psicologia_do_desenvolvimento
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uma 
dimensão paranoica. O olhar do outro devolve a imagem do que eu sou. O bebê olha para a 
mãe buscando a aprovação do Outro simbólico. (PSICANÁLISE lacaniana, 2008, p. 1)
Sales (2005) considera que Lacan, ao estudar o estágio do espelho dedica-se 
à noção de narcisismo, um conceito que teve uma força expressiva no seu pensa-
mento. Dessa maneira, na teoria de Lacan, a criança, ao olhar-se no espelho, capta 
a imagem de si e também do mundo a seu redor. Nesse processo, ela constrói a 
noção do seu eu, sua identidade e inicia o processo de diferenciação do outro. Ela 
aprende também sobre as noções de ausência e presença do outro:
A criança reconhece sua imagem no espelho com uma manifestação de júbilo e com a efetuação 
de uma operação de identificação entendida como \u201c[...] a transformação produzida no sujeito 
quando ele assume uma imagem [...]\u201d (LACAN, 1966, apud Sales, 2005). A identificação é, então, 
a parcela de atividade que cabe à criança mediante a percepção de uma imagem que lhe vem 
do exterior. Essa assunção da própria imagem pela criança é o que originalmente precipita a 
construção do \u201ceu\u201d conferindo-lhe sua forma primordial: o \u201ceu\u201d ideal, forma que será a fonte de 
todas as identificações secundárias responsáveis pela função de normalização libidinal e que 
representa o caráter estático e permanente do eu, \u201c[...] a armadura enfim assumida de uma 
identidade alienante, que vai marcar com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento 
mental\u201d (LACAN, 1966, apud Sales, 2005, p. 118)
O estágio do espelho, portanto, foi um conceito desenvolvido por Lacan para 
apresentar o processo de formação do indivíduo através da sua identificação a 
uma imagem e perceber tanto o sentimento de presença, ausência e de organi-
zação corporal.
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Psicologia do Desenvolvimento
Texto complementar
Complexo de Édipo e orientação sexual
(DESCHAMPS, 2008)
Para falar de investimentos sexuais dentro da psicanálise de Freud te-
remos que passar, necessariamente, pelo estudo do complexo de Édipo. O 
complexo de Édipo faz parte da teoria montada por Sigmund Freud e fala 
de investimentos afetivos que fazemos em nossos primeiros anos de vida, 
ligados aos nossos \u201ccuidadores\u201d (que cumprem a função de cuidados com a 
criança) e que nos ajudam a estabelecer os vínculos afetivos e o investimento 
no outro (objeto externo). Com o receio da castração, retraímos esses investi-
mentos, entramos em período chamado de latência, de onde só sairemos na 
entrada na adolescência para então buscar novos objetos de investimento, 
agora totalmente sexualizados e priorizados pela primazia do genital.
Vejamos que não se fala mais em pai ou mãe, e sim naqueles que cum-
prem essa função. O aspecto principal do Édipo em nossa formação está na 
interdição, na impossibilidade de se investir a libido em qualquer uma das 
funções, uma vez que o incesto é proibido por nossa civilização, e sendo, 
segundo Freud, aquilo que a funda.
Partimos para a vivência do complexo de Édipo munidos de nossa ener-
gia bissexual e será então que tornaremos como prioritária uma das duas 
correntes.
O complexo de castração envolve uma leitura mais literal e outra mais 
simbólica. Pode ser no Édipo a ameaça que faz com que o menino abando-
ne o desejo pela função mãe e retraia a libido, entrando na fase de latência, 
onde será constituído o superego, ou seja, a ameaça de perder o pênis ope-
rada pela função pai (lei), o interdita. No sentido simbólico dá lugar ao sujei-
to psíquico, retirando-o da relação dual (simbiótica) e inscrevendo-o em um 
mundo onde passa a existir enquanto sujeito psíquico ou sujeito desejante 
em busca do outro (não sou da mamãe e a mamãe não é minha). No lacanis-
mo, quando não há a castração teríamos o sujeito preso à relação simbiótica 
e falaríamos na psicose, porque não estará inscrito no mundo simbólico fi-
cando preso ao mundo do imaginário; já no chamado de segundo momento, 
A construção do aparelho psíquico e o estágio do espelho
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ele percebe a castração, mas nega que ela exista, tendo assim as perversões 
e no terceiro momento ele percebe e aceita a castração (teme) e teremos a 
neurose, e, se existe isso, a \u201cnormalidade\u201d do funcionamento neurótico.
