1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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"gosto".
 Como nenhum dos elementos se deduz dos outros, é necessário uma co-adaptação dos três. Chama-
se gosto esta faculdade filosófica de co-adaptação, e que regra a criação de conceitos. Se se chama Razão 
ao traçado do plano, Imaginação à invenção dos personagens, Entendimento à criação de conceitos, o gosto 
aparece como a tripla faculdade do conceito ainda indeterminado, do personagem ainda nos limbos, do plano 
ainda transparente. É por isso que é necessário criar, inventar, traçar, mas o gosto é como que a regra de 
correspondência das três instâncias que diferem em natureza. Não é certamente uma faculdade de medida. 
Não se encontrará nenhuma medida nestes movimentos infinitos que compõem o plano de imanência, estas 
linhas aceleradas sem
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contorno, estes declives e curvaturas, nem nestes personagens sempre excessivos, por vezes antipáticos, ou 
nestes conceitos de formas irregulares, de intensidades estridentes, de cores tão vivas e bárbaras que podem 
inspirar uma espécie de "desgosto" (notadamente nos conceitos repulsivos). Todavia, o que aparece em 
todos os casos como gosto filosófico é o amor do conceito bem feito, chamando "bem feito" não a uma 
moderação do conceito, mas a uma espécie de novo lance, de modulação, em que a atividade conceituai não 
tem limite nela mesma, mas somente nas duas outras atividades sem limites. Se os conceitos preexistissem 
já prontos, teriam limites a observar; mas mesmo o plano "pré-filosófico" só é assim nomeado porque se o 
traça como pressuposto, e não porque ele existiria antes de ser traçado. As três atividades são estritamente 
simultâneas e não têm relações senão incomensuráveis. A criação de conceitos não tem outro limite senão o 
plano que eles vêm povoar, mas o próprio plano é ilimitado, e seu traçado só se confunde com os conceitos 
por criar, que deve juntar, ou com os personagens por inventar, que deve entreter. É como em pintura: 
mesmo para os monstros e os anões, há um gosto segundo o qual eles devem ser bem feitos, o que não quer 
dizer neutralizados, mas que seus contornos irregulares devem ser postos em relação com uma textura da 
pele ou um fundo da Terra, como matéria germinal com a qual eles parecem brincar. Há um gosto pela cor 
que não vem moderar a criação de cores num grande pintor mas, ao contrário, conduz a criação até o ponto 
em que as cores desposam suas figuras feitas de contornos, e seu plano feito de fundos uniformes(*), 
curvaturas, arabes-cos. Van Gogh só conduz o amarelo até o ilimitado inventando o homem-girassol, e 
traçando o plano das pequenas vírgulas infinitas. O gosto pelas cores testemunha, ao mes-
(*) No original, aplat (N. dos T.).
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mo tempo, o respeito necessário a sua aproximação, a longa espera pela qual é necessário passar, mas 
também a criação sem limite que as faz existir. O mesmo ocorre com o gosto dos conceitos: o filósofo só se 
aproxima do conceito indeterminado com temor e respeito, hesita muito em se lançar, mas só pode 
determinar o conceito criando-o sem medida, um plano de imanência tendo como única regra que traça e 
como único compasso os personagens estranhos que ele faz viver. O gosto filosófico não substitui a criação 
de conceitos, nem a modera, é, ao contrário, a criação de conceitos que faz apelo a um gosto que a modula. 
A livre criação de conceitos determinados precisa de um gosto do conceito indeterminado. O gosto é esta 
potência, este ser-em-potência do conceito: não é certamente por razões "racionais ou razoáveis" que tal 
conceito é criado, tais componentes escolhidos. Nietzsche pressentiu esta relação da criação de conceitos 
com um gosto propriamente filosófico, e se o filósofo é aquele que cria conceitos, é graças a uma faculdade 
de gosto como um "sapere" instintivo, quase animal \u2014 um Fiat ou um Fatum que dá a cada filósofo o direito 
de aceder a certos problemas, como um sinete marcado sobre seu nome, como uma afinidade da qual suas 
obras promanam(11).
