psicologia_do_desenvolvimento
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mãe, professora formada, dedicou-se à criação dos filhos. 
Eles foram os principais organizadores da biblioteca pública da cidade, da 
qual todos os filhos e amigos eram ativos frequentadores.
Até os 15 anos, sua educação ocorreu em casa, acompanhada pelo 
tutor Solomon Asphiz. Desde muito jovem, ele se mostrava um estudante 
dedicado, um amante das artes e da literatura. Em sua casa, havia uma bi-
blioteca onde estudava sozinho ou na companhia de amigos. Um aspecto 
marcante na sua formação foi o aprendizado de diferentes idiomas, o que 
lhe permitiu contato com textos de diversas línguas.
Aos 17 anos, completou o curso secundário, recebendo medalha de ouro 
por seu brilhante desempenho. Por sua origem étnico-religiosa, enfrentou 
dificuldades para ingressar no ensino superior: a Universidade de Moscou 
oferecia apenas 3% das vagas para estudantes judeus. Para conseguir seu 
ingresso, Vygotsky participou de um sorteio. Em 1914, iniciou seus estudos 
no curso de Medicina, opção que, apoiada por seus pais, poderia lhe pro-
porcionar uma vida estável, mas depois de um mês se transferiu para Direito 
e Literatura. Como trabalho de conclusão de curso, apresentou um estudo 
sobre Hamlet, de Shakespeare, obra que mais tarde se tornaria o livro Psico-
logia da Arte, no qual discute a influência da literatura no indivíduo.
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Psicologia do Desenvolvimento
Vygotsky começou sua carreira profissional aos 21 anos, após a Revolução 
Russa. No período entre 1917 e 1923, ele lecionou e proferiu várias palestras sobre 
temas ligados à Literatura, além de fazer crítica literária. Duas características mar-
cantes definem o estudioso nessa época: o seu retorno à medicina (mesmo já 
sendo renomado, frequentou o primeiro ano com naturalidade, junto aos alunos 
mais novos) e sua aptidão para a leitura (seu amigo Luria o definiu como um \u201cleitor 
em diagonal\u201d, sem dizer que o que Vygotsky lia não eram novelas românticas).
Seu interesse pela Psicologia surgiu de forma mais sistemática a partir do 
contato com crianças com problemas congênitos. Vygotsky trabalhou intensa-
mente no início do período pós-revolucionário e, a partir de suas experiências, 
passou a pensar em alternativas que pudessem auxiliar no desenvolvimento 
dessas crianças.
Ele estudava os problemas neurológicos das crianças para compreender o 
funcionamento psicológico do homem. Sua atividade acadêmica foi muito di-
versificada. Atuou nas áreas de Psicologia, Pedagogia, Filosofia, Literatura e de 
atendimento aos deficientes. Para entender o funcionamento da mente humana, 
iniciou suas pesquisas com crianças que não possuíam os padrões considerados 
\u201cnormais\u201d. Vygotsky considerava que era preciso ir além dos pressupostos e dos 
objetivos do desenvolvimento humano. Para ele, o desenvolvimento variava 
consideravelmente segundo as tradições e as circunstâncias culturais de dife-
rentes comunidades.
Naqueles anos, seus estudos sobre os grandes pensadores da época o co-
locaram em contato com as mais diferentes obras do seu tempo e a sua pre-
ocupação com um ideal de sociedade o faziam decisivamente mais próximo 
das obras de Marx e Engels. Em 1919, descobriu ser portador de tuberculose, 
doença que o mataria 15 anos mais tarde, mas que em momento algum lhe 
tirou a tenacidade e a obstinação.
Em sua carreira, 1924 é um marco: a partir desse ano, Vygotsky se dedicou de 
forma mais sistemática ao estudo da Psicologia, tendo realizado uma palestra no 
2.o Congresso Psiconeurológico e causado espanto e admiração em pesquisa-
dores renomados que viram aquele jovem de 28 anos abordar, com clareza e de 
forma revolucionária, as ideias acerca do estudo do comportamento consciente 
humano. Depois disso, ele foi convidado a trabalhar no Instituto de Psicologia de 
Moscou, mudando-se para essa cidade e dando início à construção de sua obra. 
