1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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Col 10-18, pp. 8-11; cf. também Philippe Lacoue-Labarthe, Uimitation des modernes, Ed. Galilée). 
Mesmo o texto célebre de Renan sobre o "milagre" grego tem um movimento complexo análogo: o que os 
gregos tinham por natureza, nós não podemos reencontrá-lo senão pela reflexão, confrontando um 
esquecimento e um tédio fundamentais; nós não somos mais gregos, nós somos bretões (Souvenirs 
d'enfance et de jeunesse).
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mas deixavam o Espírito nos "mistérios", enquanto que nós, nós vivemos, sentimos e pensamos no Espírito, 
na reflexão, mas deixamos a Natureza num profundo mistério alquímico, que não cessamos de profanar. O 
autóctone e o estrangeiro não se separam mais como dois personagens distintos, mas se distribuem como 
um só e mesmo personagem duplo, que se desdobra por sua vez em duas versões, presente e passada: o 
que era estrangeiro se torna autóctone. Hõlderlin conclama, com todas as suas forças, uma "sociedade de 
amigos" como condição do pensamento, mas é como se esta sociedade tivesse atravessado uma catástrofe 
que muda a natureza da amizade. Nós nos reterritorializamos entre os gregos, mas em função do que eles 
não tinham e não eram ainda, de modo que nós os reterritorializamos sobre nós mesmos.
 A reterritoríalização filosófica tem, pois, também uma forma presente. Pode-se dizer que a filosofia se 
reterritoria-liza sobre o Estado democrático moderno e os direitos do homem? Mas, como não há Estado 
democrático universal, este movimento implica a particularidade de um Estado, de um direito, ou o espírito de 
um povo, capaz de exprimir os direitos do homem em "seu" Estado, e de desenhar a moderna sociedade de 
amigos. Com efeito, não é somente o filósofo que tem uma nação, enquanto homem, é a filosofia que se 
reterritorializa sobre o Estado nacional e o espírito do povo (o mais freqüentemente aqueles do filósofo, mas 
nem sempre). Assim, Nietzsche fundou a geo-filosofia, procurando determinar os caracteres nacionais da 
filosofia francesa, inglesa e alemã. Mas por que três países somente foram coletivamente capazes de 
produzir filosofia no mundo capitalista? Por que não a Espanha, por que não a Itália? A Itália, notadamente, 
apresentava um conjunto de cidades desterritorializadas e uma potência marítima, capazes de renovar as 
condições de um "milagre", e marcou o começo de uma filosofia inigualável, mas que abortou, e cuja herança 
passa antes para a Alema-
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nha (com Leibniz e Schelling). Talvez a Espanha fosse por demais submissa à Igreja, e a Itália por demais 
"próxima" da Santa Sé; o que salvou espiritualmente a Inglaterra e a Alemanha foi talvez a ruptura com o 
catolicismo, e a França, o galicanismo... À Itália e à Espanha faltava um "meio" para a filosofia, de modo que 
seus pensadores permaneceram "cometas", e elas estavam dispostas a queimar seus cometas. A Itália e a 
Espanha foram os dois países ocidentais capazes de desenvolver poderosamente o conceitismo, isto é, o 
compromisso católico do conceito e da figura, que tinha um grande valor estético, mas mascarava a filosofia, 
desviava a filosofia para uma retórica e impedia uma plena posse do conceito. A forma presente se enuncia 
assim: nós temos os conceitos! Enquanto que os gregos não os "tinham" ainda, e os contemplavam de longe, 
ou os pressentiam: daí decorre a diferença entre a reminiscência platônica e o inatismo car-tesiano ou o a 
priori kantiano. Mas a posse do conceito não parece coincidir com a revolução, o Estado democrático e os 
direitos do homem. Se é verdade que, na América, a empresa filosófica do pragmatismo, tão subestimada na 
França, está em continuidade com a revolução democrática e a nova sociedade de irmãos, não ocorre o 
mesmo com a idade de ouro da filosofia francesa no século XVII, nem com a Inglaterra no século XVIII, nem 
com a Alemanha no século XIX. Mas isto significa somente que a história dos homens e a história da filosofia 
não têm o mesmo ritmo. E a filosofia francesa já exige uma república de espíritos e uma capacidade de 
pensar como "a coisa melhor partilhada", que terminará por se exprimir num cogito revolucionário; a Inglaterra 
não cessará de refletir sobre sua experiência revolucionária e será a primeira a perguntar por que as 
revoluções dão errado nos fatos, quando tanto prometem em espírito. A Inglaterra, a América e a França 
vivem a si mesmas como as três terras dos direitos do homem. Quanto à Alemanha,
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ela não cessa, de sua parte, de refletir sobre a revolução francesa, como aquilo que ela não pode fazer 
(faltam-lhe cidades suficientemente desterritorializadas, ela sofre o peso de uma hinterlândia, o Land). Mas o 
que ela não pode fazer, ela se dá por tarefa pensar. É sempre em conformidade com o espírito de um povo e 
sua concepção do direito que a filosofia se reterritorializa no mundo moderno. A história da filosofia é, pois, 
marcada por caracteres nacionais, ou antes nacionalitários, que são como "opiniões" filosóficas.
