1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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famosa, sem poder 
jamais apreendê-lo em suas proposições, nem remetê-lo a uma referência. Então, a lógica se cala, e ela só é 
interessante quando se cala. Paradigma por paradigma, ela se identifica, então, com uma espécie de 
budismo zen.
 Confundindo os conceitos com funções, a lógica faz como se a ciência se ocupasse já com conceitos, 
ou formasse conceitos de primeira zona. Mas ela própria deve dobrar as funções científicas com funções 
lógicas, que, se supõe, formam uma nova classe de conceitos puramente lógicos, ou de segunda zona. É um 
verdadeiro ódio que anima a lógica, na sua rivalidade ou sua vontade de suplantar a filosofia. Ela mata o 
conceito duas vezes. Todavia o conceito renasce, porque não é uma função científica, e porque não é uma 
proposição lógica: ele não pertence a nenhum sistema discursivo, não tem referência. O conceito se mostra, 
e nada mais faz que se mostrar. Os conceitos são monstros que renascem de seus pedaços.
 A própria lógica deixa por vezes renascer os conceitos filosóficos, mas sob que forma e em que 
estado? Como os conceitos em geral encontraram um estatuto pseudo-rigoroso nas funções científicas e 
lógicas, a filosofia herda conceitos de terceira zona, que escapam ao número e não constituem mais 
conjuntos bem definidos, bem recortados, relacionáveis a misturas determináveis como estados de coisas 
físico-matemáticos. São antes conjuntos vagos ou confusos, simples agregados de percepções e de 
afecções, que se formam no vivido como imanente a um sujeito, a uma consciência. São multiplicidades 
qualitativas ou intensivas, tal como o "vermelho", o "calvo", em que não se pode decidir se certos elementos 
pertencem ou não ao conjunto. Esses
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conjuntos vividos exprimem-se numa terceira espécie de prospectos, não mais de enunciados científicos ou 
de proposições lógicas, mas de puras e simples opiniões do sujeito, avaliações subjetivas ou juízos de gosto: 
já é vermelho, está quase calvo... Entretanto, mesmo para um inimigo da filosofia, não é nesses juízos 
empíricos que se encontra imediatamente o refúgio dos conceitos filosóficos. É preciso descobrir funções, de 
que esses conjuntos confusos, esses conteúdos vividos são somente variáveis. E, neste ponto, encontramo-
nos ante uma alternativa: ou se chegará a reconstituir, para estas variáveis, funções científicas ou lógicas, 
que tornarão definitivamente inútil o apelo a conceitos filosóficos(5); ou então deveremos inventar um novo 
tipo de função propriamente filosófica, terceira zona em que tudo parece inverter-se bizarramente, já que ela 
será encarregada de suportar as duas outras.
 Se o mundo do vivido é como a terra, que deve fundar ou suportar a ciência e a lógica dos estados de 
coisas, é claro que conceitos aparentemente filosóficos são requeridos para operar essa fundação primeira. O 
conceito filosófico requer, então, uma "pertença" a um sujeito, e não mais uma pertença a um conjunto. Não 
que o conceito filosófico se confunda com o simples vivido, mesmo definido como uma multiplicidade de 
fusão, ou como imanência de um fluxo ao sujeito; o vivido só fornece variáveis, ao passo que os
(5) Por exemplo, introduz-se graus de verdade entre o verdadeiro e o falso (1 e 0), que não são 
probabilidades, mas operam uma espécie de fractalização das cristas de verdade e dos baixios de falsidade, 
de modo que os conjuntos confusos tornem-se novamente numéricos, mas sob um número fracionário entre 0 
e 1. A condição todavia é que o conjunto confuso seja o subconjunto de um conjunto normal, remetendo a 
uma função regular. Cf. Arnold Kaufmann, Introduction à Ia théorie des sous-ensembles flous, Ed. Masson. E 
Pascal Engel, La norme du vrai, Galli-mard, que consagra um capítulo ao "vago".
