psicologia_do_desenvolvimento
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1934 
Wallon escreveu o livro As Origens do Caráter na Criança, no qual abordou a evo-
lução do comportamento emocional nas pessoas desde os primeiros reflexos do 
recém-nascido até a fase adulta. Ele analisou o paradoxo das emoções, antagonis-
mos, aspectos do psiquismo e as relações da emoção entre o corpo e a mente.
Wallon também foi eleito deputado no Parlamento francês. Na década de 1940, 
a França enfrentava muitos problemas com as suas colônias e procurava reconstruir 
sua economia. Esse foi um período de instabilidade política no qual Wallon realizou a 
maior parte de sua produção acadêmica. Galvão (1995) considera que Wallon viveu 
em uma época de muita turbulência política, o que marcou profundamente suas 
obras. As duas guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) e o avanço do fascismo fi-
zeram com que ele refletisse sobre a influência do meio no comportamento das pes-
soas, sobre a questão dos conflitos, do movimento, das contradições e a formação 
das emoções. Zazzo (apud GALVÃO, 1995, p. 17) afirma que Wallon foi \u201cum homem 
da contradição num mundo de contradições, numa sociedade, num universo com 
conflitos cada vez mais agudos, cada vez mais explosivos\u201d.
As obras de Wallon apresentam uma linguagem do materialismo histórico, 
uma mescla de análises políticas com linguagem médica para a interpretação 
das relações sociais e emocionais dos sujeitos. Por isso, muitas de suas obras 
não são de fácil compreensão. Segundo Almeida (1999), Wallon foi chamado 
de organicista no início de sua carreira. Todavia, com o tempo, a sociedade 
científica foi reconhecendo que a sua produção acadêmica fundamenta-se 
Wallon e a Psicologia genética
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no materialismo dialético, que busca a complementaridade dos aspectos bio-
lógicos e culturais no processo de desenvolvimento. Wallon concebia o homem 
como um ser \u201cbiologicamente social\u201d.
Wallon escreveu diversos artigos voltados para a formação do professor e a 
análise das interações em sala de aula. Segundo Galvão (1995), de 1937 a 1962 
ele trabalhou com os professores do ensino primário e entre 1946 e 1962 parti-
cipou do Grupo Francês da Educação Nova. Ele discutia o desenvolvimento na 
perspectiva médica, filosófica e psicológica.
Assim, seus interesses voltavam-se também para a Educação. Após a Segunda 
Guerra Mundial, como integrante de uma comissão nomeada pelo Ministério da 
Educação Nacional Francês, Wallon redigiu, juntamente com o físico Langevin, o 
Projeto Langevin-Wallon, cujas ideias também estão expostas no livro Psicologia 
e pedagogia. O projeto apresenta uma proposta de reforma de todo o sistema 
educacional francês no pós-guerra e suas ideias são tão avançadas que ele foi 
apenas parcialmente realizado.
O Plano Langevin-Wallon propunha uma formação integral para as professo-
ras que desejassem atuar no magistério e lhes previa bolsas de estudo. A ideia 
era democratizar a educação para favorecer ao máximo as potencialidades dos 
sujeitos e investir na educação. Mas o plano não chegou a ser concretizado.
Como foi possível verificar, Wallon buscou uma formação sólida em diferen-
tes áreas. Porém, para compor a sua teoria, a formação em Medicina foi um as-
pecto marcante. Através dos serviços que prestou como médico para as pessoas 
lesionadas de guerra, ele estudou a relação entre os ferimentos neurológicos e o 
comportamento dos sujeitos pós-guerra e percebeu que a base biológica altera-
da mudava o comportamento dos sujeitos.
Na Segunda Guerra, ele também teve contato com as discriminações impos-
tas pelo nazismo em relação às diferenciações raciais. Wallon, inconformado 
com essa questão, foi um militante ativo no movimento de resistência francesa e 
resistência ao nazismo. Essa militância oportunizou a ele o contato com o socia-
lismo e comunismo. Por isso, a influência marxista e dialética em suas obras.