 EXEMPLO VIII
 Se é verdade que nós, homens modernos,, temos o conceito, mas perdemos de vista o plano de 
imanência, o caráter francês em filosofia tem a tendência a se aproveitar desta situação, sustentando os 
conceitos por uma simples ordem do conhecimento reflexivo, uma ordem de razões, uma "epistemologia". É 
como o recenseamento das terras habitáveis, civilizáveis, co-nhecíveis ou conhecidas, que se medem por 
uma "tomada" de consciência ou cogito, mesmo se o cogito deve tornar-se pré-reflexivo, e esta consciência, 
não-tética, para cultivar as terras mais ingratas. Os franceses são como proprietários rurais cuja renda é o 
cogito. Eles são sempre reterritorializados sobre a consciência. A Alemanha, pelo contrário, não renuncia ao 
absoluto: ela se serve da consciência, mas como de um meio de desterri-torialização. Ela quer reconquistar o 
plano de imanência grego, a terra desconhecida que ela sente agora como sua própria barbárie, sua própria 
anarquia deixada aos nômades depois da desaparição dos gregos(15). Também
(15) Devemo-nos remeter às primeiras linhas do prefácio da primeira edição da Crítica da Razão pura: "O 
terreno onde se travam os combates se chama a Metafísica... No início, sob o reino dos dogmáticos, seu 
poder era despótico. Mas, como sua legislação levava ainda a marca da antiga barbárie, esta metafísica cai 
pouco a pouco, em conseqüência de guerras intestinas, numa completa anarquia, e os céticos, espécies de 
nômades que têm horror de se estabelecer definitivamente sobre uma terra, rompiam, de tempos em tempos, 
o liame social. Todavia, como não eram felizmente senão um pequeno número, eles não puderam impedir 
seus adversários de tentar sempre novamente, mas de resto sem nenhum plano entre eles previamente 
concertado, restabelecer este liame quebrado...". E sobre a ilha da fundação, o grande texto da "Analítica dos 
princípios", no começo do capítulo III. As Críticas não compõem somente uma "história", mas sobretudo uma 
geografia da Razão, segundo a qual se distingue um "campo", um "território" e um "domínio" do conceito 
(Crítica do juízo, introdução, § 2). Jean-Clet Martin fez uma bela análise desta geografia da Razão pura em 
Kant: Variations, no prelo.
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lhe é necessário, sem cessar, limpar e consolidar este solo, isto é, fundar. Uma mania de fundar, de 
conquistar, inspira esta filosofia; o que os gregos tinham por aut-octonia, ela o terá por conquista e fundação, 
de modo que ela tornará a imanência imanente a algo, a seu próprio Ato de filosofar, a sua própria 
subjetividade filosofante (o cogito toma, pois, um sentido inteiramente diferente, já que ele conquista e fixa o 
solo).
 Deste ponto de vista, a Inglaterra é á obsessão da Alemanha; pois os ingleses são precisamente esses 
nômades que tratam o plano de imanência como um solo móvel e movente, um campo de