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conceitos devem ainda definir verdadeiras funções. Essas funções terão somente referência ao vivido, como 
as funções científicas aos estados de coisas. Os conceitos filosóficos serão funções do vivido, como os 
conceitos científicos são funções de estados de coisas; mas agora a ordem ou a derivação mudam de 
sentido, já que essas funções do vivido se tornam primeiras. É uma lógica transcendental (pode-se chamá-la 
também de dialética), que esposa a terra e tudo o que ela carrega, e que serve de solo primordial para a 
lógica formal e para as ciências regionais derivadas. Será preciso que, no seio mesmo da imanência do vivido 
a um sujeito, se descubram atos de transcendência do sujeito, capazes de constituir as novas funções de 
variáveis ou as referências conceituais: o sujeito, neste sentido, não é mais solipsista e empírico, mas 
transcendental. Vimos que Kant tinha começado a realizar essa tarefa, mostrando como os conceitos 
filosóficos remetiam necessariamente à experiência vivida por proposições ou juízo a priori, como funções de 
um todo da experiência possível. Mas é Husserl que vai até o fim descobrindo, nas multiplicidades não-
numéricas ou nos conjuntos fusionais imanentes perceptivo-afetivos, a tríplice raiz dos atos de 
transcendência (pensamento), pelos quais o sujeito constitui, de início, um mundo sensível povoado de 
objetos, depois um mundo intersubjetivo povoado de outrem, enfim um mundo ideal comum que as 
formações científicas, matemáticas e lógicas povoarão. Os numerosos conceitos fenomenológicos ou 
filosóficos (tais como "o ser no mundo", "a carne", "a idealidade", etc.) serão a expressão desses atos. Não 
são somente vividos imanentes ao sujeito solipsista, mas as referências do sujeito transcendental ao vivido; 
não são variáveis, perceptivo-afetivas, mas as grandes funções que encontram nestas variáveis seu percurso 
respectivo de verdade. Não são conjuntos vagos ou confusos, subconjuntos, mas totalizações que excedem 
toda po-
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tência dos conjuntos. Não são somente juízos ou opiniões empíricas, mas proto-crenças, Urdoxa, opiniões 
originárias como proposições(6). Não são os conteúdos sucessivos do fluxo de imanência, mas os atos de 
transcendência, que o atravessam e o carregam, determinando as "significações" da totalidade potencial do 
vivido. O conceito como significação é tudo isso ao mesmo tempo, imanência do vivido ao sujeito, ato de 
transcendência do sujeito com relação às variações do vivido, totalização do vivido ou função destes atos. 
Dir-se-ia que os conceitos filosóficos só se salvam ao aceitar tornarem-se funções especiais, e 
desnaturalizando a imanência de que ainda carecem: como a imanência não é mais que a do vivido, ela é 
forçosamente imanência a um sujeito, cujos atos (funções) serão os conceitos relativos a este vivido \u2014 como 
vimos, seguindo a longa desnaturação do plano de imanência.
 Embora seja perigoso para a filosofia depender da generosidade dos lógicos, ou de seus remorsos, 
podemos perguntar se não podemos encontrar um equilíbrio precário entre os conceitos científico-lógicos e 
os conceitos fenomenológico-filosóficos. Gilles-Gaston Granger pôde propor uma repartição em que o 
conceito, sendo de início determinado como função científica e lógica, deixa todavia um lugar de terceira 
zona, mas autônomo, a funções filosóficas, funções ou significações do vivido, como totalidade virtual (os 
conjuntos confusos parecem desempenhar um papel de eixo ar-ticulador entre as duas formas de 
conceitos)(7). A ciência ar-
(6) Sobre as três transcendências que aparecem no campo de imanência, a primordial, a intersubjetiva e a 
objetiva, cf. Husserl, Méditations cartésiennes, Ed. Vrin, notadamente § 55-56. Sobre a Urdoxa, Idées 
directrices pour une phénoménologie, Gallimard, notadamente § 103-104; Expérience et jugement, P.U.F.
(7) G.-G. Granger, Pour Ia connaissance philosophique, cap. VI e VII. O conhecimento do conceito filosófico 
reduz-se