1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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os prospectos de uma proposição (passagem da proposição científica à proposição lógica).
 As frases não têm auto-referência, como o mostra o paradoxo do "eu minto". Mesmo os performativos 
não são auto-referenciais, mas implicam numa exo-referência da proposição (a ação que lhe está ligada por 
convenção, e que realizamos enunciando a proposição) e uma endo-referência (o título ou o estado de coisas 
sob o qual se é habilitado a formular o enunciado: por exemplo, a intensão do conceito no enunciado "eu juro" 
é testemunho no tribunal, criança à qual se censura algo, enamorado que se declara, etc.)(2). Em 
contrapartida, se emprestamos à frase uma auto-consistência, esta só pode residir na não-contradição formal 
da proposição ou das proposições entre si. Mas quer dizer que as proposições não gozam materialmente de 
qualquer endo-consistência, nem de exo-consistência. Na medida em que um número cardi-nal pertence ao 
conceito proposicional, a lógica das proposições precisa de uma demostração científica da consistência da 
aritmética dos números inteiros, a partir de axiomas; ora, segundo os dois aspectos do teorema de Gõdel, a 
demonstração de consistência da aritmética não pode ser representada no interior do sistema (não há endo-
consistência), e o sistema se choca necessariamente com enunciados verdadeiros que não são todavia 
demonstráveis, que permanecem indecidíveis (não há exo-consistência, ou o sistema consis-
(2) Oswald Ducrot criticou o caráter auto-referencial que se empresta aos enunciados performativos (o que se 
faz dizendo: eu juro, eu prometo, eu ordeno...). Dire et ne pas dire, Ed. Hermann, p. 72 e ss.
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tente não pode ser completo). Em resumo, tornando-se pro-posicional, o conceito perde todos os caráteres 
que possuía como conceito filosófico, sua auto-referência, sua endo-consistência e sua exo-consistência. É 
que um regime de independência substituiu o da inseparabilidade (independência das variáveis, dos axiomas, 
e das proposições indecidíveis). Mesmo os mundos possíveis, como condições de referência, são cortados 
do conceito de Outrem que lhes daria consistência (de modo que a lógica se acha estranhamente desarmada 
diante do solipsismo). O conceito em geral não tem mais uma cifra, mas um número aritmético; o indecidível 
não marca mais a inseparabilidade dos componentes intencionais (zona de indiscernibilidade) mas, ao 
contrário, a necessidade de distingui-los, segundo a exigência da referência, que torna toda consistência (a 
autoconsistência) "incerta". O próprio número marca um princípio geral de separação: "o conceito letra da 
palavra Zabl separa Z de a, a de h, etc". As funções tiram toda sua potência da referência, seja a estados de 
coisas, seja a coisas, seja a outras proposições: é fatal que a redução do conceito à função o prive de todos 
seus caráteres próprios, que remetem a uma outra dimensão.
 Os atos de referência são movimentos finitos do pensamento, pelos quais a ciência constitui ou 
modifica estados de coisas e de corpos. Pode-se dizer, também, que o homem histórico opera tais 
modificações, mas em condições que são as do vivido, em que os functivos são substituídos por percepções, 
afecções e ações. Não ocorre o mesmo com a lógica: como ela considera a referência vazia nela mesma, 
como simples valor de verdade, só pode aplicá-la a estados de coisas ou a corpos já constituídos, seja nas 
proposições adquiridas da ciência, seja nas proposições de fato (Napoleão é o vencido de Waterloo), seja em 
simples opiniões ("X acredita que..."). Todos esses tipos de proposições são prospectos, com valor de 
informação. A lógica tem pois um paradigma,
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ela é mesmo o terceiro caso de paradigma, que não é mais o da religião nem da ciência, e que é como que a 
recognição do verdadeiro nos prospectos ou nas proposições informativas. A expressão técnica 
"metamatemática" mostra bem a passagem do enunciado científico à proposição lógica, sob uma forma de 
recognição. É a projeção deste paradigma que faz que os conceitos lógicos não sejam, por sua vez, senão 
figuras, e que a lógica seja uma ideografia. A lógica das proposições precisa de um método de projeção, e o 
próprio teorema de Gõdel inventa um modelo projetivo(3). É como uma deformação regrada, oblíqua, da 
referência com relação a seu estatuto científico. A lógica tem o ar de se debater eternamente na questão 
complexa de sua diferença com a psicologia; todavia, é-lhe concedido facilmente que ela erige, em modelo, 
uma imagem de direito do pensamento, que não é de maneira alguma psicológica (sem por isso ser 
normativa). A questão reside antes no valor desta imagem de direito, e no que ela pretende nos ensinar sobre 
os mecanismos de um pensamento puro.
