1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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ser..." (Ethernité, n° 
1,1985).
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 Hegel e Heidegger permanecem historicistas, na medida em que tomam a história como uma forma de 
interioridade, na qual o conceito desenvolve ou desvela necessariamente seu destino. A necessidade repousa 
sobre a abstração do elemento histórico tornado circular. Compreende-se mal então a imprevisível criação 
dos conceitos. A filosofia é uma geo-filosofia, exatamente como a história é uma geo-história, do ponto de 
vista de Braudel. Por que a filosofia na Grécia em tal momento? Ocorre o mesmo que para o capitalismo, 
segundo Braudel: por que o capitalismo em tais lugares e em tais momentos, por que não na China em tal 
outro momento, já que tantos componentes já estavam presentes lá? A geografia não se contenta em 
fornecer uma matéria e lugares variáveis para a forma histórica. Ela não é somente física e humana, mas 
mental, como a paisagem. Ela arranca a história do culto da necessidade, para fazer valer a irredutibilidade 
da contingência. Ela a arranca do culto das origens, para afirmar a potência de um "meio" (o que a filosofia 
encontra entre os gregos, dizia Nietzsche, não é uma origem, mas um meio, um ambiente, uma atmosfera 
ambiente: o filósofo deixa de ser um cometa...). Ela a arranca das estruturas, para traçar as linhas de fuga 
que passam pelo mundo grego, através do Mediterrâneo. Enfim, ela arranca a história de si mesma, para 
descobrir os devires, que não são a história, mesmo quando nela recaem: a história da filosofia, na Grécia, 
não deve esconder que os gregos sempre tiveram primeiro que se tornar filósofos, do mesmo modo que os 
filósofos tiveram que se tornar gregos. O "devir" não é história; hoje ainda a história designa somente o 
conjunto das condições, por mais recentes que sejam, das quais nos desviamos para um devir, isto é, para 
criarmos algo de novo. Os gregos o fizeram, mas não há desvio que valha de uma vez por todas. Não se 
pode reduzir a filosofia a sua própria história, porque a filosofia não cessa de se arrancar dessa história para 
criar novos con-
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ceitos, que recaem na história, mas não provêm dela. Como algo viria da história? Sem a história, o devir 
permaneceria indeterminado, incondicionado, mas o devir não é histórico. Os tipos psicossociais são da 
história, mas os personagens conceituais são do devir. O próprio acontecimento tem necessidade do devir 
como de um elemento não-histórico. O elemento não-histórico, diz Nietzsche, "assemelha-se a uma 
atmosfera ambiente sem a qual a vida não pode engendrar-se, vida que desaparece de novo quando essa 
atmosfera se aniquila". É como um momento de graça, e "onde há atos que o homem foi capaz de realizar 
sem se ter antes envolvido por esta nuvem não-histórica?"(7). Se a filosofia aparece na Grécia, é em função 
de uma contingência mais do que de uma necessidade, de um ambiente ou de um meio mais do que de uma 
origem, de um devir mais do que de uma história, de uma geografia mais do que de uma historiografia, de 
uma graça mais do que de uma natureza.
 Por que a filosofia sobrevive à Grécia? Não se pode dizer que o capitalismo, através da Idade Média, 
seja a continuação da cidade grega (mesmo as formas comerciais são pouco comparáveis). Mas, por razões 
sempre contingentes, o capitalismo arrasta a Europa numa fantástica desterritorialização relativa, que remete 
de início a vilas-cidades, e que procede ela também por imanência. As produções territoriais se reportam a 
uma forma comum imanente, capaz de percorrer os mares: a "riqueza em geral", o "trabalho simplesmente", e 
o encontro entre os dois como mercadoria. Marx constrói exatamente um conceito de capitalismo, 
determinando os dois componentes principais, trabalho nu e riqueza pura, com sua zona de 
indiscernibilidade, quando a riqueza compra o
(7) Nietzsche, Considérations intempestives, "De Putilité et des in-convénients des études historiques", § 1. 
