criança está disposta para isso naquele 
momento.
Nessa fase, a criança não consegue perceber o ponto de vista do outro: o 
mundo gira ao redor da criança. Por isso o termo egocentrismo = ego (\u201ceu\u201d) + 
centrismo. Para Piaget, a criança egocêntrica também é pouco sociável e não 
consegue partilhar seus brinquedos, nem seus objetos e nem mesmo o carinho 
dos seus pais com outros irmãos.
A linguagem terá características muito especiais, pois combinará coerência e 
o produto da imaginação da criança pré-operatória. Assim, a criança apresentará 
argumentos socialmente aceitos e, em contraponto, manifestará o egocentris-
mo do seu pensamento quando precisar expressar o seu mundo interior.
O estágio operatório concreto
Em torno do sétimo ano de vida, o estágio do operatório concreto passa a 
manifestar-se de modo mais evidente, o que coincide (ou deve coincidir) com 
o início da escolarização formal. Nesse momento, o declínio do egocentrismo 
passa a ser mais visível.
É nesta etapa que o pensamento lógico, objetivo, adquire preponderância. As noções 
interiorizadas vão se tornando mais reversíveis e, portanto móveis e flexíveis. O pensamento 
torna-se menos egocêntrico, menos centrado no sujeito. Agora a criança é capaz de construir 
um conhecimento mais compatível com o mundo que a rodeia. O real e o fantástico não mais 
irão misturar-se em sua percepção. Além disso, o pensamento dominante é o operatório 
porque ele é reversível: o sujeito pode retornar, mentalmente, ao ponto de partida. (DAVIS; 
OLIVEIRA, 1994, p. 44)
O declínio do egocentrismo se estende à linguagem, que se torna mais socia-
lizada, e a criança será capaz de levar em conta o ponto de vista do outro. Assim, 
objetos e pessoas passam a ser mais bem explorados nas interações da criança 
e ela buscará, com a linguagem e o uso dos objetos que ela está explorando 
construir conceitos próprios a partir de sua ação exploratória.
Nesse estágio, a criança já consegue classificar os objetos de acordo com a 
cor, a forma e o tamanho. A criança também tem a noção de inclusão de classe, 
compreendendo que um mesmo objeto pode pertencer a duas classes. Barros 
(1993) cita alguns exemplos de provas piagetianas aplicadas no período operató-
rio concreto, que vai dos 7 aos 11 ou 12 anos de idade. Nesse período, as crianças 
Estágios do desenvolvimento da teoria piagetiana
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conseguem classificar e entender que as rosas vermelhas são subespécies da 
classe das rosas. Também compreendem operações matemáticas que envolvem 
relações entre maior, menor, números crescentes, números decrescentes etc. No 
entanto, elas apresentam dificuldades para realizar operações aritméticas mais 
complexas. Por isso, esse estágio é denominado pré-operatório, pois as crianças 
ainda não conseguem abstrair essas operações. Nessa fase, as operações da in-
teligência infantil precisam ser trabalhadas a partir do concreto.
Nesse estágio, também, algumas características das crianças começam a ser 
aprimoradas, tais como: elas começam a se concentrar mais individualmente nas 
atividades, colaboram mais efetivamente com os colegas e trabalhos em grupo, 
exercitam mais a reflexão, possuem um sentimento maior de justiça, responsabi-
lidade e respeito mútuo, bem como possuem uma fidelidade grupal.
O estágio operatório formal
O estágio das operações formais apresenta características bem próximas da-
quelas que os adultos estão elaborando. Por volta dos 12 anos de idade, a crian-
ça vai se distanciando daquelas operações concretas.
Se no período das operações concretas a inteligência da criança manifesta progressos notáveis, 
apresenta por outro lado ainda algumas limitações. Talvez a principal delas, [...] implícita no 
próprio nome, relaciona-se ao fato de que tanto os esquemas conceituais como as operações 
mentais realizadas se referem a objetos ou situações que existem concretamente na realidade. 
(RAPPAPORT, 1981, p. 74)
Essa necessidade da presença do objeto vai sendo gradativamente substitu-
ída por hipóteses e deduções, o objeto vai sendo substituído pelo pensamen-
to formal, simbólico, no qual o objeto é reconstruído internamente em todas 
as suas propriedades físicas e lógicas. Dessa forma, a criança começa a operar 
apenas com a imaginação e o pensamento formal, e seu pensamento assume 
um caráter hipotético-dedutivo.
Oliveira (1994) considera que o estágio operatório formal é muito pouco es-
tudado e, no entanto, é um dos mais importantes para a compreensão de como 
o jovem conquista as estruturas lógicas elementares, organiza o espaço, conse-
gue distinguir entre diferentes pontos de vista e construir conceitos.
Para Oliveira (1994), de acordo com a teoria piagetiana, o período operató-
rio formal corresponde à faixa etária de 11/12 a 15/16 anos. Portanto, essa fase 
envolve crianças, pré-adolescentes e adolescentes. Nesse período, uma das 
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Psicologia do Desenvolvimento
características mais importantes do pensamento é a mobilidade/flexibilidade. 
No aspecto da linguagem, os jovens já conseguem argumentar o que desejam 
e trabalhar com significantes mais complexos (os signos). No que se refere ao 
social, a vida em grupo é um aspecto significativo, junto com o planejamento de 
ações coletivas. A solidariedade, a amizade, os juízos de valor e os juízos morais 
também se fazem presentes.
Essas noções morais são desenvolvidas no pensamento das crianças desde o 
estágio operatório concreto. Todavia no estágio formal, na adolescência, o jovem 
começa a elaborar de forma mais abstrata conceitos de política, ética, respeito, 
cidadania e também amor. Esta é uma fase de formulação de sistemas e teorias. 
Os adolescentes desejam mudar o mundo através de formas revolucionárias ou 
messiânicas. Eles também se reúnem em grupos e trabalham tanto a coação 
entre os seus colegas (querendo impor pontos de vista), como a reciprocidade 
(discutindo democraticamente os problemas).
Texto complementar
A importância do desenvolvimento humano
(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2002, p. 98-99)
A criança não é um adulto em miniatura. Ao contrário, apresenta caracte-
rísticas próprias de sua idade. Compreender isso é compreender a importân-