 Um conceito está privado de sentido enquanto não concorda com outros conceitos, e não está 
associado a um problema que resolve ou contribui para resolver. Mas importa distinguir os problemas 
filosóficos e os problemas científicos. Não se ganharia grande coisa, dizendo que a filosofia coloca 
"questões", já que as questões são somente uma palavra para designar problemas irredutíveis aos da 
ciência.
(11) Nietzsche, Musarion-Ausgabe, XVI, p. 35. Nietzsche invoca freqüentemente um gosto filosófico, e faz 
derivar o sábio de "sapere" ("sa-piens", o degustador, "sisyphos", o homem de gosto extremamente "sutil"): La 
naissance de Ia philosophie, Gallimard, p. 46.
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 Como os conceitos não são proposicionais, eles não podem remeter a problemas que concerniriam às 
condições extensionais de proposições assimiláveis às da ciência. Se insistimos, de qualquer modo, em 
traduzir o conceito filosófico em proposições, só podemos fazê-lo na forma de opiniões mais ou menos 
verossímeis, e sem valor científico. Mas topamos assim com uma dificuldade, que os gregos já enfrentavam. 
É mesmo o terceiro caráter pelo qual a filosofia passa por uma coisa grega: a cidade grega promoveu o 
amigo ou o rival como relação social, ela traça um plano de imanência, mas também faz reinar a livre opinião 
(doxa). A filosofia deve então extrair das opiniões um "saber" que as transforma e que também se distingue 
da ciência. O problema filosófico consiste em encontrar, em cada caso, a instância capaz de medir um valor 
de verdade das opiniões oponíveis, seja selecionando umas como mais sábias que as outras, seja fixando a 
parte que cabe a cada uma. Tal foi sempre o sentido do que se chama dialética, e que reduz a filosofia à 
discussão interminável12. Vemo-lo em Platão, no qual os universais de contemplação supostamente medem 
o valor respectivo das opiniões rivais, para elevá-las ao saber; é verdade que as contradições subsistentes 
em Platão, nos diálogos ditos aporéticos, forçam já Aristóteles a orientar a pesquisa dialética dos problemas 
na direção dos universais de comunicação (os tópicos). Em Kant ainda, o problema consistirá na seleção ou 
na partilha das opiniões opostas, mas graças a universais de reflexão, até que Hegel tenha a idéia de se 
servir da contradição das opiniões rivais, para delas extrair proposições supra-científicas, capazes de se 
mover, de se contemplar, se refletir, se comunicar em si mesmas e no absoluto (proposição especulativa, em 
que as opiniões se tornam
(12) Cf. Bréhier, "La notion de problème en philosophie", Études de philosophie antique, P.U.F.
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os momentos do conceito). Mas, sob as mais altas ambições da dialética, e qualquer que seja o gênio dos 
grandes dialéticos, recaímos na mais miserável condição, a que Nietzsche diagnosticava como a arte da 
plebe, ou o mau gosto em filosofia: a redução do conceito a proposições como simples opiniões; a submersão 
do plano de imanência nas falsas percepções e nos maus sentimentos (ilusões da transcendência ou dos 
universais); o modelo de um saber que constitui apenas uma opinião pretensamente superior, Urdoxa; a 
substituição dos personagens conceituais por professores ou chefes de escola. A dialética pretende encontrar 
uma discursi-vidade propriamente filosófica, mas só pode fazê-lo, encadeando as opiniões umas às outras. 
Ela pode ultrapassar a opinião na direção do saber, a opinião ressurge e persiste em ressurgir. Mesmo com 
os recursos de uma Urdoxa, a filosofia permanece uma doxografia. É sempre a mesma melancolia que se 
eleva das Questões disputadas e dos Quodlibets da Idade Média, em que se aprende o que cada doutor 
pensou, sem saber porque ele o pensou (o Acontecimento), e que se encontra em muitas histórias da filosofia 
nas quais se passa em revista as soluções, sem jamais saber qual é o problema (a substância