1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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Gilles Deleuze Félix Guattari
O QUE É A FILOSOFIA?
Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz
 
Coleção TRANS
Editora !34
 
 
 
 Talvez só possamos colocar a questão O que é a filosofia? tardiamente, quando chega a velhice, e a 
hora de falar concretamente. De fato, a bibliografia é muito magra. Esta é uma questão que enfrentamos 
numa agitação discreta, à meia-noite, quando nada mais resta a perguntar. Antigamente nós a formulávamos, 
não deixávamos de formulá-la, mas de maneira muito indireta ou oblíqua, demasiadamente artificial, abstrata 
demais; expúnhamos a questão, mas dominando-a pela rama, sem deixar-nos engolir por ela. Não 
estávamos suficientemente sóbrios. Tínhamos muita vontade de fazer filosofia, não nos perguntávamos o que 
ela era, salvo por exercício de estilo; não tínhamos atingido este ponto de não-estilo em que se pode dizer 
enfim: mas o que é isso que fiz toda a minha vida? Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude 
mas, ao contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se desfruta de um momento de 
graça entre a vida e a morte, e em que todas as peças da máquina se combinam para enviar ao porvir um 
traço que atravesse as eras...
Gilles Deleuze e Félix Guattari
 
 Pode-se falar, hoje, de um profundo mal-estar na filosofia. Um pouco por toda parte encontramos a 
expressão de uma espécie de desencanto: como se a filosofia passasse, como um todo, por um processo de 
banalização. Processo que não é indiferente à hegemonia crescente da filosofia escolar ou universitária, à 
"civilização do papel" que fustigavam, nela identificando sintoma de decadência, pensadores tão diferentes 
como Wittgenstein e Merleau-Ponty. Por contraste, tanto maior é o prazer, cada vez mais raro, de ler um belo 
livro de filosofia, como é o caso desta obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
 A qualidade do livro transparece já na originalidade de seu estilo alegre. A gravidade da questão, que 
não é uma questão preliminar ou retórica, não exclui o humor \u2014 antes o exige. Nem poderia ser de outra 
maneira, quando abandonamos a esfera técnica da análise conceituai, para mergulhar na tarefa propriamente 
filosófica da construção conceituai.
 Já no primeiro capítulo, o leitor tem acesso ao ponto de vista crítico que está na raiz da virulência desta 
concepção e desta prática da filosofia. Arrisquemos uma fórmula: não há nenhum solo pré-filosófico, 
susceptível de determinação positiva, seja a linguagem comum, seja o Lebenswelt, que possa servir de pano 
de fundo ou de guia para a análise conceituai. A invenção ou a produção dos conceitos remete à instauração 
de um "plano de imanência" que, podendo embora ser caracterizado como "pré-filosófico", não deixa de ser 
contemporâneo e indissociável dessa invenção e dessa produção. De alguma maneira e inesperadamente, a 
esfera do pré-filosófico se revela como posí-filosófica. O chão se abre sob nossos pés e experimentamos a 
vertigem do pensamento.
 Mas, sobretudo, essa radiografia da filosofia, através das noções básicas de conceito, plano de 
imanência e personagem conceituai, ganha vida nos inúmeros exemplos que se sucedem. O trabalho do 
filósofo é aqui amparado pelo do historiador da filosofia \u2014 mesmo breves, são particularmente iluminadoras 
as análises da instituição da filosofia nas obras de Platão, Descartes, Kant, etc.
 O que este livro nos oferece é a compreensão do que há de vertiginoso na filosofia \u2014 mas também, e 
seguindo o mesmo movimento de pensamento, do que há de vertiginoso na ciência e na arte. Filosofia, 
ciência e arte são planos irredutíveis, mas podem ser explorados segundo uma mesma estratégia; às três 
instâncias da instauração filosófica, corresponderão instâncias simétricas da instauração artística e científica: 
"plano de imanência da filosofia, plano de composição da arte, plano de referência ou de coordenação da 
ciência; forma do conceito, força da sensação, função de conhecimento; conceitos e personagens 
conceituais, sensações e figuras estéticas, funções e observadores parciais".
 Ao abrir este livro, caro leitor, você poderá descobrir, com alegria, que a filosofia está viva e não 
consiste apenas em objeto de interesse filológico.
Bento Prado Jr.
 