Essas experiências foram fundamentando o papel de Wallon como educador na 
França. Para elaborar o Plano Langevin-Wallon de melhoria da qualidade de ensino 
francês, ele visitou várias escolas, inclusive escolas brasileiras localizadas no Rio de Ja-
neiro. A partir das observações desses diferentes campos, ele se preocupou também 
em estudar como ocorre o desenvolvimento da consciência nas pessoas.
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Psicologia do Desenvolvimento
Wallon, ao estudar as escolas e os processos de desenvolvimento das crian-
ças, começou a estabelecer comparações entre os processos educacionais e os 
biológicos. Ele percebeu que, na sua época, existia uma dicotomia na ciência na 
compreensão de como ocorre a formação da consciência, pois os pesquisadores 
concebiam os aspectos motores, afetivos e cognitivos como dissociados na for-
mação humana. Wallon já considerava a pessoa como um ser integral e preocu-
pava-se em compreender os processos que tornavam uma criança uma pessoa. 
Para entender esse processo de desenvolvimento ele elaborou um método.
Método
Para Wallon, o estudo dessa realidade movediça e contraditória que é o 
homem e seu psiquismo beneficia-se enormemente do recurso ao materialismo 
dialético, perspectiva filosófica especialmente capaz de captar a realidade em 
suas permanentes mudanças e transformações. (GALVÃO, 1995, p. 31)
A partir dessa fundamentação, Henri Wallon elaborou seu próprio método: a 
análise genética, trabalho multidimensional que consiste em uma série de compa-
rações entre diferentes realidades para esclarecer o processo de desenvolvimento. 
Nessas comparações, o fenômeno é analisado em suas várias dimensões \u2013 orgâni-
cas, biológicas, sociais \u2013, bem como nas relações entre esses vários fatores.
Wallon criou algumas explicações para as ações do sujeito. Dessa maneira, 
quando o sujeito age sobre o meio, ele está realizando ações exteroceptivas e 
quando ele retira situações do meio para analisar, ele está realizando ações inte-
roceptivas. Nesses movimentos ele integra os aspectos afetivos e cognitivos dos 
sujeitos. A partir dessa base metodológica, ele construiu alguns pressupostos de 
sua teoria que são os fundamentos epistemológicos.
Fundamentos epistemológicos
Wallon assumiu os pressupostos do materialismo dialético. A influência do ma-
terialismo nas obras de Wallon se faz presente na interação dos fatores de nature-
za orgânica com os fatores sociais no desenvolvimento dos indivíduos. Segundo 
Galvão (1995), Wallon procura superar dicotomias e dualismos. No materialismo 
histórico, busca-se a explicação dos fenômenos a partir dos vários aspectos que o 
compõem. Para ele, as mudanças e transformações históricas são fruto de ações 
sociais humanas desenvolvidas por diferentes culturas em diversos períodos. Para 
Wallon e a Psicologia genética
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exemplificar, Wallon considera que um determinado grupo social pode modificar 
estruturas biológicas em função da sua cultura: as mulheres africanas que têm 
seus pescoços alongados pelo uso de colares, ou indígenas que têm os lóbulos das 
orelhas ampliados pelo uso de brincos largos. Para algumas culturas, essas ações 
podem ser incompreensíveis; para outras, fazem parte do seu universo. Esses as-
pectos ajudam a compor as culturas humanas e suas contradições.
Ao tratarem da obra de Wallon, Marroney e Almeida (2002) nos apontam 
alguns pressupostos que embasam a teoria, conforme abaixo.
A pessoa está continuamente em processo. \ufffd
 Há um movimento contínuo de mudanças ao longo da vida de cada sujei-
to e o resultado dessas mudanças pode ser observado externamente, sen-
do que internamente existe um jogo de forças entre os conjuntos motor, 
afetivo e cognitivo.
Em cada instante desse processo, a pessoa é uma totalidade resultante da \ufffd
integração dos conjuntos motor, afetivo e cognitivo.
 Dentro dessa perspectiva, não há possibilidade de se pensar a pessoa de 
forma parcelar, pois ela é sempre uma totalidade e só pode ser pensada a 
partir dessa integração. Com essa rede de relações entre esses