Foi também aos 28 anos que ele se casou, e dessa união teve duas filhas. Em 11 
de junho de 1934, morreu em Moscou.
Vygotsky: vida e obra
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A produção de Vygotsky foi vasta. Porém, como ele faleceu aos 37 anos de 
idade, muitos de seus textos não expressavam detalhes dos seus experimentos 
e pesquisas. De todo modo, a produção de Vygotsky era revolucionária para sua 
época pelo fato de romper com a estagnação da Psicologia e das ciências edu-
cacionais de então. É preciso destacar que as obras de Vygotsky foram ignoradas 
no ocidente até 1962 por problemas políticos e pela situação de isolamento que 
a União Soviética apresentava em relação aos centros europeus e americanos de 
produção do conhecimento.
Vygotsky e a sua visão da realidade
A obra de Vygotsky é inovadora, contrapondo-se às visões correntes na sua 
época. Nas primeiras décadas do século XX, a Psicologia estava dividida em 
duas tendências.
O grupo ligado à Filosofia Empirista encarava a Psicologia como ciência na-
tural, devendo deter seu olhar na descrição das formas exteriores do compor-
tamento. Esse primeiro grupo ignorava os fenômenos complexos da atividade 
consciente, especificamente humana.
O empiristas defendiam que as pesquisas realizadas sobre o comportamento 
deveriam ser comprovadas por raciocínio dedutivo. Também enfatizavam os es-
tudos dos comportamentos observáveis e desprivilegiavam pesquisas voltadas 
para o estudo de comportamentos que se manifestavam de forma subliminar, 
ou seja, no insconsciente humano. Para os empiristas, os comportamentos de-
veriam ser analisados e testados.
O outro grupo, fundamentado na filosofia idealista, acreditava que a vida psí-
quica não pode ser alvo de estudo de uma ciência objetiva, já que era manifesta-
ção do espírito. Esse segundo grupo ignorava as funções mais complexas do ser 
humano e detinha-se na descrição subjetiva de tais fenômenos (REGO, 1995).
Os idealistas acreditavam que não era possível tratar o homem somente 
como resultado da interferência de um mundo físico e social. Eles procuravam 
entender o homem na sua totalidade, uma vez que o psiquismo sempre deveria 
ser visto na sua relação com o mundo.
No 2.o Congresso Psiconeurológico, o mais importante evento de Psicologia da 
época, Vygotsky buscou superar essa situação usando o método dialético mar-
xista ao apresentar palestra sobre A Metodologia da Investigação Reflexológica e 
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Psicologia do Desenvolvimento
Psicológica, na qual expôs as bases de um pensamento para além da perspectiva vi-
gente na Psicologia, propondo uma Psicologia de caráter materialista (MOLL, 2002).
A Psicologia materialista procurava entender os fenômenos e o psiquismo 
humano a partir da interação dos aspectos biológicos e sociais no desenvolvi-
mento. O homem, em uma relação dialética, era ao mesmo tempo produto e 
produtor das relações sociais. O cérebro, para os materialistas, não era somente 
um órgão, mas também um sistema aberto e flexível cujo funcionamento era 
construído na própria história dos homens. O desenvolvimento biológico não 
era descontextualizado, mas pensado em uma relação direta com o desenvol-
vimento social. Sendo assim, a cultura transformava as pessoas, seus valores e 
representações.
Sobre essas bases, Vygotsky pretendia construir uma nova Psicologia, uma 
teoria marxista do pensamento humano. Essa nova forma de pensar a constru-
ção do humano deveria incluir
[...] a identificação dos mecanismos cerebrais subjacentes a uma determinada função: a 
explicação detalhada da sua história ao longo do desenvolvimento, com o objetivo de 
esclarecer as relações entre formas simples e complexas daquilo que aparentava ser o mesmo 
comportamento; e, de forma importante, deveria incluir a especificação do contexto social em 
que se deu o desenvolvimento de comportamento. (COLE; SCRIBNER, 1984, p. 06)
Esse grande projeto conta com a colaboração de um grupo de pesquisadores, 
incluindo Alexander Romanovich Luria e Alexei Nikolaievich Leontiev, principais 
colaboradores de Vygotsky. Juntos,