Sobre o filósofo-cometa e o "meio" que ele encontra na Grécia, La naissance de Ia philosophie, Gal-limard, p. 
37.
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trabalho. Por que o capitalismo no Ocidente e não na China do século III, ou mesmo no século VIII(8)? É que 
o Ocidente monta e ajusta lentamente estes componentes, ao passo que o Oriente os impede de vir a termo. 
Só o Ocidente estende e propaga seus focos de imanência. O campo social não remete mais, como nos 
impérios, a um limite exterior que o limita de cima, mas a limites interiores imanentes, que não cessam de se 
deslocar, alargando o sistema, e que se reconstituem deslocando-se(9). Os obstáculos exteriores são apenas 
tecnológicos, e só subsistem as rivalidades internas. Mercado mundial que se estende até os confins da terra, 
antes de passar para a galáxia: mesmo os ares se tornam horizontais. Não é uma continuação da tentativa 
grega, mas uma retomada, numa escala anteriormente desconhecida, sob uma outra forma e com outros 
meios, que relança todavia a combinação da qual os gregos tiveram a iniciativa, o imperialismo democrático, 
a democracia colonizadora. O europeu pode pois se considerar, não como um tipo psicossocial entre os 
outros, mas como o Homem por excelência, assim como o grego já o fizera, mas com muito mais força 
expansiva e vontade missionária que o grego. Husserl dizia que os povos, mesmo em sua hostilidade, se 
agrupam em tipos que têm um "lar" territorial e um parentesco familiar, tal como os povos da índia; mas só a 
Europa, malgrado a rivalidade de suas nações, proporia a si mesma e aos outros povos "uma incitação a se 
europeizar cada vez mais", de modo que é a humanidade inteira que se aparenta a si neste Ocidente, como o 
fizera ou-
(8) Cf. Balazs, La bureaucratie celeste, Gallimard, cap. XIII.
(9) Marx, O Capital, III, 3, conclusões: "A produção capitalista tende sem cessar a ultrapassar estes limites 
que lhe são imanentes, mas ela não chega a isso senão empregando meios que, novamente e numa escala 
mais imponente, erguem ante ela as mesmas barreiras. A verdadeira barreira da produção capitalista é o 
capital ele mesmo...".
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trora na Grécia(10). Todavia, é difícil acreditar que seja a ascensão "da filosofia e das ciências coinclusas" o 
que explica este privilégio de um sujeito transcendental propriamente europeu. É preciso que o movimento 
infinito do pensamento, o que Husserl chama de Telos, entre em conjunção com o grande movimento relativo 
do capital, que não cessa de se desterritorializar, para assegurar o poder da Europa sobre todos os outros 
povos e sua reterritorialização sobre a Europa. O liame da filosofia moderna com o capitalismo é pois do 
mesmo gênero que o da filosofia antiga com a Grécia: a conexão de um plano de imanência absoluto com um 
meio social relativo que procede também por imanência. Não é uma continuidade necessária, que vai da 
Grécia à Europa, do ponto de vista do desenvolvimento da filosofia, por intermédio do cristianismo; é o 
recomeço contingente de um mesmo processo contingente, com outros dados.
 A imensa desterritorialização relativa do capitalismo mundial precisa se reterritorializar sobre o Estado 
nacional moderno, que culmina na democracia, nova sociedade de "irmãos", versão capitalista da sociedade 
dos amigos. Como mostra Braudel, o capitalismo partiu das vilas-cidades, mas estas levaram tão longe a 
desterritorialização que foi necessário que os Estados modernos imanentes moderassem a loucura delas, as 
recuperassem e as investissem, para operar as reterritorializações necessárias como novos limites 
internos(11). O capitalismo reativa o mundo grego sobre estas bases econômicas, políticas e sociais. É a 
nova Atenas. O homem do capitalismo não é Robinson, mas Ulisses, o plebeu astucioso, o homem médio 
qualquer, habitante das gran-
(10) Husserl, ha crise des sáences européennes..., Gallimard, pp. 353-355 (cf. os comentários de R.-P. Droit,