 De todos os movimentos, mesmo finitos, do pensamento, a forma da recognição é certamente a que 
vai o menos longe, a mais pobre e a mais infantil. Em todos os tempos a filosofia correu este perigo, que 
consiste em medir o pensamento com ocorrências tão desinteressantes quanto dizer "bom dia, Teodoro", 
quando é Teeteto que passa; a imagem clássica do pensamento não está ao abrigo destas aventuras que se 
devem à recognição do verdadeiro. Ter-se-á dificuldade em acreditar que os problemas do pensamento, tanto 
em ciência como em filosofia, tenham a ver com tais casos: um problema, enquanto criação de pensamento, 
nada tem a ver com uma interrogação, que não é senão uma proposi-
(3) Sobre a projeção e o método de Gõdel, Nagel e Newman, Le théo-reme de Gòdel, Ed. du Seuil, p. 61-69.
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ção suspensa, o pálido duplo de uma afirmativa que se supõe servir-lhe de resposta ("qual é o autor de 
Waverley}", "Scott é o autor de Waverley?") A lógica é sempre vencida por si mesma, isto é, pela 
insignificância dos casos de que se alimenta. Em seu desejo de suplantar a filosofia, a lógica desliga a 
proposição de todas suas dimensões psicológicas, mas não deixa de conservar o conjunto dos postulados 
que limitava e submetia o pensamento às coerções de uma recognição do verdadeiro na proposição(4). E 
quando a lógica se aventura num cálculo de problemas, é decalcando o cálculo de proposições, em 
isomorfismo com ele. Dir-se-ia menos um jogo de xadrez ou de linguagem, que um jogo de questões para 
programas de televisão. Mas os problemas não são jamais proposicionais.
 Ao invés de um encadeamento de proposições, valeria mais a pena revelar o fluxo do monólogo 
interior, ou as estranhas bifurcações da conversação mais ordinária, desligan-do-as, também elas, de suas 
aderências psicológicas e sociológicas, para poder mostrar como o pensamento, como tal, produz algo de 
interessante, quando acede ao movimento infinito que o libera do verdadeiro como paradigma suposto e 
reconquista um poder imanente de criação. Mas, para isto, seria necessário que o pensamento fosse até o 
interior dos estados de coisas ou dos corpos científicos em vias de constituição, a fim de penetrar na 
consistência, isto é, na esfera do virtual, que nada faz senão atualizar-se neles. Seria preciso subir de novo o 
caminho que a ciência desce, e em baixo do qual a lógica instala seus campos. (O mesmo vale para a 
História, em que é preciso atingir a névoa não-histó-
(4) Sobre a concepção da proposição interrogativa por Frege, "Recherches logiques" (Ecrits logiques et 
philosophiques, p. 175). O mesmo vale para os três elementos: a captação do pensamento ou o ato de 
pensar; a recognição da verdade de um pensamento, ou o juízo; a manifestação do juízo ou a afirmação. E 
Russell, Príncipes de Ia mathématique, § 477.
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rica que ultrapassa os fatores atuais em proveito de uma criação de novidade.) Mas esta esfera do virtual, 
este Pensamento-Natureza, é o que a lógica só é capaz de mostrar, segundo uma frase