Tudo isso se tornará mais complexo no que diz respeito às meninas, porque 
a castração seria na verdade não a resolução do Édipo, mas aquilo que a lança 
nele, separa-a da relação com o seu primeiro objeto de amor que é igual ao 
dos meninos \u2013 a mãe; e a lança na relação triangular fazendo investimento e 
identificações nas duas direções (feminino e masculino) até priorizar uma das 
correntes, para bem depois, de alguma forma, desistir e entrar em latência 
também. Chegam a afirmar que a mulher só resolveria a castração na vida 
adulta, quase sempre com a gravidez. Isso porque toda essa questão envolve 
ter o phalo (poder, pênis), quem tem ou quem não tem.
O menino desistirá da mãe (ou do pai), que se constituem em \u201cobjeto 
incestuoso\u201d, por medo da castração (ameaça da função pai) e entrará no 
chamado período de latência onde o interesse sexual permanece meio que 
adormecido. É aquela fase que para quem lida ou já lidou com crianças en-
contrar-se-á o clube do Bolinha e da Luluzinha, eles não se topam muito, e 
implicam uns com os outros o tempo todo. Essa fase é importante porque 
nela se estará constituindo o superego, que representará todas as normas e 
leis que seguiremos. \u201cO superego é o herdeiro do complexo de Édipo\u201d uma 
vez que é nele que viveremos a primeira grande lei ou corte representada 
pelo tabu do incesto.
O Édipo, segundo o método apontado pela teoria freudiana, seria um fe-
nômeno universal, aconteceria em todo ser humano inscrito em qualquer 
cultura, tendo no tabu do incesto seu principal postulado. Muitos antropó-
logos estruturalistas se empenharam em demonstrar o tabu do incesto em 
outras culturas. Então somos levados a ver que o que importa são as funções 
parentais (dos cuidadores) onde se localizarão o investimento e a identifica-
ção. No Édipo mais comum, descrito à larga até em tablóides, o menino se 
apaixona pela mãe, sofre a ameaça de castração pelo pai e desiste da mãe e 
passa a se identificar com o pai. (ponto) Essa é a forma mais simplista de se 
abordar esse complexo, que para rigor do método deverá sempre ser enca-
rado nas duas direções de investimento e de identificação.
Na verdade, desde o início todo sujeito psíquico fará investimento nos 
dois sentidos (bissexualidade), acabará priorizando uma das correntes de 
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Psicologia do Desenvolvimento
investimento (hetero ou homoerótico) e se identificando com um dos pro-
genitores (função pai ou função mãe). Todas as formas de investimento ou 
identificações são saídas possíveis para o complexo de Édipo, não constituin-
do qualquer anormalidade nisso.
A importância da função paterna será muito sublinhada pela corrente 
lacaniana, já que opera a castração que lança o sujeito no mundo simbóli-
co e na relação objetal. Essa função passa pela mãe necessariamente, pela 
aceitação que ela tem da lei imposta pelo pai (tabu do incesto). Esse corte 
da função pai não necessariamente virá de uma figura masculina paterna, 
mas de tudo aquilo que separa o desejo da mãe daquela criança, liberando 
a criança como ser desejante, ou como sujeito psíquico. Nesse caso as insti-
tuições sociais (como o trabalho da mãe, atividades de prazer etc.) poderão 
cumprir muito bem essa função.
Atividades
1. Freud considerava que a noção de instinto para os homens era diferente da 
noção de instinto nos animais. Explique essa afirmativa.
A construção do aparelho psíquico e o estágio do espelho
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2. Quais foram as modificações realizadas por Freud da primeira teoria do apa-
relho psíquico para a segunda teoria?
Dicas de estudo
GAY, Peter. Freud: uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 
1989.
Indicação