 
O QUE É A FILOSOFIA?
 
 Introdução - Assim Pois a Questão ............... 7
 
I. FILOSOFIA
 O que é um Conceito? ............... 25
 O Plano de Imanência ............... 49
 Os Personagens Conceituais ............... 81
 Geo-filosofia ............... 111
 
II. FILOSOFIA, CIÊNCIA LÓGICA E ARTE
 Functivos e Conceitos ............... 151
 Prospectos e Conceitos ............... 175
 Percepto, Afecto e Conceito ............... 211
 Conclusão - Do Caos ao Cérebro ............... 257
 
 
 
Introdução Assim Pois a Questão...
 
 Talvez só possamos colocar a questão O que é a filosofia? tardiamente, quando chega a velhice, e a 
hora de falar concretamriile. I )e lato, a bibliografia e muito magra. Esta é uma questão que enfrentamos numa 
agitação discreta, à meia-noite, quando nada mais resta a perguntar. Antigamente nós a formulávamos, não 
deixávamos de formulá-la, mas de maneira muito indireta ou oblíqua, demasiadamente artificial, abstrata 
demais; expúnhamos a questão, mas dominando-a pela rama, sem deixar-nos engolir por ela. Não 
estávamos suficientemente sóbrios. Tínhamos muita vontade de fazer filosofia, não nos perguntávamos o que 
ela era, salvo por exercício de estilo; não tínhamos atingido este ponto de não-estilo em que se pode dizer 
enfim: mas o que é isso que fiz toda a minha vida? Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude 
mas, ao contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se desfruta de um momento de 
graça entre a vida e a morte, e em que todas as peças da máquina se combinam para enviar ao porvir um 
traço que atravesse as eras: Ticiano, Turner, Monet(1). Velho, Turner adquiriu ou conquistou o direito de 
conduzir a pintura por um caminho deserto e sem retorno que não se distingue mais de uma última questão. 
Talvez a Vie de Rance marque ao mesmo tempo a velhice de Chateaubriand e o início da literatura 
moderna(2). O cinema também nos oferece por vezes seus dons da terceira idade, onde Ivens, por exemplo, 
mistura seu riso com o da bruxa no vento solto. O mesmo ocorre na filosofia, a Crítica do juízo de Kant é uma 
obra de velhice, uma obra desatada atrás da qual não cessarão de correr
(1) Cf. Uoeuvre ultime, de Cézanne à Dubuffet, Fondation Maeght,
prefácio de Jean-Louis Prat.
(2) Barbéris, Chateaubriand, Ed. Larousse: "Rance, livro sobre a velhice como valor impossível, é um livro 
escrito contra a velhice no poder: é um livro de ruínas universais em que só se afirma o poder da escrita".
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seus descendentes: toil.is .is faculdades do espírito ultrapassam seus limites, estes mesmos limites que Kant 
tinha fixado tão cuidadosamente em seus livros de maturidade.
 Nós não podemos aspirar a um tal estatuto. Simplesmente chegou a hora, para nós, de perguntar o 
que é a filosofia. Nunca havíamos deixado de fazê-lo, e já tínhamos a resposta que não variou: a filosofia é a 
arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos. Mas não seria necessário somente que a resposta 
acolhesse a questão, seria necessário também que determinasse uma hora, uma ocasião, circunstâncias, 
paisagens e personagens, condições e incógnitas da questão. Seria preciso formulá-la "entre amigos", como 
uma confidencia ou uma confiança, ou então face ao inimigo como um desafio, e ao mesmo tempo atingir 
esta hora, entre o cão e o lobo, em que se desconfia mesmo do amigo. É a hora em